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Estilhaços de memória: sobrevida e dissolução da UNE (1969-1973)

19/05/2015 às 17:26, por Carlos Henrique Menegozzo.

Muitos estudantes e pesquisadores acreditam que a repressão ao Congresso de Ibiúna tenha marcado a definitiva desarticulação do movimento estudantil no final dos anos 1960. Na verdade, a UNE seguiu organizada, tendo sido dissolvida apenas em 1973. A memória desse período acaba ofuscada de um lado pelas manifestações de 1968; e de outro pela retomada do movimento estudantil dos anos 1970. Com este artigo, a Comissão Nacional da Verdade da UNE oferece subsídios para o preenchimento desta lacuna, aproveitando para isso conteúdos produzidos ou mapeados pelo Projeto Memória do Estudantil em 2005.

 

Remontagem do 30º Congresso da UNE (out. 1968 / abr. 1969)

 

Da prisão à libertação dos delegados presos (out./nov. 1968)

 

Ao longo de toda década de 1960 o movimento estudantil ganhou força no Brasil, e esse impulso culminou no 30º Congresso Nacional da UNE, realizado em outubro de 1968 no município de Ibiúna. Por isso, a “queda” do Congresso, interrompido pela repressão, representou um duro golpe contra o movimento – até então um dos principais setores da oposição à ditadura instaurada no país com o golpe de 1964. Na ação policial foram detidos cerca de 800 estudantes, provenientes de todas as regiões. Segundo Jean Marc von der Weid, um dos candidatos à presidência apresentados em Ibiúna, a UNE saiu bastante abalada do processo: além da necessidade de se recomeçar toda a montagem do Congresso, a prisão dos delegados possibilitou o “fichamento de mais de mil lideranças em todo o Brasil”, fornecendo a base de informações sobre a qual assentou-se a repressão posterior no período 1969-1974 (Weid, 1981, p. 86; Santos, 1981).

Depois de presos, os estudantes foram levados ao Presídio Tiradentes, em São Paulo, de onde seriam enviados aos estados para triagem. A rearticulação do movimento após a “queda” iniciou-se no próprio presídio. Primeiro, os presos realizaram uma greve de fome para quebrar a incomunicabilidade, sendo vitoriosos no segundo dia. Em seguida, estabeleceram uma postura coletiva diante dos interrogatórios: sobre a proposta de declaração aberta de que na chácara de fato realizava-se o Congresso, venceu o encaminhamento segundo o qual todos declaravam estar num grande piquenique. Um terceiro fato importante foi o debate realizado na prisão sobre a remontagem do Congresso. Ali surgiram três posições, que se manteriam ao longo das discussões após a soltura dos delegados: a) convocar eleições diretas; b) realizar um novo Congresso; c) realizar Congressos Regionais (Santos, 1981, p. 73).

A pronta reação estudantil às prisões, dentro e fora do presídio, suscitou uma verdadeira crise política, o que apressou a liberação dos presos (Valle, 1998). A pressa foi tanta que a polícia, incapazes de proceder à triagem que se pretendia, acabou liberando importantes lideranças estaduais e nacionais. Dentre elas, Luis Raul Machado, José Arantes e Nilton Santos. vinculados, cada qual, a uma das três principais correntes organizadas no movimento estudantil: o primeiro pertencia ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR); o segundo – futuro membro da Ação de Libertadora Nacional (ALN) – representava uma frente que reunia sobretudo as Dissidências do PCB; o terceiro, representava as posições da Ação Popular (AP).

No momento de soltura dessas lideranças – ainda em outubro de 1968 – a possibilidade de endurecimento por parte do governo já era esperada, e em função disso debatia-se a linha a ser adotada pelo movimento na nova conjuntura. Mais uma vez, foram três as posições surgidas no debate: a antiga maioria, representada pelas correntes de Arantes e Santos, divergentes nessa questão em particular, propunham a preparação da luta armada e a acumulação de forças no meio operário e popular, respectivamente. O setor minoritário, encabeçado por Machado, propunha a concentração de forças no próprio movimento estudantil e na continuidade das ações exemplares (Santos, 1981, pp. 74-75). Nesse contexto, também a UEE-SP debatia a dificuldade e os métodos de renovação da sua direção (Jornal da UEE, 1969a, p. 3; 1969c).

 

Conselho Nacional de Estudantes, em São Paulo (nov. 1968)

 

Apesar do impacto sofrido com a repressão ao Congresso e graças à libertação de parte dos delegados presos, o movimento reúne forças para a realizar em São Paulo, em novembro de 1968, um Conselho Nacional de Estudantes. Nele se discutiu o modo pelo qual o 30o Congresso da UNE, interrompido, poderia ser concluído, e a uma nova diretoria, eleita (Machado, 1981, p. 64). As três posições surgidas no Tiradentes foram então recolocadas: Machado propunha um Congresso Nacional, Arantes propunha a realização de Congressos Regionais, enquanto Santos sustentava a proposta de eleições diretas. Paralelamente, procurava-se dar continuidade à pressão pela libertação de estudantes ainda presos e explicitavam-se as divergências presentes no meio estudantil através dos principais meios de comunicação de massa (Santos, 1981, pp. 75-76).

Machado, em defesa da proposta de remontagem do Congresso, argumentava, por um lado, que uma remontagem bem sucedida poderia imprimir importante derrota sobre a Ditadura e, por outro, que a realização dos Congressos Regionais tornaria o processo menos representativo. Arantes explicitava crescente disposição de enfrentamento armado, o que justificava a realização de Congressos Regionais – descentralizados, seriam mais dificilmente reprimidos. Santos também acreditava na impossibilidade de organização de um novo Congresso Nacional, mas considerava a realização dos Congressos Regionais um recuo por parte do movimento – propunha a eleição direta da nova diretoria por acreditar que naquele momento a entidade deveria procurar apoiar-se no “movimento de massa” (Santos, 1981, pp. 75-76).

O Conselho acabou encaminhando a proposta de realização dos Congressos Regionais, que teriam inicio já a partir de novembro. Além disso, deliberou que até a finalização do processo e a eleição da nova diretoria a UNE seria dirigida por um colegiado provisório composto pelos candidatos à presidência da entidade apresentados em Ibiúna: Jean Marc von der Weid, pela chapa “Unidade e Luta” (AP e PCdoB), Rafael de Falco Neto pela chapa “Nova UNE” (frente de dissidências do PCB), substituindo José Dirceu, detido no Congresso; aos quais somou-se Marcos Medeiros (PCBR), pela chapa “Integração e Luta”, formada depois de Ibiúna (Weid, 1981, p. 86).

 

A remontagem do 30o Congresso da UNE (nov. 1968 / abr. 1969)

 

Os Congressos Regionais foram realizados de novembro de 1968 a abril de 1969, tendo sido o AI-5 baixado neste período. O processo de organização foi prejudicado pelo desfalque de lideranças importantes, já presas ou assassinadas. Alguns Congressos seriam suspensos por questão de segurança (Carvalho, 1981, p. 93). Os demais foram realizados em condições especialmente precárias: em casas particulares às escondidas, em praias desertas e até numa Kombi em movimento – conhecido como “mini-congresso da Kombi”, sujeito à contestação futura no Conselho Nacional de Estudantes (Machado, 1981, p. 64). Uma das exceções ocorreu em São Paulo: lá foram realizados realizados três Congressos Regionais (no CRUSP, em Campinas e em Ribeirão Preto) e tudo se deu de maneira aberta, com cobertura da imprensa e sem interferência policial. Outra exceção aconteceu no Paraná, onde o Congresso Regional foi interrompido pela repressão, tendo “caído” em dezembro de 1968 (Heller, 1988).

No processo, três foram as chapas apresentadas: a chapa encabeçada por Jean Marc von der Weid, indicada por Luis Travassos e denominada “Unidade e Luta”, era composta de seis militantes da AP e quatro do PCdoB, incorporados após Ibiúna. A de Rafael de Falco Neto, denominada “Nova UNE”, era composta por uma ampla frente de dissidências anti-AP. Por fim, havia ainda a chapa encabeçada por Marcos Medeiros, denominada “Integração e Luta”, formada por integrantes do PCBR, que passava a ocupar a posição do PCB enquanto “minoria”, já que o “partidão” encontrava-se marginalizado no meio estudantil (Poerner, 2004, p. 278; Ridenti, 1993, p. 135).

Na opinião de Jean Marc, o intervalo entre a eleição dos delegados para os Congressos Regionais, iniciada em novembro de 1968, e a eleição da nova diretoria, consumada em maio de 1969, provocou uma dicotomia: as posições dos delegados nos Congressos estavam marcadas por debates referenciados numa conjuntura anterior à ao AI-5, relativamente superada quando da finalização dos Congressos, em abril de 1969. Segundo Jean Marc e Genoíno, na impossibilidade de realização de novas eleições, seria natural que os delegados adequassem suas posições à nova conjuntura, o que de fato não ocorreu. Procedeu-se a uma formalização do Congresso de Ibiúna, através da reafirmação de uma concepção por muitos considerada voluntarista do processo revolucionário – apenas alguns reviram suas posições e, assim, como veremos adiante, acabaram por decidir o resultado final da eleição (Weid, 1981, p. 87; Genoíno Neto, 1981, p. 99).

 

Fuga de Jean Marc e a “queda” do Congresso do Paraná (dez. 1968)

 

Vitório Sorotiuk, um dos participantes do Congresso do Paraná, integrava a delegação do estado presente em Ibiúna e foi um dos que permaneceu por três dias no Presídio Tiradentes, até que toda a delegação paranaense foi transferida de ônibus para Curitiba. Curioso é o fato de que Jean Marc von der Weid, candidato à presidência no 30º Congresso, buscando driblar a repressão na “queda” do Congresso, assumiu uma “identidade alternativa”: trocou roupa, óculos, penteado e passou a identificar-se como Carlos Alberto Coimbra, estudante de direito em Maringá. Então no ônibus que rumou à Curitiba, com Vitório e os demais delegados paranaenses, vinha também Jean Marc disfarçado (Weid, 2004, p. 18).

Em Curitiba, após intensas manifestações, foram liberados (Vitório, Jean Marc e os demais), tendo ambos participado de protestos pela libertação dos delegados ainda presos. Nesse contexto, a União Paranaense de Estudantes (UPE) é forçosamente fechada. Jean Marc permaneceria um tempo em Curitiba, retornando posteriormente a São Paulo. Vitório, por sua vez, recorda-se de uma manifestação convocada para a Rua XV de Novembro, quando ocorreram confrontos com a polícia. Relata ter buscado refúgio no Diário do Paraná, situado na Rua José Loureiro. Foi recebido com solidariedade pelos jornalistas e escondido na câmara escura do Departamento Fotográfico, de onde saltou da janela para o telhado de prédios vizinhos, escapando de uma nova prisão (Heller, 1988, p. 298, 302-303 e 341).

No contexto daquelas manifestações, foram decretadas a prisão preventiva de cerca de 80 lideranças estudantis paranaenses, entre as quais Stênio Sales Jacob, então presidente da UPE, e Humberto Curvo, além do próprio Vitório. Com prisão preventiva decretada, Vitório concorreu à presidência do DCE da UFPR, em vitoriosa campanha que incluiu esquemas de segurança e ampla campanha na universidade. Impedida de tomar posse pelo Reitor, a chapa eleita decidiu encenar a peça “O Santo Inquérito”, de Dias Gomes, assumindo publicamente a direção da entidade naquele ato cultural, que contou com a participação de centenas de estudantes. Foi, portanto, na condição de presidente do DCE que Vitório compareceu ao Congresso do Paraná, onde foi novamente detido (Heller, 1988, p. 302).

A tentativa de realização do Congresso do Paraná ocorreu em dezembro de 1968. A reunião havia sido convocada para um sítio conhecido como Sítio do Alemão, disfarçado de churrascada. Por ironia, o sítio era vizinho do Quartel do Boqueirão. Segundo Judith Trindade, participante do Congresso, a invasão policial ocorreu antes mesmo do início dos trabalhos. A polícia tinha prévio conhecimento do encontro e depois se descobriu que trabalhadores presentes no sítio eram na verdade policiais disfarçados. A operação, articulada pelo Exército e polícias civil e militar, envolveu um grande efetivo armado, o que não deu aos estudantes chance alguma de escaparem. Nela foram detidos 42 estudantes, entre eles Olien Lustoza de Moraes, Vitório Sorotiuk, Judith Trindade, Mauro Daisson Otero Goulart e Elisabeth Fortes (Heller, 1988, p. 305 e 310).

 

Prisão e julgamento dos presos no Sítio do Alemão (dez. 1968 / abr. 1969)

 

Dos 42 detidos, 25 foram liberados e 17 enfrentaram processo na Justiça Militar, sofrendo penas de um ano a um ano e meio de detenção. Segundo Mauro, um dos estudantes presos, as prisões foram respondidas com protesto e uma verdadeira “batalha campal” entre estudantes e policiais se instalou Centro Politécnico, culminando na ocupação da reitoria da UFPR (Heller, 1988, p. 305). Os presos foram inicialmente levados ao Regimento “Coronel Dulcídio”, sendo em seguida, e sem o conhecimento dos familiares, transferidos para o Presídio do Ahu, onde permaneceram incomunicáveis (Heller, 1988, p. 341-342). Fichados e qualificados, foram mantidos por dois dias sem comida, e depois apresentados como “subversivos” em pomposo jantar oferecido à imprensa com a presença do Secretário de Segurança do Estado e outras autoridades (Heller, 1988, p. 310).

No Presídio do Ahu, os 17 estudantes ainda presos conviveram com outros presos políticos, brutalizados nos porões da repressão, entre eles militantes respondendo processo por envolvimento com o PCBR no estado (Heller, 1988, p. 308). A primeira audiência ocorreu no início de 1969. Nela a defesa solicitou relaxamento da prisão para que respondessem processo em liberdade – pedido atendido para os casos de Elisabeth Fortes e Judith Trindade. A decisão, todavia, tomada pela Justiça Militar, foi contestada pela polícia estadual. Liberadas na madrugada, ambas foram convidadas no dia seguinte a prestar esclarecimentos na sede DOPS, situada na Rua João Negrão, e acabaram novamente presas, assim permanecendo até o julgamento do processo em abril de 1969 (Heller, 1988, p. 310-311).

Em abril, na data do julgamento, o público foi impedido pela polícia de permanecer no recinto e uma pequena multidão se formou do lado de fora, aplaudindo ou vaiando conforme chegavam as informações. O julgamento coincidiu com uma visita do então Presidente Costa e Silva ao Paraná, o que resultou em penas absurdas, que variavam de 4 a 6 anos de reclusão. Os réus foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional por guerra revolucionária adversa, tentativa de desestabilização do governo e porte armas – duas facas de churrasco e dois foguetes de São João haviam sido apreendidos pela polícia. A defesa recorreu, solicitando abrandamento da pena, concedida depois pelo Superior Tribunal Militar. Vitório Sorotiuk, respondendo também a processos por envolvimento no Congresso de Ibiúna e na Marcha dos Cem Mil recebeu a maior pena: 5 anos e meio de prisão. Ao final do julgamento, os estudantes foram recebidos com aplauso pela pequena multidão do lado de fora, que cantava o Hino Nacional (Heller, 1988, p. 303 e 311).

 

Ato Institucional nº 5: golpe dentro do golpe (dez. 1968)

 

Em meio à remontagem do 30o Congresso da UNE é “baixado” pelo governo o Ato Institucional nº 5. Datado de 13 de dezembro de 1968, o ato é considerado um dos mais duros dispositivos repressivos adotados pela ditadura, ficando conhecido como “golpe dentro do golpe”. Seu efeito sobre o movimento estudantil foi imediato: metade dos delegados presos em Ibiúna dentre os 82 que permaneceram presos por 60 dias ou mais, foram mantidos na cadeia enquadrados no AI-5 (Jornal da UEE, 1969a, p. 1). O efeito do ato, todavia, se estendeu muito além dos delegados presos.

