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“Este ano 741 mil mulheres vão sofrer algum tipo de violência na universidade”

29/07/2016 às 18:55, por Cristiane Tada.

Coordenadora de projetos do Instituto Avon, Mafoane Odara, falou em entrevista ao site da UNE sobre enfrentamentos da violência contra a mulher

Há seis meses como coordenadora de projetos do Instituto Avon, Mafoane Odara é filha de ativistas do movimento negro e tem toda uma trajetória de militância em movimentos sociais. Ela foi uma das convidadas do debate Lugar de mulher é onde ela quiser do 64º  Coneg da UNE, realizado em Julho em São Paulo.

Mafoane contou um pouco das ações do Instituto e sobre a pesquisa que realizada em parceria com o instituto Data Popular Violência contra a Mulher no Ambiente Universitário.

Os números são chocantes. De 1 milhão de mulheres que entraram na universidade só neste ano, 741 mil delas vão sofrer algum tipo de violência. >>>> Leia mais sobre a pesquisa na matéria abaixo.

Para ela na luta contra a violência que as mulheres sofrem é preciso chamar as pessoas para a ação. “ A violência contra as mulheres é um problema endêmico, um problema 360º e assim que ele deve ser encarado, não tem uma só solução, não existe uma bala de prata, uma coisa que você vai atingir que vai resolver. Temos que entender que temos vários atores e que precisamos trabalhar juntos”, afirmou.

Leia a entrevista na íntegra:

Porque falar sobre a violência contra as universitárias?

Todo ano a Avon faz uma pesquisa sobre algum tema de violência contra a mulher e para decidir o tema olhamos muito para o que está mais evidente na sociedade e que precisa de uma reflexão. No ano passado foi quando começou a estourar na mídia os casos de assédio e violência sexual das mulheres nas universidades e decidimos que seria este pelo silêncio do tema nas grandes instâncias, pela culpabilização da vítima, pela proteção dos autores de violência e por ser um espaço de poder [ a universidade]. O que a gente tem percebido é que quanto maior é o poder que a instituição tem, isso é inversamente proporcional ao tipo de pena que os agressores que fazem parte sofrem, ou seja, a proteção é maior. Debater esses temas nas instâncias de saber, nas universidades, formadores das grandes lideranças do país, serve para entender como acontece a violência.

Ficamos chocados. Já sabíamos, mas é muito duro quando você ouve em pleno o século XXI, por exemplo, que 1/3 dos homens acha que não tem problema nenhum se aproveitar de uma menina se ela está bêbada. E 1/3 também acha que se ela foi para uma balada ela sabe que ela está correndo risco. E esse tipo de fala de alunos de que lugar de mulher é na cozinha mesmo, é muito chocante porque você está falando de grandes universidades públicas e muitas universidades particulares também e do Brasil inteiro.

Por exemplo, entram mais ou menos 1 milhão de mulheres e 700 mil homens nas universidades todos os anos, só neste ano 741 mil mulheres vão sofrer algum tipo de violência. Para a gente a pesquisa e a repercussão que ela teve, a disseminação que conseguimos fazer dela mostra que de fato ainda precisamos falar sobre isso, isso precisa virar assunto.

Qual a atuação do Instituto Avon?

O Instituto Avon existe há 13 anos e o propósito dele é pensar como podemos mobilizar a sociedade para o empoderamento das mulheres. Nosso papel é ser o articulador. Percebemos que para o empoderamento da mulher tem uma série de barreiras que chamamos de teto de vidro que precisam ser quebrados para que a mulher possa ascender. O empoderamento não vem a não ser da própria pessoa, agora precisamos construir as ferramentas e as estratégias. Pensamos quais são os grandes temas que são importantes: equidade salarial, tema que não é do Instituto, mas é da Avon. O RH do Avon faz a cada 3 meses uma equiparação salarial para ver se as mulheres e os homens estão ganhando a mesma coisa, até políticas de home office, jornada flexível, berçário, são processos que ajudam a mulher a poder exercer melhor o que ela faz. E dentro do Instituto escolhemos as duas maiores causas que impedem esse empoderamento: o câncer de mama e o enfrentamento à violência contra a mulher.

Não temos projetos próprios o que fazemos é potencializar o que as organizações desenvolvem, aprimorando políticas públicas e potencializar o que já existe. Digamos que se uma coisa está 10, pensamos como fazemos para ela ser 1000.

A última campanha de Marketing da Avon foi muito comentada e as campanhas no geral tem chamado atenção por reforçar a diversidade. São conceitos do Instituto refletindo no marketing da empresa?

O que tem acontecido muito com as empresas é que elas só vão conseguir sobreviver no mercado se elas forem de verdade. E ser de verdade é mais do que você vender um produto, é fazer o produto ter sentido na vida daquelas pessoas. Para ele ter sentido representatividade importa, as diferenças precisam aparecer e a gente precisa falar sobre temas difíceis. O que a Avon tem tentado fazer é simbiótica, o Instituto está dentro da Avon, ficamos no mesmo prédio, a área do instituto está embaixo do marketing, está relacionado para exatamente dar essa verdade. Nada do que a Avon faz em termos de maquiagem, em termos de conceitos de produto está dissociado ao que o Instituto propõe como conceito. É um pouco de como a gente dá sentido ao que a Avon faz e como a gente garante que a Avon faça isso de verdade. Mas uma coisa é importante dizer: para a gente não tem nenhuma importância entre ganhar dinheiro e mudar o mundo. Sim, a gente quer vender maquiagem, mas com a beleza que faz sentido.