Genoíno recorda-se que na sexta-feira em que o ato foi “baixado” ele já se encontrava semiclandestino. Estava matriculado mas não frequentava as aulas na UFC. Ao tomar conhecimento do conteúdo do AI-5, junto de amigos do DCE, não teve dúvida: “a barra vai pesar”. No dia seguinte, sábado, Genoíno dirigiu-se ao Clube dos Estudantes Universitários (CEU), local histórico e ponto de encontro da juventude universitária – um “lugar de festa e de assembleia”. Subiu numa das mesas do restaurante e ali fez um discurso de despedida do DCE e da universidade. Sabia que a partir dali passaria definitivamente à clandestinidade.

Permaneceu em Fortaleza por cerca de dez dias, clandestino, cada dia na casa de uma pessoa diferente. De sua última residência partiu na noite de natal no porta-malas de um carro, “uma Vemaguete”. Buscando furar o cerco policial, tomou trem no município de Baturié para outra cidade, e em seguida para Recife. De Recife, partiu para Salvador, e daí rumou para São Paulo, fazendo inúmeras paradas de ônibus para evitar a repressão. Na noite de natal, de madrugada na estação de trem, recorda-se de ter dito a si mesmo: “olha, agora você é outra pessoa. Você tem outra identidade, outro nome”. Chegou a São Paulo como “Geraldo Neto” (Genoíno Neto, 2005, p. 11).

 

Decreto 477: intensificação da repressão (fev. 1969)

 

Em meio à remontagem do 30o Congresso, além do AI-5, outro dispositivo foi “baixado” pelo governo: o decreto 477, datado de 26 de fevereiro de 1969. Redigido em linguagem flexível, permitia o enquadramento de praticamente qualquer atividade política, organizada tanto por estudantes quanto por funcionários e professores. Determinava a mesma punição para diversos tipos de infração: expulsão da instituição de ensino superior e, no caso dos estudantes, proibição de matrícula em qualquer outro estabelecimento de ensino superior em todo o território nacional pelo prazo de três anos.

Evidente, pois, seu conteúdo intimidatório, já que indiferenciava do ponto de vista punitivo os estudantes envolvidos na distribuição de jornais estudantis considerados subversivos ou num hipotético sequestro do Reitor, por exemplo. Qualquer individuo, mesmo estranho à comunidade universitária, poderia apresentar acusação contra estudantes, funcionários ou professores, estando as autoridades universitárias obrigadas a instalar processo sumário – sob risco de penalidade – seguido de um prazo de 48 horas para os acusados apresentarem defesa por escrito, sem direito à apelação da decisão final do processo ([História…], [1971] p. 32).

A partir do decreto 477 a repressão ao movimento intensificou-se: ocorreram expulsões de estudantes em diversos estados, tanto de colégios como de universidades. Na Bahia, Pernambuco, Paraíba, Guanabara e Brasília as expulsões atingiram centenas de estudantes, praticamente desarticulando as lutas locais. Foram registrados também o fechamento e a invasão de entidades: no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, praticamente todos os CAs foram fechados pela polícia ([História…], [1971], p. 32). Em São Paulo, o Centro Acadêmico XXII de Agosto, da Faculdade de Direito da PUC, foi invadido cinco vezes em 1969. Já em São Paulo, o nível de organização do movimento impediu o fechamento completo das entidades estudantis.

 

Pela retomada da luta de massas (1º sem. 1969)

 

Um DCE livre na Universidade de São Paulo (início de 1969)

 

O Decreto 477 e os demais dispositivos legais “baixados” pela ditadura buscavam não apenas tornar mais severas as punições contra o que a ditadura considerava como “atividade subversiva”. Buscava também ampliar o controle do governo sobre as entidades, tentando com isto enfraquecer sua capacidade de articulação política. Nesse cenário, iniciativas de formação de entidades “livres” – assim chamadas pois desatreladas da burocracia governamental e universitária – se formaram em diversas regiões. Isso aconteceu, por exemplo, na USP, onde no início de 1969 estabeleceu-se a primeira experiência de DCE-Livre, anterior aquela iniciada em 1976 com a refundação da entidade.

Até 1968, a política das organizações atuantes na USP, como AP e ALN, era a de disputar o DCE oficial, “atrelado” à burocracia. O avanço do controle governamental sobre as entidades inviabilizou essa tática e suscitou a formação do DCE-Livre. A entidade teve entre seus articuladores o estudante de medicina Ronald Mouth Queiroz, depois assassinado pela ditadura. E foi presidida por Rafael de Falco Neto – ambos da ALN. A gestão era formada por sete membros e os representantes dos CAs reportavam-se ao seu diretor responsável, desconhecendo o conjunto da diretoria por questão de segurança. Já seus panfletos, manifestos e boletins eram distribuídos pelas carteiras das salas, nos intervalos de aula, evitando-se ao máximo a exposição pública dos integrantes da gestão (Costa, 2003, p. 29; Machado, 2005, p. 12; Cancian, 2008, p. 40; Muller, 2010, p. 48-53).

 

Efeitos do terror nas universidades (início de 1969)

 

O clima de terror que se instalou nas universidades com o AI-5 e o 477 é evidenciado pelo depoimento de Jean Marc. Ele relata que Faculdade de Filosofia, no Rio, havia forte presença da AP e PCdoB e que alí houve resistência ao decreto. As manifestações contrárias à repressão foram respondidas com uma ação policial maciça, o que resultou na prisão dos 450 alunos em aula naquele dia e na vigilância diária da Faculdade por agentes do DOPS. Foi nesse momento, segundo Jean Marc, que se iniciou lentamente o processo de revisão das posições ainda muito voluntaristas presentes no movimento estudantil (Weid, 2004, p. 20-21).

Segundo Jean Marc, após a “queda” de Ibiúna e uma vez “baixados” o AI-5 e o 477, a situação da UNE mudou de figura. A presença de diretores de entidades nas salas de aula chagava a causar terror. De início, algumas lideranças – entre as quais ele próprio – chegavam a considerar o fato “eletrizante” e até “desafiador”. Mas logo a avaliação mudou: Jean Marc realizava em março um discurso na Faculdade de Química, no Rio de Janeiro. Enquanto falava, o prédio foi cercado pelo DOPS e os estudantes tiveram que resistir “na porrada”. Um pelotão de choque foi acionado e aquilo virou uma verdadeira pancadaria. Já ia anoitecendo e Jean Marc orientou os estudantes a suspenderem o confronto e retornar às atividades universitárias. Enquanto a polícia ainda ocupava e revistava a Faculdade, Jean Marc conseguiu escapar pelos fundos, escalando o morro da Babilônia para evitar ser pego (Weid, 2004, p. 19).

O clima em São Paulo não era diferente. Ricardo Azevedo, militante da AP e estudante de ciências sociais da USP, recorda-se que em 1969 o clima na universidade havia mudado completamente, embora os militantes tivessem demorado a perceber isso. Apesar de no corpo discente prevalecer posições de esquerda, e portanto críticas à ditadura, já não se observava mais pelo corredores a agitação de 1968 (Azevedo, p. 45). Ricardo lembra que no final de maio foi procurado por Luiza, então presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CEUPES). Na conversa, ela compartilhou sua visão da conjuntura, afirmando que o momento era de defensiva (Ricardo estranhou: “não era isso que a organização me dizia”). Sua proposta era juntar todas as forças na defesa do centro acadêmico. Diversos membros da gestão anterior já haviam deixado o cargo, uns para aderir à luta armada, outros por medo. E dentre estes os chamados “desbundados”, que se juntaram à comunidades hippies (coisa que para Ricardo “não deixava de ser uma contestação à sociedade capitalista”). À proposta de Luiza, todavia, não teve tempo de dar sua posição: “antes disso fui preso” (Azevedo, 2010, p. 45 e 47).

Episódios como esse deixavam claros para uma parte da diretoria da UNE que sua presença nas faculdades estava cada vez mais comprometida. Muitas vezes os próprios estudantes pediam aos diretores que não aparecessem mais, pois isso provocava reação policial. Para Jean Marc, o quadro praticamente inviabilizava o trabalho da UNE, cuja diretoria havia sido composta majoritariamente, por “quadros de agitação de massa” – em geral, péssimos organizadores – selecionados pela AP, na expectativa de que o cenário de 1968 se repetisse agora. A presença de “quadros organizativos”, de perfil mais adequado ao momento, passou então a ser demandada pela diretoria da UNE. Foi quando militantes como José Genoíno Neto (PcdoB), Gildo Lacerda (AP-MG), Aurélio Miguel (PCdoB-BA) e José Loguércio (AP-RS) aproximaram-se da diretoria como assessores – parte deles vindo a integrá-la posteriormente (Weid, 2004, p. 19-20).

 

A formação dos Grupos de Trabalho e Grupos de Ação (início de 1969)

 

Nesse cenário, as lideranças aprofundavam a transição para a clandestinidade em detrimento da utilização de canais legais de manifestação ainda existentes. E isso exigia a criação de uma nova infraestrutura incluindo, por exemplo, a definição de locais de reunião, a aquisição de máquinas de impressão e o levantamento de recursos próprios, além da abertura de canais diretos e clandestinos de comunicação os estudantes. Em suma, era necessário reiniciar o trabalho, paciente e arduamente, sobre novas bases. Entretanto, as condições para uma revisão de métodos de organização, de agitação e de comunicação com a massa estudantil não eram nada favoráveis, devido à própria ação repressiva e à disposição crescente das lideranças estudantis por abandonar o movimento e integrar-se à guerrilha ([História…], [1971], pp. 33-34).

De início, essa passagem à clandestinidade, do ponto de vista organizativo, se deu na reafirmação de formas de articulação já consagradas no final de 1968 como os Grupos de Trabalho (GT), caracterizados como organismos semiclandestinos e formados para tarefas específicas. Paralelamente, sobretudo a partir das férias de 1969, novos organismos foram constituídos: os chamados Grupos de Ação (GA). Estes eram integrados pelos quadros mais experientes e operava em condições de segurança mais rigorosas. Pretendiam dirigir-se às massas estudantis ocupando uma faixa de atuação impossível de ser coberta legalmente, e que compreendia a publicação de jornais clandestinos e a realização de panfletagens e pichações ([História…], [1971], p. 34).

Foi através destes GTs e GAs que grande parte das mobilizações desencadeadas ao longo do período de sobrevida da UNE foi articulada. Mas nem sempre funcionava. Para alguns setores, já no início de 1969, os GTs vinham sofrendo com o desvio de objetivos, o que se dava em decorrência adoção da clandestinidade como uma espécie de princípio absoluto: os GTs, nestes casos, acabavam tomados por parte das lideranças como fins em si mesmos, o que se traduzia no esforços de organização do maior número possível de estudantes, mas em GTs sem funções práticas específicas. Progressivamente aprofundada, a opção “mecânica” pela clandestinidade acabaria posteriormente impactando o funcionamento inclusive dos GAs ([História…], [1971], p. 34).

 

Aniversário da morte de Edson Luís (mar. 1969)

 

Sob tais condições a UNE realiza as primeiras ações de rua após a “queda” de Ibiúna, convocando protestos por ocasião do primeiro aniversário da morte de Edson Luís, estudante morto em conflito com a polícia no restaurante Calabouço, em 26 de março de 1968. Para aquela data, a UNE esperava realizar ações de grande porte. Jean Marc relata que numa das reuniões preparatória aos atos, realizada em fevereiro de 1969, a palavra “recuo” era estigmatizada e, apesar do avanço da repressão, considerada uma “capitulação estratégica”. Isso indica que nem toda a diretoria compreendia a correlação de forças do momento. Segundo Jean Marc, sua posição era a de iniciar um “recuo tático” do movimento, avaliando que “se a gente conseguir fazer alguma manifestação, vai ser muito bom” (Weid, 1981, p. 88; Weid, 2004, p. 20-21)

Contrariamente às elevadas expectativas da maioria da diretoria da UNE, que esperava “grandes ascensos de massa” e que para o dia 26 de março de 1969 estabelecia metas de 10 mil pessoas para os protestos, compareceram às manifestações senão algumas centenas de estudantes, em grande parte formada pelos chamados “setores de vanguarda” do movimento. Foi somente com o relativo fracasso dessa mobilização que, segundo Jean Marc, iniciou-se em maior escala um processo de “correção de linha”, ou seja, de adequação das formulações da UNE entidade às condições concretas da luta política (Weid, 1981, p. 88).

 

As cassações e o fim da “Primavera da USP” (abr. 1969)

 

Na USP, apesar da repressão vivia-se ainda, no início de 1969, os ventos do debate da Reforma Universitária, articulado pelas chamadas Comissões Paritárias – órgãos formados por estudantes e professores para a discussão conjunta do conteúdo da reforma. A experiência, que tomava impulso nas campanhas por Reforma Universitária nos anos anteriores e ficaria conhecida como “Primavera da USP”, foi interrompida neste contexto de intensificação da repressão política. O AI-5 e o 477 legitimavam politicamente os setores conservadores a iniciar expurgos nas universidades. O período compreendido entre a doença e morte de Costa e Silva foi particularmente profícuo no que se refere à publicação de listas de expurgos em vários níveis da administração pública (Adusp, p. 2004, p. 45 e 60).

A USP foi primeiramente atingida em 28 de abril de 1969, por decreto datado de 25 do mesmo mês, assinado pelo Ministro da Justiça, Luiz Antonio da Gama e Silva, Reitor licenciado da USP. O documento afasta cerca de 42 pessoas ligadas à administração federal, juntamente com três professores da USP: Florestan Fernandes, Jayme Tiomno e João Batista Villanova Artigas. Isso provocou protesto imediato do Reitor em exercício. Em resposta, num outro decreto, datado de 29 de abril e especialmente dirigido contra a USP, foram compulsoriamente aposentados ou demitidos mais 24 professores, inclusive o Reitor, substituído pelo professor Alfredo Buzaid (íntimo colaborador de Gama e Silva). Sua posse inaugura um período onde “não se ouve mais sequer um murmúrio de protesto por parte das cúpulas universitárias” (Adusp, p. 2004, p. 45 e 47-50 e 56-59; [História do…], [1971], p. 32).

Para as universidades, expurgos como os da USP marcaram a reação e a vitória das posições conservadoras no debate da Reforma Universitária. Tendo sido afastados ou intimidados os setores mais críticos da universidade, o debate passava, na USP, a ignorar todo o acúmulo então conquistado. Longe das pressões e reivindicações de estudantes e professores, o Conselho Universitário acabou aprovando uma proposta de Estatuto que atendia interesses particularistas e promovia uma rígida centralização burocrática, fundada sobre privilégios hierárquicos (Associação…, 2004, p. 60). Isso abriu caminho na USP para a implementação, em 1970, da conservadora Reforma Universitária almejada pelo governo.

Em resposta às cassações, os Grupos de Ação (GA) na USP planejam uma greve geral na universidade, embora sem a mínima preparação anterior. Ocorreram paralisações em diversas Faculdades, incluindo Medicina, Economia, Arquitetura e Filosofia ([História do…], [1971], p. 34-35; Reestruturação…, [1971], p. 8). Em outras, ocorreram as chamadas “grevilhas” – rápidas paralisações de aulas, acompanhadas de comícios, assembleias ou discussões em sala. Ricardo Azevedo lembra que, logo após a publicação da lista, chegou à Faculdade de Filosofia e já havia uma reunião conjunta de professores e alunos. Numa sala “completamente lotada”, recorda-se de um discurso em particular: o de Fernando Henrique Cardoso, que numa fala longa e bastante radical teria apresentado uma defesa do marxismo (Azevedo, 2010, p. 47[1]).

As cassações causaram muita revolta, mas não havia condições de dar resposta à altura. Ainda assim, na noite do dia 30 de abril, formou-se na USP uma concentração com centenas de membros da comunidade universitária, a maioria estudantes. Apesar do impacto reduzido, o protesto provocou forte reação policial. Diferentemente do procedimento-padrão que vinha adotando a ação repressiva do período, tornada mais seletiva, ocasionalmente apelava-se, ainda, para “métodos de repressão em massa”. Foi o caso daquela noite: a universidade foi cercado pela polícia, centenas de pessoas foram detidas e saída do campus permaneceu bloqueada por uma patrulha policial ([História do…], [1971], s.d., p. 32-33; Azevedo, 2010, p. 47).

Nesse período, já se observava entre as lideranças a presença de visões vanguardistas e militaristas de atuação, o que prejudicava a articulação junto as bases do movimento. O caso da reação às cassações na USP parece emblemático nesse sentido. Na ocasião, os GAs foram levados a dirigir o descontentamento em relação às cassações não ao aprofundamento dos protestos contra a repressão na universidade, mas ao acúmulo de forças visando às mobilizações do dia 1o de maio. Isso, combinado à reação policial, parece explicar o fato de que a luta contra as cassações tenha gerado um movimento grevista de impacto muito reduzido, tanto no que se refere ao número de unidades aderentes, quanto ao tempo pelo qual se estendeu ([História do…], [1971], p. 34-35).

 

1º de maio de 1969, Rio de Janeiro e São Paulo (mai, 1969)

 

Assim como a reação às cassações na USP, as manifestações do 1º de maio em São Paulo tiveram dimensões muito reduzidas. Ocorreram algumas pichações e panfletagens, mas seu impacto foi praticamente nulo em função mesmo da desarticulação do movimento sindical ([História do…], [1971], p. 34-35). A exceção talvez se aplique às lutas dos metalúrgicos de Osasco que, embora localizadas, alimentavam na esquerda expectativas de ascensão do movimento operário (Jornal da UEE, 1969b).

Segundo Paulo de Tarso Venceslau, estudante na época, diferentemente do 1º de maio da Praça da Sé, realizado em 1968 (quando o então governador Roberto Abreu Sodré foi expulso do palanque por manifestantes), os atos em 1969 foram duramente reprimidos. Em São Paulo um militante chegou a ser preso, tendo sido assassinado na prisão. A propaganda governamental também foi intensa: em São Paulo, preparou-se uma programação de jogos esportivos; e no Rio, shows de “iê-iê-iê” (Venceslau, p. 18-19; Jornal da UEE, 1969b, 2).

Entre as ações de luta realizadas na data, Paulo recorda-se de uma “história que pouca gente sabe”: a de uma ação armada contra um sindicato patronal ocorrida em São Paulo (Venceslau, p. 18-19). Para o Congresso de Ibiúna, bombas foram armadas por precaução sob uma pontezinha que dava acesso ao sítio. Dias depois, um grupo conseguiu tirá-las e esconde-las enterradas sob um saco plástico. Foi uma dessas bombas a utilizada no 1º de maio de 1969. Segundo Paulo, “fomos: eu Benetazo, Lauri e acho que Fleurizinho”, entre outros, totalizando umas 12 pessoas. O dispositivo, com detonador acionado por pavio, foi armado num prédio que Paulo acredita na época ter sido ocupado pelo sindicato patronal dos têxteis, localizado na Vila Buarque, em São Paulo. Depois de acionada, a bomba não teria explodido. Com medo com fosse apreendida pela polícia e que contivesse impressões digitais, o grupo tentou recuperar o artefato. Estacionaram com o carro em frente ao local e quando desciam do veículo a bomba explodiu, estilhaçando vidros de prédios vizinhos.

Paulo recorda-se que essa foi “uma forma de manifestação de repúdio contra o sindicato patronal, só isso. Era uma maneira que a gente encontrou de fazer…”. Afinal, outras canais de manifestação política estavam se fechando à medida em que avançava a ditatura. Com exceção do próprio Paulo, todo o grupo que integrou a ação – “uns 12 militantes” próximos da ALN – acabou assassinado pela ditadura nos anos seguintes. (Venceslau, 2004, 18-19).

 

Conselho Nacional de Estudantes, no Rio de Janeiro (mai. 1969)

 

Ainda em maio de 1969, reunia-se no Rio de Janeiro o Conselho Nacional de Estudantes, realizado “num sítio no sopé da pedra da Gávea” (Poerner, 2004, p. 278). O evento foi dedicado Candido Pinto, presidente da UEE de Pernambuco, “metralhado pela Ditadura Militar” numa emboscada, e também ao “colega hondurenho” assassinado em manifestação contra a presença, em seu país, de Nelson Rockfeller, emissário norte-americano à América Latina (e que em breve aportaria no Brasil).

Ao Conselho compareceram representantes de Brasília, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Guanabara, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará, Goiás e Minas Gerais. Segundo Nilton Santos e Jean Marc, dirigentes da AP, o Conselho realizado no Rio de Janeiro tinha sido um dos mais representativos e bem preparados dos últimos tempos, precedido por viagens dos diretores da UNE por todo o Brasil (Santos, 1981, p. 76; Weid, 1981, p. 87; Movimento, 1969). Genoíno (PCdoB) discordava de tal avaliação (Genoíno Neto, 1981, p. 99). O Conselho realizou um balanço dos Congressos Regionais, efetuou a apuração oficial dos votos e empossou a nova diretoria.

A situação então colocada, em que as duas principais forças organizadas na UNE – entre as três que se apresentaram na eleição – estavam praticamente em igualdade de condições, envolvia intensos tensionamentos (Santos, 1981, p. 67). Pela chapa de Dirceu, José Arantes contestou a validade dos dez votos do “mini-crongresso da Kombi” – assim chamado porque tivera lugar a bordo de um veículo desse tipo, na região do triângulo mineiro. Isso porque na véspera, à noite, Carlos Alberto Muniz, presidente da UEE-RJ, também da chapa de Dirceu, tentara mudar o local do encontro, o que o teria inviabilizado (Poerner, 2004, p. 278). As disputas em torno das impugnações, exaustivas, trouxeram à tona a ameaça de divisão política da entidade (Santos, 1981, p. 67).

A chapa “Unidade e Luta”, encabeçada por Jean Marc von der Weid (AP e PCdoB[2]) obteve 234 votos. Venceu sobre a chapa “Nova UNE”, encabeçada por Rafael de Falco Neto (frente anti-AP), que obteve 230 votos. A chapa encabeçada por Marcos Medeiros (PCBR), denominada “Integração e Luta”, acabou como a menos votada, tendo obtido 28 votos. Foram contabilizadas 12 abstenções[3]. Segundo Jean Marc, elas se referem à movimentação da Frente Universitária Progressista (FUP) – articulada pelo PCB – que, em Ibiúna, apoiava a chapa de Dirceu, mas que no decorrer dos Congressos Regionais, adaptando suas posições ao contexto posterior ao AI-5, apresentou uma proposta de chapa única de “salvação da UNE”. Frente ao reduzido eco da proposta, se abstiveram – esses votos, se dados à chapa de Dirceu, poderiam tê-la eleito. O resultado, relativamente inesperado e controverso, e que seria oficializado no Conselho Nacional de maio de 1969, apontou a vitória da chapa encabeçada por Jean Marc (Weid, 1981, p. 87).

A chapa eleita, que daria início aos trabalhos da 30a diretoria da UNE, era composta por: Jean Marc von der Weid (ex-presidente do DA da Escola de Química/GB), Honestino Monteiro Guimarães (Presidente da Federação dos Estudantes de Brasília/DF), João de Paula Monteiro Ferreira (ex-presidente do DCE da UFC e do DA da Faculdade de Midicina/CE), Valdo Silva (ex-presidente da UEE-MG e do D.A. da Faculdade de Filosofia/MG), Ronald de Oliveira Rocha (presidente do D.A. do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/GB), Doralina Rodrigues de Carvalho (Presidente da UEE-MG), Humberto Câmara Neto (Medicina e da UEE-PE), Helenira Rezende (Centro Acadêmico de Letras da USP), Amálio (Direito na Bahia) e Nelson Tadeu (ex-presidente do DA da Medicina de Pernambuco)[4].

Segundo matéria publicada no jornal O Movimento, órgão oficial da UNE, o Conselho teria cumprido três tarefas principais: primeiro, traçou um programa para o movimento, fruto de um balanço da situação nos estados, e cujas diretrizes teriam unificado as diversas correntes presentes ao Conselho, englobando setores de oposição. Segundo, empossou a nova diretoria, preenchendo o vácuo deixado desde a “queda” de Ibiúna. Terceiro, traçou normas de funcionamento para as instâncias da UNE, substituindo o estatuto, considerado superado, e evitando conflitos no interior da própria entidade. O princípio que orientava o programa fundava-se da ideia de que o AI-5 teria aprofundado ainda mais o abismo existente entre os interesses da Ditadura Militar e os do “povo brasileiro”, o que impunha a necessidade de unificação das lutas dos setores populares contra as cassações, as perseguições e torturas, enfim, “contra a Ditadura Militar e o imperialismo” (Movimento, 1969).

Em termos mais específicos, o programa aprovado envolvia a apreciação de três aspectos do momento então vivido pelo país e, em particular, pelo movimento estudantil universitário. Em primeiro lugar, reforçou a necessidade de derrotar na prática aqueles dispositivos que, especialmente dirigidos contra as universidades (em particular o 477), buscavam enfraquecer o movimento estudantil e suas ligações com o povo. Segundo, compreendia como imediata a necessidade de combate à política educacional “entreguista” imposta pela ditadura, referenciada nas diretrizes dos Acordos MEC-USAID, e através da qual se pretendia instituir o ensino pago, transformar as universidades em fundações, bem como intensificar a interferência militar sobre a vida a acadêmica através, por exemplo, da nomeação de “reitores reacionários” que visam “desnacionalizar nossa cultura”. Terceiro, encaminhava a necessidade de fortalecimento das lutas estudantis mais concretas, como por mais verbas para as universidades, melhorias nos restaurantes ou investimentos em residências estudantis, por exemplo (Movimento, 1969).

O programa desdobra-se numa série encaminhamentos. O primeiro deles definia o dia 11 de junho de 1969 como dia de luta contra a repressão da Ditadura e, especificamente, contra o 477. O segundo previa que o dia 11 de junho fosse também tomado como dia de protesto contra a visita de Rockfeller ao Brasil, considerado um “agente do imperialismo”. Entre as atividades propostas (debates, assembleias e denúncias, que deveriam ser organizadas, de preferência, com professores e funcionários), definia-se a convocação de uma greve nacional como tarefa primordial. Por fim, encaminhou-se uma campanha pela libertação dos estudantes presos: a orientação era para que as denúncias fossem feitas nas assembleias, reuniões, debates, pichações, panfletagens e, inclusive, comícios e passeatas (Carvalho, 1981, p. 93; Movimento, 1969). Para Doralina Rodrigues, então diretora da UNE, e também para Genoíno, na época atuando como assessor da diretoria, os encaminhamentos não levavam devidamente em conta, ainda, a conjuntura inaugurada com o AI-5 (Carvalho, 1981, p. 93; Genoíno Neto, 1981, p. 99).

Quanto aos Congressos Regionais, o balanço foi considerado positivo. Apesar disso, também houve consenso quanto à UNE não ter saído suficientemente reforçada do processo: desprovida do apoio necessário das bases para enfrentar o endurecimento do regime e desprovida de autoridade para administrar as divisões que então se observavam em seu interior. Isso teria se dado, principalmente, em razão do formato dos Congressos Regionais, que acabaram obstruindo a circulação e generalização dos debates e a afirmação de lideranças nacionais. Na impossibilidade de se realizar de um Congresso nos moldes daquele previsto em Ibiúna, o Conselho aprovou por 275 votos (sobre 189 contrários e 5 abstenções) a realização de uma etapa ou plenária nacional dos Congressos Regionais; etapa na qual, esperava-se, poderia ser reconhecida a remontagem do 30o Congresso, e na qual as dificuldades decorrentes da fragmentação do processo poderiam ser amenizadas (Machado, 1981, p. 64; Santos, 1981, p. 67; Weid, 1981, p. 86; Genoíno Neto, p. 99; Movimento, 1969).

Segundo Jean Marc o “Conselho de Posse” (como ficou conhecido o Conselho Nacional realizado em maio de 1969), indicava um processo interessante: uma recuperação relativa da tendência “Unidade e Luta” (AP e PCdoB). Além de eleger a maioria dos delegados ao Conselho, articulou alianças com a FUP (PCB) e com a chapa de Medeiros (PCBR), o que garantiu a esta frente cerca de 85% dos votos do plenário nas decisões importantes da reunião. Nos Conselhos Estaduais, igualmente, a votação dos setores ligados às dissidências do PCB reduziam-se sensivelmente, em especial devido à opção paulatina das tendências associadas à Dirceu pelo abandono da luta estudantil em favor das ações armadas. Não obstante, mesmo as tendências dedicadas a aprofundar o trabalho no movimento estudantil estavam internamente polarizadas e sofriam com saídas para a luta armada (Weid, 1981, pp. 87-88).

Segundo Luis Raul Machado (PCBR), a aceitação dos resultados, bem como a posse da Diretoria, marcavam a unidade política no nível das lideranças, afastando o fantasma da divisão. O clima de unidade é confirmado por Jean Marc: “José Arantes, que presidiu o Conselho no lugar de Travassos, ainda preso na Fortaleza de Santos, passou-me a presidência num clima bastante positivo” (Weid, 1981, p. 87). Genoíno contesta o suposto “espírito de unidade”, referindo-se a polêmica que existiu entre as entidades estudantis de nível estadual sobre qual teria sido a chapa vitoriosa nos Congressos Regionais. Essa polêmica é apontada por Genoíno como um caso exemplar do nível de divisão política no interior do movimento naquele momento (Genoíno Neto, 1981, p. 100).

Finalizado o desafio de realizar o Congresso, impunha-se um outro: o de socializar, em condições de rigorosa clandestinidade, a informação de que o Congresso havia acontecido. E para esta tarefa os diretores eleitos seriam escalados, realizando viagens a diversos locais do país. Ricardo Azevedo, estudante da USP, recorda-se de uma dessas visitas. Honestino apareceu na USP sem aviso e, reunido com pouco militantes da AP, falou por cerca de 15 minutos. Informou que o Congresso havia sido realizado com sucesso e que a UNE permanecia viva. Segundo Ricardo, “tudo isso tinha que ser feito muito rapidamente, para não dar tempo da repressão chegar”[5].

 

A retomada do jornal O Movimento (mai. 1969)

 

Em relação ao Conselho de maio de 1969, há que se destacar um último ponto: o relato da sua realização foi publicado em edição especial do jornal O Movimento, da UNE. A publicação, histórica, havia sido interrompida durante os preparativos do 29o Congresso, em 1967. Sua retomada, em maio de 1969, além de divulgar a realização e as deliberações do Conselho, tinha por objetivo o que se chamava na época de “generalização das lutas”, ou seja, de disseminação das experiências políticas localizadas para que o nível de consciência dos diversos setores que compunham o movimento pudesse se elevar a um mesmo patamar. Essa necessidade se fazia ainda mais premente num contexto de repressão. Embora retomada, a publicação seria marcada por relativa irregularidade (Carvalho, 1981; Genoíno Neto, 1981; Movimento, 1969).

Um quadro das mobilizações estudantis no período, bem como da repressão policial que sobre elas se abateu, pode ser sintetizado a partir de relatos registrados nessa edição do jornal. Nele, além das expulsões de estudantes e professores da USP, constam registros de perseguição a estudantes nos colégios e universidades, em parte amparadas no 477: cerca de 120 universitários teriam sido suspensos na Paraíba; em Pernambuco, número próximo a 100; em Salvador, registrou-se a suspensão de cerca de 100 universitários e 240 secundaristas; em Brasília, 400 suspensões de estudantes; enquanto no Rio e em São Paulo, foi contabilizada a expulsão de aproximadamente 70 professores. As punições relativas ao primeiro semestre de 1969, relatadas no jornal, estavam relacionadas às mais diversas reivindicações desde as de cunho mais “específicas” até às de cunho “geral” (Movimento, 1969).

Na publicação registrou-se ainda a ocupação restaurantes universitários em vários estados, deflagradas em função do absurdo aumento do preço das refeições: casos da UFPe, UnB e de vários restaurantes em Belo Horizonte e Rio de Janeiro. No campus do “Fundão”, Rio de Janeiro, ocorreram violentos confrontos com a polícia. Paralelamente as lideranças estudantis eram alvo privilegiado da ação repressiva: além da repressão ao Congresso Regional do Paraná, a qual já nos referimos; registra-se a prisão e tortura do então presidente da UEE da Paraíba com choques e queimaduras no rosto; além do assassinato, através de rajada de metralhadora, do então presidente da UEE de Pernambuco (Movimento, 1969).