A chegada de pessoas diversas proporciona essa verdade, mercadologicamente a diversidade de gênero aumenta em 15% o rendimento de uma empresa e a diversidade racial aumenta em 35%. Se você consegue juntar esses dois grandes elementos dentro da empresa você tem um potencial enorme.

É o que aconteceu com a nossa campanha Sinta na Pele que reuniu Liniker, Tássia Reis entre outros nomes.

As empresas através das suas ações de marketing podem gerar um impacto social?

Podem não, elas geram. Só que quando elas não têm consciência disso é muito danoso, porque geralmente o impacto é negativo. Hoje não existe mais espaço para quem não faça isso de verdade e cada vez mais as pessoas estão mais conscientes, dá para ver pelas discussões, por mais problemas que estamos tendo no Brasil, a consciência das pessoas tem mudado. Estamos vivendo um processo de transformação que tem feito as pessoas acordarem e isso é muito claro nas nossas páginas da Avon. As pessoas têm falado mais sobre violência, por isso tem aumentado os índices, porque as pessoas estão falando mais sobre isso sem medo.

A desigualdade de gênero e de raça vem diminuindo?

Eu acho que sim. Sou filha de ativistas, meus pais são fundadores do movimento negro, eu fui morar num país em guerra, porque eles eram muito ativistas e queriam ajudar a reconstruir Angola depois da descolonização.

Então eu penso se meus pais chegaram até o 30 eu tenho chegar até o 100, não posso começar do zero de novo. O que eu vejo às vezes é a gente remoçar do zero, não reconhecer os avanços que tivemos e avançar dali.

Então me preocupa nesse processo a gente só chegar até o 30. Por exemplo, a violência contra as mulheres é um problema endêmico, um problema 360º e assim que ele deve ser encarado, não tem uma só solução, não existe uma bala de prata, uma coisa que você vai atingir que vai resolver. Temos que entender que temos vários atores e que precisamos trabalhar juntos. É preciso reconhecer que o jeito que temos falado sobre violência não está ajudando, os homens não estão batendo menos e as mulheres não estão conseguindo sair dos ciclos de violência, então alguma coisa no jeito da gente falar e no jeito da gente fazer tem que mudar. Às vezes eu fico olhando algumas organizações que trabalham com Direitos Humanos, nessa área de onde eu também sou, e vejo que é sempre assim: faz um seminário, faz uma cartilha e está resolvido. Falar sobre a Lei Maria da Penha e apresentar os mecanismos de denúncia, não vai fazer as pessoas se refazerem. A gente precisa chamar as pessoas para a ação, como? Chamando para a responsabilidade, entendendo qual é o papel de cada um. E aí entra o que é mais a empatia. As pessoas dizem que empatia é você se colocar no lugar do outro, não é. Empatia é você entender como o seu lugar, interfere no lugar do outro.

Eu não quero que os homens sejam favoráveis às mulheres, eu quero que os homens entendam que eles têm que falar com os camaradas deles, isso é empatia e isso é diferente. Por que quando eu me coloco no lugar das mulheres o máximo que eu consigo fazer é um post no facebook. Mas isso é a diferença que ainda não conseguimos fazer. Então eu acho que sim, mas temos muitos desafios nesse jeito de fazer.

 

Elas sentem medo

 

Pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular sobre a Violência Contra a Mulher no ambiente universitário entrevistou em 2015, 1823 universitários em todo o país, 60% deles mulheres. Mostrou que:

entre as alunas 42% já sentiram medo de sofre violência no ambiente universitário;

36% já deixaram de fazer alguma atividade na universidade por medo de sofrer violência;

10% relatam espontaneamente ter sofrido violência de um homem na universidade ou em festas acadêmicas, mas quando são estimuladas com uma lista de violências elas reconhecem que foram submetidas a muitas delas e o número sobe para 67%;

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Várias formas de violência

Assédio Sexual (comentários com apelos sexuais indesejados, cantada ofensiva, abordagem agressiva)

56% sofreram

Coerção (ingestão forçada de bebidas alcoólicas e ou drogas, ser drogada sem conhecimento, ser forçada a participar de atividades degradantes como leilões e desfiles)

12% forçadas a ingerir bebida alcoólica

11% coagidas a participar de leilões, desfiles ou atividades degradantes

18% sofreram

Violência Sexual ( Estupro, tentativa de abuso enquanto sob efeito do álcool, ser tocada sem conhecimento, ser forçada a beijar veterano)

11% sofreram tentativa de abuso sob o efeito de álcool

28% sofreram

Violência Física

10% sofreram

Desqualificação intelectual (Desqualificação ou piadas ofensivas, apenas por ser mulher)

49% sofreram

Agressão Moral ou Psicológica (Humilhação por professores e alunos, ofensa, xingar por rejeitar investidas, músicas ofensivas cantadas por torcidas acadêmicas, imagens repassadas sem autorização, ranking beleza, sexuais e outros sem autorização)

52% sofreram

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