 

30a Diretoria da UNE: reorganizar o movimento estudantil (mai./jun. 1969)

 

A preocupação central da nova gestão foi a de manter organizado “o que havia sobrado de ME”. A diretoria buscou manter o “espírito de resistência”, denunciando as ações represivas, enquanto tentava reagrupar movimentos isolados nas. Isso, com a expectativa de retomar em 1969 o impulso das 1966-1968 (Genoíno Neto, 1981, p. 100). Esse trabalho, não por acaso, surtia efeito onde as entidades de base ainda existiam. Paralelamente, a diretoria desenvolvia iniciativas junto às base que, mesmo não representando avanço para o movimento do ponto de vista organizativo, acabavam por reafirmar a existência da UNE. Genoíno refere-se às “aparições misteriosas” de lideranças estudantis nacionais em assembleias nas universidades, cercados de grandes esquemas de segurança, que acabavam gerando certo efeito no nível da propaganda e da agitação políticas (Genoíno Neto, 1981, p. 101).

A diretoria realizava esse trabalho a partir de um plano de divisão de tarefas: os diretores assumiram responsabilidades nos estados e regiões, onde deveriam contatar as entidades ainda organizadas e os “setores mais avançados”. As reuniões nacionais eram realizadas na clandestinidade e, por isso, envolviam a definição de “pontos”, com “esquemas de aparelho”, carros e infraestrutura. A realização dessas reuniões representava um peso político e material para as entidades que sustentavam a UNE, particularmente no Rio de Janeiro e São Paulo, onde frequentemente aconteciam as reunião da diretoria. Entre outras entidades que ofereceram sua infraestrutura à UNE, assumindo a tarefa de sustentá-la material e politicamente, Genoíno destaca, em São Paulo, o Centro Acadêmico Osvaldo Cruz (CAOC) da Faculdade de Medicina, e o Centro Acadêmico “XI de Agosto”, da Faculdade de Direito, ambos na Universidade de São Paulo (Genoíno Neto, 1981, pp. 100-101).

Em paralelo a esse esforço havia uma tendência de se avaliar a capacidade das lutas localizadas através de “lentes de aumento”, numa tentativa de se justificar as resoluções do Conselho Nacional quanto ao suposto isolamento da ditadura (Weid, 1981, p. 83; Genoíno Neto, 1981, p. 101). Doralina, em posterior entrevista, afirma que “somos [hoje] obrigados a constatar que não estávamos preparados para apresentar soluções corretas às novas questões colocadas com as mudanças de conjuntura. […] Muitos de nós superestimavam nossas forças e as do movimento operário que, naquela época, apenas engatinhava, realizando suas primeiras grandes greves econômicas pós-64”. Segundo Genoíno, havia uma subestimação da capacidade da classe dominante e uma superestimação da potência política da “classe estudantil”. Doralina relata que, em função dessa “visão esquerdista e voluntarista”, os estudantes propunham-se a responder “golpe por golpe”. E os que propunham aprofundar vínculos com as bases do movimento através de um recuo organizado não encontravam eco para suas propostas (Carvalho, 1981, p. 92; Genoíno Neto, 1981, pp. 99-100; Romagnoli e Gonçalves, 1979, p. 15)

Jean Marc, então presidente da UNE, foi um dos que procurou articular esse recuo organizado, evitando dar pretexto à repressão violenta. Na sua opinião, a repressão, além de dizimar lideranças e provocar o fechamento de entidades, desmoralizava “as massas” (Weid, 1981, p. 88). Acreditava também que havia possibilidade de atuação aberta em certos núcleos universitários do país, ainda que isso dependesse muito do perfil de reitores e professores ou do clima político da região. Hoje, Jean Marc acredita que a atuação “mal dosada” da época tenha “precipitado e facilitado” o trabalho da repressão e acelerado o desgaste sofrido pelo movimento: incapaz de absorver a reação policial provocada por ações ofensivas, acabava sofrendo recuos forçados. Segundo Jean Marc, um importante passo em direção a um recuo organizado teria sido dado quando da aprovação, na diretoria da UNE, da proposta de luta contrária à repressão dirigida às universidades, em oposição à proposta de luta contra a repressão dirigida ao conjunto da sociedade, apresentada pela “companheira Doralina” (Weid, 1981, p. 88).

 

Recepção à Rockefeller (jun. 1969)

 

O Conselho realizado em maio de 1969 havia encaminhado a convocação de uma greve nacional contra a vinda de Rockfeller ao Brasil e a luta contra o 477. A visita aconteceria em junho. Rockfeller encabeçava uma comitiva, nomeada pelo então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, incumbida de realizar visitas a diversos países da América Latina ao longo de 1969, tendo em vista a elaboração de um relatório para o governo norte-americano sobre a situação geral da região, o qual Nixon tomaria como base para a formulação de sua política externa em relação ao continente. Tido como “típico representante dos monopólios internacionais”, sua presença desencadeou protestos em diversos países pelos quais passou ([História…], [1971], p. 35).

A postura do movimento estudantil em relação à vinda de Rockfeller ao Brasil inspirava-se na repercussão dos protestos estudantis contrários à sua presença noutros países da América Latina, como Honduras, Guatemala e Nicarágua – destacas pelo jornal O Movimento de maio de 1969. A influência dessas mobilizações parece confirmada pelo fato de que o Conselho de maio, no qual encaminhou-se os protestos, foi dedicado inclusive à memória do “colega hondurenho” assassinado pela polícia nas manifestações ocorridas naquele país (Carvalho, 1981, p. 93; Movimento, 1969). Os protestos observados na América Latina, acabaram assumindo um caráter supranacional, reforçando a necessidade, do ponto de vista das “vanguardas”, de organização de manifestações de repúdio também no Brasil ([História…], [1971], p. 35).

Na semana anterior à da sua visita, o objetivo da UNE era deflagrar uma greve nacional, acompanhada de manifestações de massa nas ruas. Apesar das expectativas, segundo Doralina, mal se conseguiu percorrer algumas salas de aula e fazer alguns comícios ou atos. Ainda assim ocorreram atos públicos relativamente espontâneos em algumas cidades, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, entre outras (Carvalho, 1981, p. 93-94), nos quais houve comícios-relâmpago, acompanhados de panfletagens, pichações e queimas de bandeiras norte-americanas. Segundo Jean Marc, as ações mais políticas se combinaram a outras, de caráter mais reivindicatório (Weid, 2004, p. 20). As manifestações observadas em São Paulo e no Rio, ao que parece, não diferiram significativamente das observadas noutros estados, ao menos em termos de proporções e repercussão junto à imprensa ([História…], [1971], p. 35).

Tais mobilizações foram integradas, sobretudo, pela “vanguarda” do movimento, confirmando o fato de que a proposta de greve nacional passava ao largo das reais condições de mobilização. Segundo relatos, “a massa, quando presente, às vezes aplaudia e repetia as palavras de ordem” ([História…], [1971], p. 35). Nas palavras de Doralina: “não conseguíamos compreender que a época dos grandes confrontos de rua tinha passado e que se tratava de acumular forças a partir das reivindicações mais sentidas pelos estudantes dentro das escolas, num lento trabalho de acumulação de forças, numa luta de resistência à ditadura” (Carvalho, 1981, p. 93-94; Genoíno Neto, 1981, p. 100). Jean Marc aponta na mesma direção: acredita que os protestos tenham mobilizado no máximo 30% dos estudantes do país, e numa greve nacional que, comparada a anteriores, foi considerada fraca. O número era até significativo, ainda mais levando em conta o caráter “ultra político” da pauta. Mas as expectativas eram elevadas e os números, à época vistos como baixos, eram atribuídos à ação repressiva (Weid, 2004, p. 20).

 

Atos contra Rockefeller em São Paulo (jun. 1969)

 

Em São Paulo, a preparação da recepção a Rockefeller envolveu inclusive estudantes da USP. Adriano Diogo recorda-se que certa vez “estava muito quietinho lá na Geologia, estudando”, quando o pessoal chegou e disse: “olha, o Rockfeller está vindo para o Brasil, não dá pra você ajudar um pouco, fazer uma recepção, ajudar a preparar, etc.?”. Adriano lembra que naquele momento a situação na USP era dificílima: “a maioria das lideranças estava presa, foragida, os centros acadêmicos fechados. O Crusp [Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo], que era o lugar da resistência estudantil, também estava fechado”. Enfim, “havia pouca gente para fazer o movimento estudantil”. Então para orientar e ajudar na preparação, chegaram a São Paulo, pela UNE, José Genoíno, do Ceará, e Honestino, de Brasília, (Diogo, 2004, p. 2-3)

Entre as principais ações realizadas em São Paulo, destacam-se a concentração no Largo da Concórdia, no Bairro do Brás, onde a loja da Sears Roebucks foi depredada; um comício-relâmpago ocorrido no centro da cidade onde Honestino Guimarães, após discurso, queimou uma bandeira dos Estados Unidos, e que, em função do seu caráter breve e inesperado, acabou não despertando a reação policial; além das pichações realizadas pela cidade – até meados de 1978 podia-se ver nas paredes do Teatro Municipal de São Paulo diversas pichações remanescentes dos protestos de 1968 e 1969, entre as quais incluíam-se aquelas contrárias à presença de Rockfeller no Brasil (Romagnoli e Gonçalves, 1979, p. 15; “E os estudantes… , 1978, p. 4).

 

A “Semana Rockefeller” no Rio de Janeiro (jun. 1969)

 

Segundo Alfredo Sirkis, então secundarista e participante das manifestações no Rio de Janeiro, naquela cidade a organização da chamada “Semana Rockefeller” coube a uma coordenação unificada articulada em torno da União Metropolitana dos Estudantes do Rio (UME). Ali foram planejadas a realização das passeatas “fechadas”, comícios-relâmpago, pichações e panfletagens (Sirkis, 1980, pp. 112-114; Sirkis, 2004, p. 8). Não havia informações quanto à intenção da guerrilha em relação à visita de Rockefeller, mas “corria à boca pequena” que Mariguella planejava uma investida contra a embaixada americana. Àquela altura Rockefeller já havia sido recepcionado na Venezuela, Colômbia, Argentina e Uruguai com manifestações e bombas. Em Montevidéo os Tupamaros investiram contra unidades da General Motors, enquanto que em Buenos Aires um grupo guerrilheiro incendiou dezesseis unidades da rede de supermercados Miramax, pertencentes ao Chase Manhattan Bank, de propriedade de Rockefeller.

Segundo Sirkis, foi durante a Semana Rockefeller que ocorreu a última passeata do período na região do Rio de Janeiro. Constituiu-se dos “quinhentos derradeiros gatos-pingados do ME” no Rio que, sob a liderança de Jean Marc (já na condição de presidente da UNE), e Muniz (presidente da UME), “irromperam entre os carros, na hora do rush” em plena Avenida Copacabana. A passeata percorreu alguns quarteirões gritando em coro “Fora Roquifeller” e pichando as laterais dos ônibus. Um “grupo de choque” composto por secundaristas caminhava à frente, entre os quais contavam-se três armados com revolveres calibre 32, e dois com bolsas cheias de coquetéis molotov. Um segundo grupo armado, composto por universitários, garantia a segurança dos oradores. Passada meia hora, a manifestação dissolveu-se sem contratempos. Sirkis ressalta a reação da população ante a passeata, absolutamente diferente em relação às passeatas de 1968: em lugar de aplausos e papel picado, expressões de medo ou indiferença.

Seguindo a orientação da coordenação unificada, no dia seguinte ao da passeata Sirkis reuniu-se após a saída do Colégio, às 11h da noite, com um grupo de secundaristas no ponto final da linha Vila da Penha, onde planejavam pichar os muros do Curtume Carioca e da região. O pequeno grupo muniu-se de acetona e de revolveres calibre 32. As pichações tiveram início nas imediações da Penha e estendiam-se até a região do Cortume Carioca, quando foram interrompidas pela aproximação de uma viatura. O clima de tensão provocou correria e tiroteio entre os secundaristas e a polícia. Sirkis embrenhou-se pelas esquinas e escapou. Um de seus colegas acabou preso. Posteriormente revelou que, no interrogatório, soube que a polícia procurava um traficante que atendia pelo apelido de “Periquito”, com o qual Sirkis foi confundido. Nesse caso, o tiroteio nada tinha a ver com repressão política.

Sirkis relata o balanço positivo tirado pelos secundaristas do Rio ao longo das Semana Rockfeller, na qual alguns líderes estudantis acabaram se formando. Afirma lembrar-se das muitas conversas sobre duas ações especialmente marcantes: um comício relâmpago realizado no pátio de um dos colégios, combinado com pichações nos muros externos, e ocorrido em meio a um confronto físico entre secundaristas e inspetores; além da panfletagem e pichações ocorridas no viaduto Botafogo, no qual um coronel retido no engarrafamento reconheceu entre os subversivos o namorado de sua filha, obrigando muita gente a mudar de residência. A moral alta resultante dessas ações acabou multiplicada pouco tempo depois, quando da publicação da notícia de sequestro do embaixador norte-americano.

Apesar do relativo fracasso das mobilizações em termos nacionais se comparadas às expectativas acalentadas, prosseguia o erro de avaliação das lideranças: insistia-se em ações ofensivas sob uma correlação de forças desfavorável. Apesar disso, os protestos contra Rockfeller se destacaram como algumas das importantes iniciativas da 30a Diretoria da UNE, tendo sido a primeira campanha promovida em nível nacional após a “queda” de Ibiúna. Se por um lado não se convertiam em avanços organizativos (pelo contrário, representava a prisão de lideranças e o fechamento de entidades estudantis), por outro, ainda que voluntaristas, reafirmavam a própria existência da UNE, desempenhando papel importante do ponto de vista da agitação e da propaganda (Weid, 1981, p. 88; Genoíno Neto, 1981, p. 100).

 

Autocrítica difícil (jun. 1969 / jul. 1970)

 

Divergência na diretoria em torno de uma “nova” política (jun./jul. 1969)

 

A experiência acumulada em 1969 aos poucos suscitava nas lideranças um balanço crítico da política desenvolvida até então. Desde quando assumiu, no Conselho Nacional realizado em maio, a 30a diretoria vinha implementando uma política que depois seria caracterizada por seus próprios integrantes como vanguardista e voluntarista: vanguardista porque envolvia uma postura ofensiva, mas isolada do conjunto da sociedade; e voluntarista porque acreditava ser possível retomar, em condições muito diversas, o movimento de 1969 nos moldes do período 1966-1968 (quando este foi marcado por grandes manifestações de rua e “de massa”). Essas expectativas, frustradas quando do relativo fracasso das ações relacionadas à morte de Edson Luis e à visita de Rockefeller, acabaram por desencadear na diretoria um esforço de redefinição política.

A necessidade de elaboração de uma “nova política” resultou na definição de um longo calendário de debates pela diretoria da UNE, e que deveria resultar num documento-base que buscasse responder aos novos problemas então colocados – ou melhor, então percebidos (Genoíno Neto, 1981, p. 101-102). Nesse processo, Jean Marc apresenta à diretoria da UNE – divergindo inclusive de lideranças de sua própria chapa – uma proposta de articulação da luta contra os instrumentos repressivos na universidade e as lutas específicas no plano do ensino e no plano profissional. A proposta incluía a realização de um amplo estudo sobre os problemas do ensino e sobre a situação do mercado de trabalho, articulando-os às questões mais gerais da sociedade. Em termos organizativos, chegou a considerar a ideia, não apresentada à diretoria naquele momento, de constituição de uma Coordenação Nacional de Executivas de Curso, que substituiria provisoriamente a diretoria da UNE no período mais intenso da repressão (Weid, 1981, p. 89).

Ainda em termos organizativos, Jean Marc buscava alternativas para as entidades de base, impactadas pelo 477. Sua ideia era aprofundar a diluição das responsabilidades das entidades em organismos mais amplos e com estruturas mais descentralizadas: em muitos casos esses organismos correspondiam aos Conselhos de Representantes de Sala, mas nos locais onde a repressão era mais dura, correspondiam aos Grupos de Trabalho (GTs) ou Grupos de Estudo ou Pesquisa (GE ou GP), a depender das diversas propostas específicas, e que atuavam de maneira semiclandestina. Segundo Jean Marc, a proposta dividiu por algum tempo a diretoria, pois conflitava com a as expectativas da maior parte das tendências organizadas, para as quais as estruturas centralizadas eram mais convenientes às ambiciosas mobilizações que pretendiam articular. O fechamento de diversas entidades em núcleos políticos importantes do país, entretanto, acabou impondo tal solução com o tempo (Weid, 1981, p. 89).

Ao final dos debates, aprovou-se uma “nova” [sic] política para a UNE: encaminhou-se uma tática ofensiva, de intensificação das mobilizações e da denúncia da repressão, centradas na luta contra o 477 – o que significava, em essência, a reafirmação da política anterior (Genoíno Neto, 1981, p. 101-102). Julgou-se importante, também, a convocação de um Conselho Nacional de Estudantes, a realizar-se em julho de 1969, com o objetivo apreciar e aprofundar as questões levantadas ao longo das discussões. A orientação da diretoria era de que as UEEs e DCEs procurassem reunir-se em Conselhos Estaduais, através dos quais seriam eleitos os delegados ao Conselho Nacional, tentando-se assim garantir a representatividade do Conselho num momento adverso (Genoíno Neto, 1981, p. 102).

 

Conselho Nacional de Estudantes, no Rio de Janeiro (jul. 1969)

 

O Conselho Nacional convocado para julho reuniu cerca de 70 delegados e foi realizado numa fazenda no município de Cachoeiras de Macacu. Segundo Jean Marc, naquele período as lideranças da tendência “Unidade e Luta” estavam consagradas a nível nacional, mas o movimento vinha sendo desarticulado aos poucos devido à repressão e ao deslocamento de quadros para a guerrilha. A própria diretoria estava em situação difícil em função de uma renúncia, três prisões e dois graves enfermos. Sobraram Humberto Câmara Neto, Honestino Guimarães, Helenira Rezende e Jean Marc. O Conselho de julho indicou mais quatro assessores para recompor a diretoria, entre os quais Genoíno, José Carlos da Matta Machado e Gildo Lacerda (Weid, 1981, p. 89; Poerner, 2004, p. 278). Não bastando tais dificuldades, o Conselho esteve prestes a “cair”: a fazenda na qual ocorria o Conselho estava há cerca de 20 km de uma operação de contraguerrilha levada à cabo pelo Exército e que objetivava, segundo Jean Marc, a captura de um grupo armado vinculado à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Por essa razão, o Conselho não pode ser concluído, tendo sido local evacuado às pressas (Genoíno Neto, 1981, p. 102).

Em função disso, muitas das questões previstas na pauta não puderam ser debatidas ou acabaram prejudicadas, especialmente àquelas relativas à tática de enfrentamento contra a ditadura. Isso porque até o momento de evacuação, o ponto de pauta mais debatido no Conselho dizia respeito ao estágio em que se encontravam as ações armadas contra a ditadura. Segundo Genoíno, esse fato era expressão do distanciamento da UNE em relação às mobilizações que se desenvolviam nas bases naquele momento. Apesar de todas as dificuldades e da prioridade dada ao debate sobre a situação da guerrilha, o Conselho teve êxito, segundo sua avaliação, ao encaminhar o desenvolvimento de uma Campanha Nacional Contra as Torturas e Prisões (Genoíno Neto, 1981, p. 102). A campanha seria encampada como a principal atividade da entidade nos anos seguintes, mobilizando importantes setores, inclusive fora dos muros das universidades.

Da maior importância também, embora ignorado por outros relatos, é o fato (lembrado por Jean Marc) de o Conselho ter apreciado e supostamente aprovado um encaminhamento proposto por ele, referente à reorientação política e à organização da UNE. Segundo Jean Marc, sua proposta visava à generalização de experiências testadas com sucesso na Faculdade de Química, no Rio. Propunha que a UNE “centrasse fogo” nas questões de formação e de atuação profissional, entendendo que traziam em si questões políticas. Propôs também que a UNE buscasse apoio nas Executivas de Curso – que continuavam a funcionar legalmente apesar da repressão. Os presidentes das Executivas, segundo sua proposta, poderiam formar um conselho que passaria a ser a face pública da UNE, e cuja diretoria continuaria a operando clandestinamente. A proposta não havia sido discutida internamente na própria AP, ou mesmo com o PCdoB. Ainda assim ela acabou aprovada, mas devido à resistência por parte das organizações não chegou a ser implementada (Weid, 2004, p. 21).

 

Prisão de Jean Marc e a UNE em campanha contra as torturas (jul./set. 1969)

Passada a reunião do Conselho, a UNE lança a “Campanha Contra as Torturas e Prisões”. Seu início, no segundo semestre de 1969, foi marcado pela elaboração de um dossiê com os primeiros depoimentos de “companheiros” torturados e relatórios sobre assassinatos das lideranças políticas. Segundo Genoíno, diversas entidades e personalidades da época teriam aderido à Campanha. Concomitantemente, em meados de agosto de 1969, surgiam as primeiras denúncias de tortura na grande mídia – caso, por exemplo, da histórica edição da revista Veja, cuja capa retratava uma cena de tortura e foi apreendida pela Ditadura (Genoíno Neto, 1981, p. 102).

A Campanha de denúncias desenvolveu-se também em função da prisão do então presidente da UNE, Jean Marc von der Weid, em setembro de 1969. Jean Marc foi capturado pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar) numa reunião realizada na Rua Fonte da Saudade, no Rio de Janeiro, cuja pauta previa discussão sobre a doença de Costa e Silva, mantida ainda sob sigilo na época (Weid, 1981, p. 90). Jean Marc recorda-se que não costumava utilizar os “aparelhos” da AP, por medo de ser preso. Apoiava-se em contatos paralelos, desvinculados da organização. Mas pela excitação em relação à noticia da doença de Costa e Silva, conta ter ido para um desse aparelhos. E entrou sem tomar precauções ou conferir eventuais sinais de que havia caído. E havia mesmo. Uma toalha havia sido deixada na janela como aviso, e isso lhe passou despercebido.

Detido, Jean Marc foi levado ao DOPS e adotou a tática de dizer que era outra pessoa, apresentando um documento falso e dizendo ter batido em endereço errado. Foi submetido a torturas e depois transferido para a Marinha, na Ilha das Flores (Baía da Guanabara, Rio de Janeiro). Lá, passadas 24h, descobriram sua verdadeira identidade, ao que se seguiram sessões praticamente ininterruptas de torturas por três dias. Com a notícia do sequestro do Embaixador americano, em setembro de 1969, os agentes se ocuparam de outras tarefas por breve período. Retornaram três dias depois, aplicando recursos de “tortura psicológica pesada”: diziam que Jean Marc havia sido traído, pois não constava na lista de presos políticos trocados pelo embaixador (Weid, 2004, p. 21-22).

Luís Travassos, Vladimir Palmeira e José Dirceu apareciam na lista, entre outros nomes. A UNE chegou a se manifestar em diversos estados por ocasião da libertação deste e de outros 12 militantes (Genoíno Neto, 1981, p. 103). Jean Marc imaginava que se não constasse Travassos na lista, também da AP, tudo bem. Ele pensaria que era “coisa da guerrilha” e que “não estávamos juntos”. “Mas se pediram o Travassos, porque não eu?”, pensou Jean Marc, demoralizado. Depois, em conversa com Fernando Gabeira, integrante da ação de sequestro do Embaixador e que acabou detido e enviado à Ilha das Flores, Jean Marc perguntou como havia sido montada a “lista dos 15”. Gabeira respondeu que faltavam dois nomes, que eles completaram com dois militantes menos expressivos. Estando isolados, não sabiam da prisão de Jean Marc, ocorrida pouco antes. Isso lhe valeu mais um ano e meio de cadeia, tendo sido libertado e mandado para o Chile em 1971, em troca do Embaixador suíço (Weid, 2004, p. 21-22).

 

Repressão em massa x repressão seletiva (2o sem. 1969)

 

O período posterior à “queda” de Ibiúna vinha sendo marcado por uma ação repressiva seletiva, visando à localização e prisão de estudantes que desempenhavam funções-chave nas universidades. Isso diferia do período anterior, em que a repressão tendia a lançar-se cegamente sobre amplas massas estudantis. O principal instrumento utilizado pelo aparelho repressivo, embora não imediatamente – pois segundo José Dirceu, “eles não sabiam o que tinham em mãos” – foi a lista dos fichados no próprio Congresso (Dirceu, 2005, p. 22). Concordando com Dirceu, Genoíno relembra que era conhecido e temido entre as lideranças estudantis o “álbum” com as fotos dos detidos, o qual acabou se tornando uma espécie de manual para identificar os militantes procurados pela polícia a partir de 1969 (Genoíno Neto, 2005, p. 10).

Naquele ano, sucediam-se notícias de prisão de colegas. E isso teria provocado uma renovação acelerada dos quadros políticos do movimento. Estudantes com pouca experiência eram chamados a ocupar postos-chave, o que acabou agravando ainda mais a situação ([História…], [1971], pp. 35-36). O efeito desagregador advindo desse nível de repressão seletiva se fez sentir de maneira mais evidente justamente no segundo semestre de 1969. Paralelamente, o terror policial progressivamente desencadeado pela ditadura provocou o surgimento, também no segundo semestre de 1969, de uma preocupação quanto à questão de segurança nas manifestações, especialmente no que tange à ampla divulgação dos atos através da imprensa, que acabava por facilitar a ação repressiva ([História…], [1971], pp. 32-33).

Exemplo bastante ilustrativo dos mecanismos de repressão seletiva adotados à época se encontra numa experiência vivida por Norton Guimarães e outros colegas por volta de 1970. Norton (irmão de Honestino), seu outro irmão, Luis Carlos e Sebastião Lopes (primo deles), juntamente com outros cinco estudantes, havia passado no vestibular da UnB mas em 1970, no ato da matrícula, foram informados de que não poderiam ingressar UnB. Eram ordens diretas do Ministro da Educação, Coronel Jarbas Passarinho. O grupo arranjou então um encontro com o próprio Ministro no MEC. Norton lembra que próximo de repórteres, Jarbas os recebeu com simpatia: “Ah, estudantes! Os meus braços estão abertos para os estudantes!”. Na sala, todavia, a conversa descambou para a política e “o pau quebrou”.

Quieto na maior parte da conversa, Norton em dado momento levantou e afirmou ao ministro, sob os olhares atônitos dos colegas: “Você, que se diz ministro da Educação, está ensinando um cara a ficar revoltado?”. Norton disse a Jarbas que se fosse impedido de efetuar a matrícula iria até a UnB e quebraria as janelas, advertindo em seguida que se concertassem, quebraria novamente até que sua raiva passasse. Jarbas, contrariado, anotou seu nome num pedaço de papel, dizendo: “Norton Guimarães, você vai falar com o Azevedo”. Noutro dia Norton encontrou o tal Azevedo que, pasmo com o corrido na reunião com o Ministro, disse o seguinte: “É, você é maluco. Estou com um bilhete aqui do ministro pra te deixar entrar”. Do grupo de oito estudantes, Norton foi o único que conseguiu se matricular. No semestre seguinte os outros sete também conseguiram, mas com mandato judicial e com habeas corpus. Dois anos depois, outra situação semelhante: Norton foi aprovado para um concurso do Senado, mas não pode assumir a vaga por ser irmão de Honestino (Guimarães, 2005, p. 10).

 

Prisão de Luis Raul Machado (jul. 1969)

 

Outro episódio ilustrativo dos métodos seletivos que vinham sendo adotados pelo aparelho repressivo é a prisão de Luis Raul Machado, em julho de 1969. Luis havia sido eleito vice-presidente da UNE em 1967, gestão que se encerraria no Congresso de Ibiúna. Com a interrupção do Congresso e a sua remontagem entre fins de 1968 e início de 1969, permaneceu no cargo. Com a posse na nova diretoria pretendia se afastar da direção. Mas até aquele momento mantinha-se em atividade, passando os contatos para gestão recém-empossada. Luis lembra que em condições de clandestinidade não se podia manter uma caderneta de telefones e endereços, então era preciso apresentar as pessoas pessoalmente, tipo: “Olha, aqui é o Jean Marc, novo presidente da UNE…”.

Luis conta que, certa vez, estava cumprindo esta tarefa em Minas Gerais. E num noite de julho de 1969 houve uma onda de repressão em Belo Horizonte. “Eles [os policiais] fizeram uma grande ofensiva, pegando gente adoidado, pegando o caderninho de endereço de cada pessoa”. Ao final, “prenderam gente que não tinha nada a ver com nada” – adotando portanto um método de prisões em massa. Neste processo, acabaram determinando o seu paradeiro e apareceram na casa onde estava hospedado, de madrugada. Ao entrar o policial olhou e disse: “Luís Raul Machado, vice-presidente da UNE… não sei o quê… estava no Sindicato dos Bancários no dia tal”. Detido, Luis foi levado a um colégio militar onde passou a noite, junto de outros presos, em carteiras de estudante. Enquanto isso, seguia a onda de prisões. Por saberem a identidade de Luis, o mantiveram num canto. Nos últimos processos de triagem – ilustrativos dos padrões seletivos de repressão – perguntaram a ele: “você assalta banco ou é passeata?. Ao que ele respondeu: ‘Sou passeata. Jamais assaltei um banco. Não sei pegar numa arma”.

Luis conta que acabou separado dos demais, e esclarece: os ‘passeata’ eram separados por serem menos importantes – “eles estavam a fim do pessoal da ação armada”. Apesar disso, Luis foi levado ao Presídio de Neves, uma penitenciária agrícola, onde permaneceu um mês em solitária. Foi quando a Justiça Militar de São Paulo requereu sua transferência por conta do processo de Ibiúna. Permaneceu em São Paulo por 14 dias, incomunicável e sob efeito do soro da verdade – “foi uma coisa alucinada”. Em seguida, Luis foi transferido ao presídio Tiradentes, onde aguardou durante nove meses o julgamento do processo de Ibiúna. O problema é que o processo envolvia 900 réus “e aquilo tinha que ser julgado pouco a pouco”. Não sabe ao certo, mas acredita que pelo tamanho do processo e pelos prazos de prescrição das penas o processo tenha sido arquivado ou coisa parecida. Luis foi libertado em março 1970. E dalí em diante, conta ele, “fui recomeçar minha vida: nova faculdade e casamento” (Machado, 2005, p. 14)

 

Enfraquecimento do vínculo entre bases e direções (2º sem. 1969)

 

Os efeitos da repressão seletiva eram cada vez mais sentidos, pois enfraquecia rapidamente a relação das entidades representativas e suas bases nas universidades. No contexto de repressão massiva, no período pré-1968, as diretorias e o funcionamento das entidades eram de conhecimento público; o trabalho se sustentava em estruturas legais, especialmente as gráficas; e a rede de comunicação do movimento, funcionando já sob certo rigor de segurança, e não podendo as lideranças se valer de cadernos de telefones e agendas, dependia muito de dois fatores: das redes de contato direto nas bases, mantida a partir de viagens e de conversas presenciais; ou de pronunciamento das lideranças pelo meios de comunicação de massa – coisa que acabava facilitando a ação repressiva ou estavam se fechando com o avanço da censura ([História…], [1971], p. 33; Joffily, 2004, p. 2; Machado, 2005, p. 14).

Este esquema vinha sendo desmontado pela repressão desde o início ano e em meados de 1969 isso foi sentido com força. Percebeu-se aí que as direções não dispunham de canais próprios de comunicação direta com as bases. Também nas bases do movimento este processo se fazia sentir. Segundo Genoíno, “as grandes universidades”, onde ainda havia luta organizada, “continuavam ocupadas pela repressão”. Em função disso as reuniões de muitas entidades de base e de DCEs eram realizadas na clandestinidade. E por conta disso e de limitações materiais, a presença da UNE nas lutas do segundo semestre de 1969 ficavam prejudicadas. A presença dos diretores em iniciativas do movimento nas bases era muito discreta, senão insignificante. Genoíno recorda-se dos tempos em que atuava com Honestino: ambos chegavam a participar de atividades promovidas pelo movimento nos cursos e isso na condição de dirigentes da UNE. Porém, o faziam descaracterizados, isto é, utilizando nomes falsos e omitindo o pertencimento à entidade, minimizando o risco de prisão (Genoíno Neto, 1981, p. 102-103).

Esse quadro parece explicar a ausência de lutas de massa, coordenadas nacionalmente, ao longo do segundo semestre de 1969. Em seu lugar, ações pontuais de setores de “vanguarda”. As entidades remanescentes adentravam assim em processo de declínio – o que se refletia, inclusive, na redução do conjunto de suas publicações a alguns poucos jornais e manifestos improvisados, de alcance bem mais restrito. Relativamente afastadas de suas bases, as diretorias das entidades perdiam legitimidade, mesmo entre setores de vanguarda: o seu descolamento em relação à “massa” estudantil convertia os fóruns de debate em arenas de disputa de visões pouco representativas do conjunto – o que servia de estimulo adicional ao afastamento de militantes que aderiam à luta armada ([História…], [1971], pp. 35-36).

Apesar do contexto político da época e das dificuldades que eram impostas aos membros remanescentes da diretoria da UNE, no final de 1969 aconteceram “eventos de massa” importantes nos quais a UNE conseguiu ter alguma participação significativa. Genoíno recorda-se, particularmente, de um congresso realizado em São Paulo por estudantes de Medicina: um evento legal, promovido por entidades médicas, laboratórios e entidades estudantis, onde a UNE esteve presente – não publicamente – mas participando da realidade dos estudantes nas bases e aproveitando o espaço para articular o movimento (Genoíno Neto, 1981, p. 103). Segundo Genoíno, foi nesse Encontro, por exemplo, que se articulou a convocação do Conselho Nacional de Estudantes realizado no início de 1970.

 

Sob os riscos do “clandestinismo” (2º sem. 1969)

 

Em termos organizativos, um dos maiores equívocos em que parecia incorrer o movimento em 1969 era aquilo que alguns chamavam de “clandestinismo”. Trata-se de um desvio da atividade política, marcada por uma interpretação “mecânica” da ação clandestina, em função da qual ignora em absoluto os espaços de atual legal existentes, bem como o trabalho de “educação política” junto às massas estudantis. Esse risco se colocava na medida se aprofundava a transição para a clandestinidade conforme a repressão seletiva minava a estrutura do movimento. Esse processo, num contexto de impossibilidade de incorporar amplos contingentes estudantis à luta clandestina, suscitou certo deslocamento do trabalho de base para ações de preparação da “vanguarda” – opção que ilustrava bem política vanguardista e militarista que orientou a atuação de parcelas significativas do movimento estudantil pelo menos até o final de 1969 ([História…], [1971], p. 34; Reestruturação…, [1971], p. 8-9).

Tal perspectiva, que ganhou fôlego sobretudo no segundo semestre daquele ano, teria desviado a atividade dos Grupos de Ação (GA) – como aliás já havia ocorrido com grande parte dos GTs na passagem entre 1968 e 1969. Ao longo de 1969, os GAs parecem ter ser convertido em organismos dedicados a ações clandestinas que apenas se dirigiam à “massa”, supondo seu apoio intuitivo e espontâneo; menosprezando, portanto, a tarefa de educação política no meio estudantil – uma tarefa praticamente abandonada, pelo menos em São Paulo, desde as cassações na USP ocorridas em abril. Isto se soma ao fato do recrutamento ter passado a se dar sem maiores preparações, bastando a demonstração de disposição para o trabalho. Desvinculados da luta de massas e despreparados política, material e psicologicamente, não passavam muitos meses sem que algum Grupo de Ação caísse nas teias da repressão policial ([História…], [1971], p. 34).

 

Férias de 1969-70: um balanço necessário (nov. 1969 / fev. 1970)

 

O período de férias entre o final de 1969 e inicio de 1970 foi um momento de balanço para as lideranças estudantis remanescentes. Nele, algumas das experiências acumuladas seriam sistematizadas, possibilitando uma efetiva reorientação política da UNE. Ao que parece, essa reflexão autocrítica se voltou contra os erros acumulados entre 1968 e 1969. Ainda que se possa relativizar a dificuldade enfrentada pelas estudantes numa conjuntura dinâmica com a do final de 1968, o que dificultava o encaminhamento de uma “linha correta”, o fato é que as lideranças terminaram por adotar práticas que negavam de maneira principista as formas legais de luta; as mesmas que haviam sido adotadas, de “maneira correta”, entre 1964 e 1968. Nesse processo, a necessidade de construção de estruturas e canais de comunicação clandestinos acabou assimilada como um princípio absoluto, levando ao abando do trabalho político de base e de massas ([História…], [1971], p. 37; Reestruturação…, [1971], p. 8-9).

Agora, no período 1969-1970, o movimento teria atingido níveis tão baixos que, ou se reconhecia os erros cometidos ou simplesmente não haveria mais sequer espaços de atuação. A partir do balanço realizado nas férias, as lideranças tomaram consciência da necessidade de reaproximação com a base, buscando a valorização das lutas específicas, a redefinição do papel das entidades representativas ainda existentes, considerando também os espaços legais de articulação ainda abertos e a preocupação com a renovação dos quadros. Em 1970, na “vanguarda” do movimento eram grandes as expectativas quanto à possibilidade de lenta reconstrução do movimento. Considerava-se imenso o trabalho a ser desenvolvido, especialmente na conjuntura de então: duas gerações de estudantes haviam ingressado nas universidades sem praticamente qualquer trabalho de educação política, e nelas propaganda mistificadora do governo encontrava-se em franca ofensiva ([História…], [1971], pp. 37-38; Reestruturação…, [1971], p. 9-10).

 

Reestruturar para reencontrar as bases: a experiência da UEE-SP (início de 1970)

 

Segundo essa avaliação, as entidades representativas remanescentes, “UNE, UEEs e DCEs-Livres”, deveriam preparar-se para uma reaproximação com a base, desempenhando primeiro a função de “instrumento de atuação das vanguardas” para, em seguida, reassumir seu papel de “entidade de massa”. Concretamente isso implicava em reiniciar o trabalho nas bases retomando contatos, reaproximando setores dispersos, formando novos quadros e buscando a generalização das experiências acumuladas. À medida que fossem se desenvolvendo os novos quadros, estes poderiam assumir a direção do processo, generalizando as novas experiências e criando as condições necessárias para a retomada da UNE, das UEEs e das demais entidades ainda atuantes.

Essa nova orientação foi bastante desenvolvida, particularmente, pela diretoria da UEE-SP. A entidade não poderia mais desenvolver seus trabalhos como o fez até 1968, tendo 10 diretores conhecidos que falavam junto aos estudantes e à população pelos meios de comunicação de massa, com sede e reuniões na Maria Antônia e no CRUSP, com espaços de decisão semi-legais e abertos sem critérios de segurança, que arrecadava finanças nas ruas, e que imprimia seus jornais em gráficas legais ou em CAs. Mas era preciso estruturar a diretoria de tal modo que pudesse circular pelas faculdades, e organizada de maneira que a queda de um núcleo não pusesse em risco o conjunto da diretoria. Paralelamente, via-se como necessário o desenvolvimento de meios de comunicação próprios. Alguns dirigidos à massa estudantil, com os quais se pretendia generalizar as lutas e inspirar confiança. Outros, voltados para as “vanguardas”, buscando imprimir-lhes certa unidade política ([História…], [1971], pp. 38-39).

A partir do balanço e da busca por adequar as entidades remanescentes à nova linha política, a UNE, com apoio de UEEs – como ocorreu em São Paulo –, propôs às entidades de base ainda organizadas que procurassem desenvolver atividades de recepção aos calouros no início de 1970, no sentido de introduzir e incorporar os recém-ingressos nos debates e lutas promovidos pelo movimento na defesa da universidade e contra a Ditadura Militar (Genoíno Neto, 1981, p. 103).

 

Calourada 1970: preparar a retomada do movimento (mar. 1970)

 

Na calourada de 1970, buscando por em prática a nova orientação, a UEE-SP optou por distribuir uma edição do “Jornal da UEE” especialmente dedicada aos calouros. Na matéria de abertura, intitulada “Calouros, o problema é o seguinte”, a UEE apresenta uma análise da situação do ensino superior no Brasil. O documento caracteriza a universidade como uma instituição autoritária e fundada sobre princípios arcaicos. Afirma ainda que vem sendo modificada pelo Governo Federal, que pretende adequá-la às necessidades do mercado. Ressalta também o fato de grandes cientistas terem sido expulsos das universidades por terem se oposto ao referido projeto do Governo. E conclui: “aos que estiverem descontentes, estão abertas as portas de saída das nossas faculdades. Além disso, há o pau de arara, os choques elétricos e os espancamentos” (Jornal da UEE, 1970, p. 1).

No Jornal consta, em seguida, matéria intitulada “O brasileiro é mal educado”. Nela a entidade acusa o governo que, supostamente interessado na democratização da universidade, em lugar de propor maciços investimentos no setor, institui Ensino Pago, mediante o qual seria formado um fundo de bolsas dirigidas aos “estudantes desfavorecidos”. Em verdade, segundo a UEE-SP, a cobrança almeja a autossuficiência financeira das instituições, à maneira das empresas, visando a desresponsabilização do Estado com a educação. Na opinião da entidade, a proposta de vestibular classificatório, instituído pelo governo, que restringe o número de aprovados ao de vagas disponíveis, aprofunda ainda mais essa elitização e, num só golpe, desorganiza os chamados excedentes – cujo direito à matrícula era formalmente garantido no sistema eliminatório. Por fim, essa universidade, reformada na perspectiva empresarial adotada pelo governo, visa à formação de “técnicos alienados ultra especializados”, alheios às necessidades da população. Isso agudizaria as contradições existentes entre os interesses da população e os do mercado: não haveria interesse, por parte dos grandes laboratórios, por exemplo, no investimento em pesquisas sobre doenças tipicamente tropicais (Jornal da UEE, 1970, p. 2-3.).

Ao final, o “Jornal da UEE-SP” apresenta duas outras matérias, intituladas “ABC da Política Educacional da Ditadura” e “Você é um subversivo (veja porque)”. Na primeira, consta um apanhado do “Relatório Atcon”, dos “Acordos MEC-USAID”, do “Relatório Meira Matos”, e de novidades trazidas pela “Constituição de 1967”, além de explicações sobre o caráter da “Lei Suplicy” e do “Decreto 477”. Na segunda matéria, a UEE-SP procura localizar a atual crise da universidade brasileira num perspectiva histórica que remete o leitor aos anos 1920. Nessa perspectiva procura-se associar o desenvolvimento histórico da universidade aos interesses político-econômicos de setores dominantes da sociedade. A matéria conclui: “É por isso que quando lutamos contra o ensino pago, lutamos contra o regime e contra a minoria privilegiada que dele se beneficia”. Seria este o sentido ultimo das reivindicações especificas dos estudantes, residindo ai o caráter subversivo do movimento estudantil (Jornal da UEE, 1970, p. 4).

 

Combinando lutas específicas e gerais? (mar./mai. 1970)

 

Apesar do esforço de revisão de sua política, buscando aproximação com as bases estudantis, diversas ações da UNE realizadas no início de 1970 revelam uma abordagem aparentemente ambígua. A combinação entre as chamadas lutas específicas e gerais no movimento é uma questão historicamente controversa, e ao que parece o ponto crítico desse debate, nos termos em que era colocado naquele período, diz respeito à possibilidade ou não de agitação de bandeiras de denúncia da ditadura, articuladas às reivindicações mais imediatas e sentidas nas bases, como a falta de vagas e verbas, por exemplo. A experiência de reaproximação lançada a partir da calourada de 1970 se orienta pelo esforço de combinação entre ambas, focada num trabalho de formação política – o jornal da UEE-SP dirigido aos calouros é ilustrativo disso.

A impressão quanto a uma certa ambiguidade na orientação da UNE em 1970 é reforçada pela avaliação de Genoíno. Para ele, apesar da diretoria ter visto muitas de suas expectativas frustradas ao longo de 1969 e apesar da experiência na calourada de 1970, as atividades promovidas naquele ano eram ainda marcadas por uma incompatibilidade não percebida pelo conjunto da diretoria entre a política definida em âmbito nacional e as possibilidades efetivas de mobilização e o clima político dos estados. Considera quede modo intuitivo e isoladamente os diretores da UNE percebiam essa incompatibilidade e procuravam aproximar-se junto às lideranças de base e estaduais (Genoíno Neto, 1981, p. 104). Declarações da UNE e ações integradas ou convocadas pela entidade entre os meses de março e maio de 1970 corroboram essa avaliação.

No início de 1970, por exemplo, a UNE lança um manifesto de repúdio à posse de Médici na Presidência da República, conclamando os estudantes a realizarem ações de protesto e manifestações massa. Em 26 de março de 1970, a entidade chegou a convocar protestos de rua também por ocasião do 2º aniversário da morte do estudante Edson Luis, assassinado em 1968. Em maio de 1970, a UNE participa das manifestações do 1º de maio, comparecendo ao ato convocado no Largo da Concórdia, bairro do Brás, em São Paulo – na ocasião, Geraldo Siqueira, recém-ingresso no curso de engenharia na FAAP e futuro presidente do DCE da USP, acabou detido (Siqueira, 2004, p. 2). Sob intensa repressão e marcada por reuniões clandestinas, panfletagens e comícios-relâmpago, a data foi dedicada a Carlos Marighella e Mário Alves, “heróis da classe” assassinados pela ditadura (Genoíno Neto, 1981, p. 103). Ainda em maio, a UNE lança um manifesto denunciando a invasão do Camboja, ocorrido no contexto da Guerra do Vietnã (UNE, 1970b).

Sentido um pouco diferente parece ter tido a Campanha Contra as Torturas e Prisões, lançada pela UNE em 1969. Embora eminentemente “política” no seu conteúdo, a campanha se dirigia às bases do movimento e buscava setores mais amplos da sociedade, sobretudo a Igreja, em ações de denúncia e de “educação política” em lugar da convocação de ações de rua restritas à “vanguarda” do movimento. Como parte das ações da Campanha em 1970, a UNE encaminha a distribuição de uma carta aberta dirigida aos estudantes brasileiros, escrita por Jean Marc na prisão, e que foi posteriormente incluída na edição de março de 1970 de seu órgão informativo, o jornal O Movimento (Genoíno Neto, 1981, p. 102; Movimento, 1970a; Movimento, 1970b).

Ao que parece, a Campanha promovida pela UNE precipitou nas bases do movimento a denúncia de casos de prisões, tortura e assassinatos de militantes. Entre outros documentos da época, destaca-se uma publicação apreendida pelo DEOPS/SP, intitulada “Denúncia no 1”. Nesta publicação, ao lado de denúncias contra o autoritarismo nas universidades – expressa na reduzida proporção da Representação Discente nos órgãos decisórios, limitado pela Reforma Universitária em 1/10 das cadeiras – há denúncias contra torturas e assassinatos de presos políticos. Entre outros casos, destaca as prisões e interrogatórios envolvendo Paulo de Tarso Venceslau, Frei Tito e Caio Padro Jr., além da cassação, em abril de 1970, de cerca de 10 cientistas vinculados ao Instituto Manguinhos, no Rio de Janeiro. Grande parte dos casos relatados refere-se a professores e estudantes da USP e, em particular, do curso de Economia (Denuncias…, 1970).

 

A UNE contra a Guerra do Vietnã (mai. 1970)

 

A chamada Guerra do Vietnã constitui um marco importante não apenas na conjuntura dos anos 1960 e 1970, mas na história dos conflitos mundiais. Representou a derrota da política imperialista e do sofisticado aparato militar de um potência capitalista desenvolvida, os EUA, para a engenhosidade e determinação de uma nação asiática pobre, inspirada pelos ideias libertários do socialismo. Num mundo marcado pela bipolaridade entre as superpotências capitalista e socialista, os EUA e a URSS, a Guerra do Vietnã polarizou setores conservadores e progressistas de todo o mundo, sensibilizando sobretudo a juventude. Do mesmo modo que em outras partes do mundo, a Guerra do Vietnã – e a invasão do Camboja em particular, como parte da ofensiva imperialista na Indochina – mereceu, no Brasil, o veemente repúdio da UNE.

Em relação ao tema, há registros da ocorrência de concentrações estudantis de rua, provavelmente promovidas pela UNE, entre as quais cabe destaque àquela realizada na Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro. Alí, estudantes queimaram uma bandeira estadunidense, seguindo em passeata na qual uma bandeira brasileira era empunhada ao lado de uma bandeira cambodjana (“E os estudantes…, 1978, p. 4). Paralelamente à concentração no Rio, a UNE divulgou uma mensagem dirigida às entidades e aos estudantes estadunidenses, saudando-os pelas iniciativas de protesto contra a política externa imperialista do então presidente dos EUA Richard Nixon.

Na mensagem, a diretoria da UNE ressalta a importância dessas lutas antibelicistas para a causa dos estudantes da América Latina e, em particular, do Brasil, que resistem a regimes ditatoriais apoiados pelo governo dos EUA. Nas palavras da UNE, “vossa luta democrática e anti-belicista tem um imenso significado para a nossa causa e a de todos os povos oprimidos e humilhados como os do Vietnã e do Camboja. É de grande importância os laços que nos unem, contra toda a forma de opressão e espoliação imperialista e a guerra de agressão, pela retirada das tropas norte-americanas da Indochina, por uma paz verdadeiramente justa” (UNE, 1970b).

Interessante notar que Jean Marc, perguntado sobre os temas de política internacional e seu lugar na construção das lutas estudantis no Brasil nos anos 1960 e 1970, recorda-se que sua influência na verdade era muito pouca. As ligações orgânicas da UNE com movimentos internacionais existiam mais na “cabeça dos milicos” que em termos concretos. O conhecimento da UNE em relação à política internacional do período era mediada na verdade pelos relatos publicados pelos grandes meio de comunicação, como O Globo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã. Jean Marc avalia, inclusive, que faltava ao movimento estudantil da época uma “noção de latinidade”. A exceção ressaltada por ele quanto às influências internacionais sofridas pelo movimento no período refere-se justamente à Guerra do Vietnã, e em particular à Ofensiva do Tet, pois alimentava na “vanguarda” a possibilidade de derrota do imperialismo inclusive no Brasil (Weid, 2004, p. 22).

 

Campanha da UNE contra torturas chega às bases da Igreja (mai. 1970)

 

As ações da UNE relativas à Guerra do Vietnã no início de 1970 estão para as campanhas mais “vanguardistas” da entidade, tanto quanto os sinais de aproximação com a Igreja estão para o movimento de reencontro com as bases estudantis materializados na calourada de 1970. Como parte da Campanha Contra as Torturas e Prisões, deflagrada pela UNE no segundo semestre de 1969, a entidade elabora em maio de 1970 um documento dirigido à Dom Helder Câmara, Arcebispo de Recife e Olinda, congratulando-o pela sua postura crítica à ditadura e às torturas, assumida inclusive em pronunciamentos internacionais.

De acordo com o documento, a UNE considera os pronunciamentos de D. Helder como mensagens de solidariedade que animam a todos, mesmo que no “fundo das prisões”, a continuar na luta. Parafraseando D. Helder, reafirmam que “terroristas são os torturadores e o ‘esquadrão-da-morte’”. Na visão da UNE, o governo esforça-se por mostrar que o Brasil vive uma época de progresso quando, na verdade, o que se aprofunda é a recolonização do país e o “crescente isolamento da ditadura militar”. O documento também denuncia o oportunismo de setores da cúpula da Igreja, exemplificado na declaração de apoio à ditadura em Assembleias da CNBB e no Encontro Eucarístico Nacional. Ao final, a mensagem relembra e homenageia diversas personalidades religiosas, politicamente engajadas, assassinadas pela repressão, e conclui: “não poderia ser outra a atitude do Movimento Estudantil, inimigo irreconciliável da Ditadura, senão a de inteiro apoio à vossa atitude [de D. Helder]” (UNE, 1970a).

Cópias da mensagem da UNE constam no arquivo do DEOPS-SP, tendo sido algumas deles apreendidas pela Delegacia Seccional de Polícia do ABCD, vinculada à Delegacia Regional de Polícia da Grande São Paulo (DEGRAN). Relatório reservado elaborado pelo órgão e difundido junto à comunidade de informações esclarece: um pacote com 500 cópias do material teria sido apreendido na Igreja Matriz de São Bernardo do Campo, no dia 12 de setembro de 1970. O fato ocorreu momentos antes do início da Missa da Juventude, prevista para as 10h do mesmo dia (Delegacia…, 1970). Importante notar que a distribuição da mensagem se daria por canais da Igreja, e na cidade de São Bernardo do Campo – importante reduto operário. O episódio mostra que haviam canais de atuação legal ainda abertos e reforça a viabilidade e a maior eficácia de ações “educação política” dirigidas à massa, se comparada às concentrações-relâmpago muitas vezes restritas aos setores de “vanguarda”.

 

Declínio e dissolução (2o sem. de 1970 a 1973)

 

Conselho Nacional de Estudantes, em Salvador (ago. 1970)

 

A UNE chega ao segundo semestre de 1970 em situação extremamente delicada. A repressão intensificava-se, multiplicando as dificuldades de ordem material e de segurança que se impunham à diretoria. Em função desses fatores a diretoria decidiu, por exemplo, que os membros alocados em São Paulo e no Rio de Janeiro poderiam assumir compromissos nacionais em seu nome. A decisão era indício importante de desestruturação da entidade. Paralelamente, o movimento sofria ainda com o deslocamento de quadros para as ações armadas, o que dificultava ainda mais a sobrevivência da UNE na clandestinidade.

Nestas difíceis condições é que a diretoria da UNE realiza um reunião em São Paulo em julho de 1970, integrada também por Honestino Guimarães, Ronald Rocha e Gildo Lacerda, na qual José Genoíno anuncia sua decisão de abandonar a diretoria para integrar-se ao foco guerrilheiro do Araguaia. Apesar da decisão, Genoíno teve ainda a oportunidade de acompanhar os preparativos do Conselho Nacional de Estudantes, previsto para julho de 1970, no qual seria encaminhado o processo de eleição de uma nova diretoria (Genoíno Neto, 1981, p. 104; Genoíno Neto, 2005, p. 12). O Conselho Nacional acabaria por ser realizado em agosto, na cidade de Salvador.

Na pauta, a análise da conjuntura e uma avaliação quanto às possibilidades de renovação da diretoria da UNE. Além de resolução reafirmando uma política ofensiva, o Conselho encaminhou a realização do 31o Congresso, cuja preparação nos estados se iniciaria imediatamente. No Congresso priva-se eleger a nova diretoria e aprovar uma nova carta-política. Encaminhou-se também a formação de uma Paralelamente à realização do Conselho, intensificava-se a Campanha Contra as Torturas e Prisões, promovida pela UNE, através da divulgação de casos de arbitrariedade policial, tanto no Brasil, de forma clandestina, como no exterior ([História…], [1971], p. 40; Movimento, 1970b).

 

Reaproximação frustrada (set. 1970)

 

Após a realização do Conselho de agosto, a UNE promoveu ainda algumas mobilizações de rua. Este é o caso de ações realizadas na Bahia, Ceará e Guanabara, durante a Semana da Independência. Também às vésperas da “farsa eleitoral” de 15 de novembro de 1970, a UNE realizou pichações e panfletagens em grandes cidades, chegando a promover uma rápida manifestação de rua no Rio de Janeiro. Os sinais de descontentamento e de retomada pareciam se fazer cada vez mais presentes: nas eleições de 1970, por exemplo, os votos brancos e nulos atingiram 40% do eleitorado (cerca de 15 milhões de eleitores). Diante desse cenário, que reforça as expectativas de recuperação da UNE e UEEs, muitas as entidades gerais remanescentes encaminharam no segundo semestre de 1970 processos de renovação de suas direções ([História…], [1971], pp. 40-41). O fato era que as ações em curso tinham potencial muito reduzido e nestas condições as entidades viviam um processo de declínio acentuado.

O cenário contrastava com o período imediatamente anterior, vivido ao longo de 1969. Naquele momento, apesar das condições desfavoráveis ao desenvolvimento de ações de massa no combate à ditadura, era possível ainda promover algumas atividades nacionalmente articuladas, como as lutas contra o 477, os protestos em função da visita de Rockfeller e do primeiro aniversário da morte de Edson Luis, promovidas no primeiro semestre de 1969, ou mesmo a Campanha Contra as Torturas, promovida a partir do segundo semestre do mesmo ano (Genoíno Neto, 1981, p. 104). Agora, sob uma linha política acertada, as condições para ações nacionalmente articuladas já não mais existiam e as entidades estudantis tendiam ao desparecimento. A única exceção era o Diretório Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul (DEE-RS) – atrelado à ditadura, possuía ainda algum grau de penetração (História do…, [1976], p. 12).

 

31o Congresso da UNE (final de 1970 / set. 1971)

 

Nesse contexto se realiza o 31º Congresso da União Nacional dos Estudantes, num longo processo que, segundo Miranda Sobrinho, foi iniciado ainda em 1970, vindo a ser concluído apenas no final de 1971, na mais absoluta e rigorosa clandestinidade. A intensidade da repressão política, que impedia grandes concentrações, forçou a realização do 31º Congresso em diversas fases. O processo teve início com a eleição de delegados nas escolas, seguiu com a realização de reuniões em nível estadual, regional e, posteriormente, a realização das reuniões em nível nacional. Pernambuco foi um dos primeiros estados a eleger delegados, ainda no final de 1970 (Miranda Sobrinho, 1981, p. 110). Ao processo foi apresentada uma chapa única, “Unidade e Luta”, articulada por membros da AP e encabeçada por Honestino (UNE, 1979, p. 22).

O rigor quanto à segurança é notório no depoimento de Ademar Alvarenga Prado, participante do congresso, prestado aos órgãos de repressão em dezembro de 1971. Ademar conta que saiu de Goiânia em 1º de novembro, chegando no dia seguinte ao Rio. Lá, “cobriu” ponto com Honestino e foi levado de carro e olhos vendados ao local do encontro, onde se juntou ao sete delegados ali presentes, sendo um por estado. Ronald Rocha, estudante à época, confirma a realização do Congresso no subúrbio do Rio. Mas o local e a data do evento são sujeita à controversas. Segundo Miranda Sobrinho, membro da gestão eleita naquele fórum, este teria sido realizado em setembro e no estado de Minas Gerais, não em novembro no Rio. De qualquer modo sua composição foi praticamente restrita a militantes da AP e PCdoB (Muller, 2010, p. 40-43).

Diferentemente das expectativas alimentadas pelas lideranças remanescentes, o 31o Congresso da UNE foi considerado um fracasso. O evento acabou não envolvendo parcelas consideráveis dos estudantes nos cursos, mesmo entre os setores de “vanguarda”. Essa baixa representatividade, que se deveu às condições de clandestinidade, foi apontada por setores de oposição como decorrentes também de supostos erros da diretoria, acusada de privilegiar a convocação de entidades estudantis “despolitizadas” em detrimento dos “setores mais avançados”, que sustentavam a UNE, e de não convocar certos grupos ao Congresso, considerados combativos nas escolas – grupo entre os quais se incluía o “Movimento Universidade Crítica”, ligado a remanescentes da organização Política Operária (Pavio, 1971, p. 10-11). Apesar disso a UNE era reivindicada, inclusive pelo próprio MUC, como a “entidade máxima e inconteste dos estudantes brasileiros”.

Outros apontam ainda que os debates no Congresso foram prejudicados pela presença de “posições fechadas” que, não tendo passado pelo crivo do debate democrático nas bases, procederam à simples formalizaram posições. Reconhecia-se o fato de que a realização de um congresso nestas condições era muito difícil e, para estes, isto só se justificaria em momentos de ascenso, no qual a carta-política aprovada pudesse constituir-se como um “farol” para as lutas estudantis. Ao que parece, a disposição em realizar o Congresso representava a insistência das lideranças remanescentes em incorrer no erro de superestimar a potência de movimentos reivindicatórios localizados, bem como a capacidade de direção das entidades ainda articuladas ([História…], [1971], p. 41).

De qualquer forma, no congresso foi eleita a nova diretoria e aprovada uma mensagem da UNE ao conjunto do movimento, estabelecendo diretrizes políticas para o período seguinte. A gestão eleita nesse congresso, a 31ª Gestão, era composta por 11 diretores, representando oito estados: Ceará, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Brasília. Entre os diretores havia membros da gestão anterior, como era o caso do presidente, Honestino, ao lado de novos membros – caso de Newton Miranda Sobrinho, eleito vice-presidente da UNE. No programa aprovado é visível a tentativa da nova diretoria em dialogar com as bases estudantis. Junto aos temas mais gerais, relativos à situação do Brasil e a conjuntura nacional, merecem destaque e desenvolvimento no documento final do 31º Congresso os temas mais específicos da vida estudantil universitária, como a falta de vagas e verbas nos cursos, por exemplo (Santos, 1981, p. 109-112).

 

Repressão à 31ª diretoria e desarticulação das entidades remanescentes (1971)

 

A 31ª gestão da UNE passou por imensas dificuldades, procurando manter viva a entidade clandestinamente. Nos primeiros meses de atividade quase a metade da diretoria já havia sido presa e submetida a torturas. Assembleias eram proibidas nas universidades e, até mesmo aqueles jornais estudantis que simplesmente reproduziam matérias publicadas na grande imprensa eram apreendidos, sendo inclusive motivo de invasão de entidades. Com o avanço da repressão sobre as lideranças e o deslocamento de quadros para a luta armada, as entidades estudantis passam por acentuado processo de desarticulação.

As UEEs desatreladas das burocracias universitária e governamental encontravam-se praticamente desarticuladas – com exceção da UEE-SP, que resistiria até 1973. Juntamente com o DEE-RS, criado pelo decreto 228 e atrelado à ditadura, eram as duas únicas entidades de nível estadual ainda ativas. Data também de 1971 o decreto 68.065, “baixado” pelo presidente Médici, e que instituía nas escolas o Centro Cívico, liquidando a liberdade de organização dos grêmios secundaristas (Pescuma, 1990). Naquele ano ainda foram desarticuladas também a UBES (Pescuma, 1990); a experiência do primeiro DCE-Livre da USP, e o Grêmio da Filosofia da USP – este último então sob a presidência de Bernardino Figueiredo.

 

Retomada das lutas e o vanguardismo de setores minoritários (1971)

 

Apesar do processo de desarticulação das entidades, de fato havia um processo de reorganização nas bases do movimento, em escala molecular, sustentado em alguns casos por entidades de base duramente mantidas na clandestinidade. Mas as características desse novo impulso já eram muito distintas, sobretudo em função do perfil dos estudantes que ingressavam nos cursos sob o processo massificação da universidade. Nesse cenário, o que se percebe entre os grupos remanescentes é, num certo sentido, uma correta apreciação das retomada das lutas em escala molecular, combinada a uma visão que sobrevaloriza o potencial destas lutas e a capacidade da “vanguarda” em organizá-las – o que só evidenciava as limitações desta suposta “vanguarda” em realmente cumprir esta tarefa.

Este quadro se pode notar com a leitura de uma edição do jornal “Pavio”, editada em 1971 por militantes remanescentes da Polop, provavelmente organizados na Fração Bolchevique. A publicação sobrevaloriza o papel da direção no declínio e possível retomada do movimento; reforça a necessidade de um tática de enfrentamento articulada ao movimento operário; sob a avaliação de um crescente esgotamento da ditadura e de uma ascensão das lutas estudantis em escala internacional. Critica ainda “as lutas do ano passado” – uma alusão, provavelmente, à campanha de recepção aos calouros encaminhada pela UNE – que teriam sido “dispersas e desorganizadas” e acrescenta: “preferimos outra coisa aos showzões”. Como alternativa, propõe o fortalecimento dos “conselhos de representantes de salas” e a formação de “Grupos de Pesquisa”, aprofundamento da contestação à “universidade burguesa”, e a partir dos quais deveriam constituir-se “comandos de ação”, responsáveis pela atuação nos cursos.

Conclui que, no início de 1971, os “eles [os calouros] estão à espera de uma palavra para iniciar a luta”. E para este cenário, a publicação apresenta-se como alternativa, sobrevalorizando seu próprio papel: “com um poder de alcance bem maior do que a atuação direta da Vanguarda Socialista, [o jornal] será o elo que ligará a vanguarda dispersa, através de orientações políticas e práticas para a sua atividade. Assim, onde chegar ele criará novas Vanguardas Socialistas, levando a todas as escolas a experiência dos centros mais avançados, dando unidade à luta”.

 

A UNE nas lutas contra o ensino pago (1971-1972)

 

A tendência de paulatina retomada das lutas estudantis nas bases se confirmaria com o tempo, mas desmentindo as elevadas expectativas de setores vanguardistas do movimento quanto à sua própria capacidade de dar sentido e unidade àquelas manifestações (Reestruturação…, [1971], p. 10-12). Entre as ações que passavam a ganhar corpo nas universidades, Newton Miranda Sobrinho destaca a luta contra o ensino pago, que se desenvolveu das mais variadas formas, e que se intensificava em meados de 1972 à medida que o próprio governo endurecia sua postura de implementação da cobrança nas universidades. Apesar das restrições a que foi submetida, a 31ª diretoria da União Nacional dos Estudantes, mantida na clandestinidade, acompanhou e procurou contribuir com as principais mobilizações desenvolvidas nessa direção.

Duas iniciativas de resistência observadas na época são lembradas por Newton: no Paraná, o Conselho de DAs da UFPR impetrou mandato de segurança contra o aumento abusivo de taxa de matrícula, tendo sido vitorioso. A luta contra as cobranças se desenvolvia em todo o país, mas de modo mais intenso na USP: em novembro de 1972 seria promovido, pelo Conselho de Centros Acadêmicos (o CCA, fundado em junho de 1972), o Plebiscito sobre o Ensino Pago, onde cerca de 95% dos 11 mil estudantes consultados se posicionaram contrários à sua implementação. A intensificação das lutas chegou a provocar indignação no Ministro Cel. Jarbas Passarinho, que declarou na época que a luta contra o ensino pago era uma “triste aliança da esquerda radical com a classe rica” (Miranda Sobrinho, 1981, p. 110-111).

 

UNE e a Defesa dos direitos humanos (1972-1973)

 

Ainda em 1972, a UNE procurou participar das atividades, encabeçadas pela Igreja em função da Comemoração dos 25o Ano da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A atividade representava um marco importante para a própria Igreja, que vinha assumindo desde meados de 1970, especialmente em São Paulo, posturas mais críticas à Ditadura Militar. Entre outras atividades realizadas, Newton relembra a realização de uma mesa redonda no TUCA, na PUC-SP; além da preparação de um abaixo-assinado, subscrito por entidades estudantis de São Paulo, jornalistas, intelectuais e membros da Igreja, dirigida à Assembleia Geral da Confederação dos Bispos do Brasil, tratando da inobservância dos Direitos Humanos no Brasil e destacando o assassinato de 16 presos políticos ainda nos primeiros dias do ano (Miranda Sobrinho, 1981, p. 111). Conforme relatado por O Movimento, publicado em 1973, o abaixo-assinado continha cerca de 280 adesões, seria entregue ao Secretário Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ivo Lerecheider, numa das Assembleias Gerais da entidade (Movimento, 1973).

Já em 1973, conforme relata Newton Miranda Sobrinho, a 31ª diretoria da UNE acompanhou os desdobramentos do assassinato, no dia 16 de março, do estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme – um dos mais decisivos episódios do processo de reorganização do movimento estudantil nos anos 1970. Segundo Newton, a missa de 7º dia, realizada na Catedral da Sé e oficiada por D. Paulo Evaristo Arns, contou com a presença de mais de 5.000 pessoas, constituindo-se numa das maiores concentrações de massa, ainda que relativamente espontânea, desde a passeata dos cem mil, em 1968 (Miranda Sobrinho, 1981, p. 111). O jornal O Movimento, publicado pouco tempo depois, trás detalhes sobre o caso.

As matérias dão indicações da participação de Alexandre no movimento estudantil da USP e dos motivos que levaram ao seu assassinato. Abordam também o posicionamento da Igreja e do Conselho Universitário da USP em relação ao caso, e o desenrolar da Missa de 7o dia, com apontamentos de duas iniciativas das forças policiais: primeiro, distribuiu-se documento falsamente assinado pelos Centros Acadêmicos da USP acusando Alexandre de terrorismo; segundo, convocou redes de televisão para realizar a cobertura do evento, esperando identificar e punir por meio dos registros em vídeo os estudantes presentes ali presentes. Estes, frente às câmeras, cobriram os rostos com os panfletos distribuídos na ocasião (Movimento, 1973). Segundo Newton, esses episódios representaram um momento de ruptura política relativamente importante, constituindo um salto qualitativo na luta contra a Ditadura Militar (Miranda Sobrinho, 1981, p. 111).

 

A interrupção do Jornal “Movimento” (jun. 1973)

 

Através das edições de maio e junho de O Movimento, as últimas antes da dissolução da UNE, pode-se compor um quadro aproximado da situação geral do movimento estudantil naquele momento (Movimento, 1973a e 1973b). O primeiro editorial abre a publicação homenageando Helenira Rezende (a “Preta”) e Alexandre Vanucchi Leme (o “Minhoca”), destacando seu compromisso militante e as condições em que foram assassinados pela Ditadura. Além do editorial, o jornal apresenta o documento final aprovado no 31o Congresso da UNE, realizado dois anos antes, em 1971. Ambas as edições incluem seções de informes, com breves indicações sobre as lutas em curso na conjuntura, não apenas mas inclusive as estudantis.

Entre as lutas relatadas constam aquelas voltada à denúncia das prisões. O jornal noticia uma paralisação de 6 mil estudantes na PUC-RJ, exigindo a libertação da presidente do DCE, Mônica Tolipan, detida em 14 de março de 1973; além de pressões contrárias ao Reitor da PUC-SP, Ataliba Nogueira, devido ao fato de professores daquela instituição terem sido responsáveis pelos únicos casos até então registrados de aplicação do decreto 477 no Estado de São Paulo. Na UFMG, avança a repressão: reitor interfere em debate dos alunos sobre a reforma universitária e fecha as portas do DA de Economia. Na Guabarabra, prisão de outros estudantes levou à protestos e paralisazões de aula.

O Movimento registra ainda outras mobilizações estudantis, orientadas por reivindicações mais específicas: no Rio Grande do Sul ocorreram protestos em decorrência do aumento de taxas na Casa do Estudante (da ordem de 25%), no preço das refeições do Restaurante Universitário (100%) e nas taxas de matrícula (100%). Há relatos também de mobilizações na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em protesto contra o aumentos na taxa de matrícula (da ordem de 260%). Na PUC-SP onde também observaram-se lutas contra os aumentos, optou-se por pressões através de meios legais. Finalmente, mereceu registro também uma campanha na UFBa, contrária aplicação de provas elaboradas pelo MEC, chamadas de “provões”. E na USP, avança a luta contra o ensino pago.

Além dessas mobilizações, envolvendo a participação direta dos estudantes, e daquelas já registradas anteriormente (defesa dos Direitos Humanos e protestos contra o assassinato de Alexandre) os jornais relatam diversos episódios localizados, em grande parte espontâneos, protagonizados por diversos setores da sociedade, e que procurava reforçar a perspectiva do descontentamento popular crescente em relação ao governo: O Movimento relata assassinatos e prisões ocorridos em São Paulo e no Rio Grande do Sul; ameaças à bispos progressistas da Igreja Católica; protesto espontâneo realizado por “peões” contra Médici por ocasião de sua visita à Amazônia; e depredação de sede do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) em função de atrasos de pagamento; além de conflitos entre trabalhadores do Metrô (de cidade não identificada) e a polícia, provocada também por atraso de pagamentos. Diante dessas lutas, UNE lamenta em nota publicada no mesmo jornal o fato de ter havido muito pouca manifestação contrária à posse do “novo ditador”, Gal. Ernesto Geisel, denunciando em seguida uma série de casos de corrupção envolvendo militares dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Guanabara.

 

Dissolução da UNE (1o sem. 1973)

 

Enfim, é preciso destacar que, num contexto de extrema adversidade, a experiência da 31ª gestão da UNE foi marcada pela determinação em contribuir para a reorganização do movimento, avaliando que a própria manutenção da entidade dependia disso. Nesse período, diversos CAs retomaram suas atividades. Além disso, Encontros de Área foram realizados. Newton destaca a participação da diretoria da UNE, por exemplo, na realização do 2o Encontro Nacional de Estudantes de Engenharia, em maio de 1972 na cidade de Porto Alegre – Encontro, que reuniu cerca de 400 participantes e que debateu tanto as lutas específicas do curso e dos estudantes quanto à situação política nacional (Miranda Sobrinho, 1981, p. 111). Apesar dessas iniciativas a UNE já se encontrava irremediavelmente comprometida e afastada do conjunto dos estudantes.

O mesmo se podia dizer da UEE-SP, que parece ter feito sua última aparição no início de 1973. Em janeiro, a entidade publicou um caderno de orientação detalhando a proposta de formação de Grupos de Estudos para o período de férias do início do ano, bem como os métodos para encaminhá-la. No caderno são debatidos os tipos de grupos e seus objetivos (para “formação de pessoal novo”, “formação política” ou “elaboração de concepções globais”); funcionamento, periodicidade e duração das reuniões; perfil e número de participantes; além de roteiro e apontamentos sobre segurança (UEE-SP, 1973). Embora seja sensível a um padrão de militância não profissional, refletindo investimento no trabalho de base, a proposta parece ser marcada por certa ênfase na formação teórica – coisa já criticada antes por uma das chapas concorrentes à direção da UEE em 1971 como um desvio “teoricista” (UEE-SP, 1971). Isto, num momento em que, nas bases, intensificava-se a agitação em torno de reivindicações específicas.

Apesar dos esforços, a diretoria enfrentou uma situação que tornou o prosseguimento das atividades da UNE insustentável. Dada a intensa perseguição policial, dada à estreiteza de sua base de sustentação política, considerando que a gestão havia completado seu mandato, e considerando ainda que não havia condições de realização de um novo congresso, a 31ª diretoria – tendo mais dois de seus integrantes presos e, portanto, estando reduzida a apenas quatro elementos – decide pela dissolução da entidade, na esperança de que a retomada da luta de massas pudesse reergue-la em breve. A dissolução da 31ª Gestão da UNE, em 1973, encerra um ciclo na história da UNE. A entidade seria retomada apenas seis anos depois, em 1979. Devido à baixa representatividade, condicionada pela situação adversa, o 31º Congresso realizado em 1971, bem como a 31ª Gestão, não seriam posteriormente reconhecidos pela própria UNE. Em razão disso é que o Congresso de Reconstrução da UNE, realizado em Salvador em 1979, foi declarado continuidade do Congresso de 1971 (Miranda Sobrinho, 1981, p. 112).

 

Prisão e assassinato de Honestino Guimarães (out./dez.1973)

 

Honestino Guimarães, eleito presidente da UNE em 1971, vivia em situação de clandestinidade desde sua saída da prisão em novembro de 1968 (quando fora detido na invasão da UnB). Afastado do convívio familiar e dos amigos, confidenciava a contatos próximos, como Madre Cristina Sodré Dória – que o admirava pela bravura e firmeza política – que as ameaças que recebia davam como certo seu assassinato caso fosse capturado pelos órgãos de repressão.

Diante disso, em julho de 1973, data próxima a da dissolução da UNE, e tendo as forças repressivas em seu encalço, Honestino prepara o seu Mandato de Segurança Popular, que chegou a difundir junto às vanguardas do movimento e a autoridades governamentais. Nele, o último presidente da UNE denuncia as perseguições e ameaças de que vinha sendo vítima, garantindo sem tergiversações que jamais iria se entregar (Romagnolli e Golçalves, 1979, p. 15-18). Mantendo sua palavra, permaneceu em atividade até o final de 1973, quando foi detido a 10 de outubro, no Rio de Janeiro, em operação repressiva dirigida pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar) contra militantes da AP. Diante da notícia da prisão, Maria Rosa e Norton Guimarães, mãe e irmão de Honestino, rumaram de Brasília para o Rio de Janeiro, onde passaram 15 dias buscando informações sobre seu paradeiro.

No Rio, em dezembro de 1973, foram recebidos por um General e dele obtiveram autorização para visitar Honestino no Pelotão de Investigações Criminais (PIC), em Brasília, para onde teria sido transferido. Após longa espera, Maria Rosa foi avisada que Honestino não se encontrava alí. Numa das visitas ao Rio em busca de notícias, Norton recorda-se de que a única informação que teriam conseguido levantar era a de que Honestino havia sido detido pelo Cenimar. E de um soldado, ouviram o seguinte comentário: “Ih, foi preso pela Cenimar, pode esquecer, porque o procedimento da Cenimar é pegar esses presos políticos, levar para alto mar de avião, furar a barriga pro corpo não boiar e jogar do avião. Então, você nunca mais vai encontrar seu irmão”. Assustado e perdendo aulas na faculdade, Norton retornou de uma das viagens ao Rio e chegando a Brasília acabou sendo preso e torturado. Segundo Norton, os militares queriam ter certeza das informações que a família havia conseguido levantar (Guimarães, 2005). Familiares de Honestino permaneceriam por muitos anos ainda tentando determinar seu paradeiro. Mas nisso até hoje não tiveram sucesso

O assassinato de Honestino ocorreu no mesmo ano em que foi morto o estudante da USP Alexandre Vannucchi Leme – caso que gerou enorme comoção e marcou a retomada das manifestações estudantis fora dos campi universitários depois de um período de intensa repressão policial. Diferentemente, a morte de Honestino o alcança na clandestinidade. Isolado do convívio, seu desaparecimento não desencaderia semelhante comoção. Honestino seria lembrado e homenageado no 31º Congresso da UNE, em 1979, considerado uma continuação do Congresso de 1971. Mas nas duras condições do ano de 1973, seu assassinato simbolizava o completo esgotamento do impulso dos anos 1966-1968 e a dissolução da UNE meses antes, dando lugar a uma nova geração de militantes que já há alguns anos e muito lentamente buscava a reorganização do movimento estudantil e da UNE. Nisso, eles tiveram sucesso. Quanto a Honestino, segue presente como exemplo e inspiração. Mas até hoje seu corpo não foi encontrado. Onde está Honestino?

 

 

Referências

 

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[1]    Informações complementares obtidas em entrevista concedida por Ricardo Azevedo a Carlos Henrique Menegozzo em 2006.

[2]    Poerner afirma que “Unidade e Luta” congregava estudantes da AP e PCB (p. 278). Segundo Ridenti, porém, o PCB estava marginalizado devido às suas posições menos radicais, o que o impediria de associar-se à AP num contexto de aproximação crescente da AP em relação às ações armadas. Em verdade, segundo Ridenti, esta chapa reúne a AP e o PCdoB (Ridenti, p. 135). Iniciada em meados de 1969 a aproximação entre estas duas forças resultaria, em meados de 1972, na incorporação de parte da AP ao PCdoB.

[3]    Os resultados das votações são controversos. Jean Marc, em depoimento, declara que as chapas haviam obtido aproximadamente 350/355 (Unidade e Luta), 340/345 (Nova UNE), 25/30 (integração e Luta) e 20/25 (abstenções), o que totaliza aproximadamente 735/755 votos (Weid, 1981, p. 87). Poerner por sua vez (Poerner, 2004, p. 278) declara 378, 371, 29 e 30, respectivamente. Utilizamos aqui os dados da “apuração oficial” divulgada pela UNE em maio de 1969 (Movimento, 1969).

[4]    A lista apresentada aqui baseia-se na composição divulgada pelo jornal O Movimento, da UNE, na edição de em maio 1969. No jornal, os nomes ou entidades dos(as) diretores(as) eleitos(as) foram divulgados de maneira incompleta. A listagem apresentada por Poerner (2004, p. 278), confunde a diretoria eleita em maio de 1969 através dos Congressos Regionais, com membros nomeados apenas no Conselho de julho, em substituição aos integrantes da diretoria que haviam sido presos, assassinados ou que haviam se afastado do movimento estudantil.

[5]    Informação obtida em entrevista concedida por Ricardo Azevedo a Carlos Henrique Menegozzo em 2006.

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