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Entrevista com Bruno Ramos, da Liga do Funk: “Nosso povo tem lado”

13/04/2016 às 19:17, por Rafael Minoro.

Em meio ao anúncio da Furacão 2000 convocando funkeiras e funkeiros para ocupar Copacabana contra o golpe, fomos atrás do pessoal da Liga do Funk, de São Paulo, para entender de que lado estão, como se organizam e o que pensam sobre o avanço das forças conservadoras

Um processo intenso de resistência democrática ocupa nos últimos meses espaços diversos dentro da sociedade. São realizadas diariamente atividades em universidades, escolas, teatros, casas de shows, ruas e praças. Dessa forma, faz-se chegar para milhares de pessoas a mensagem de artistas, professores, estudantes, advogados e militantes de movimentos sociais contrários ao processo de impeachment sem base legal e crime de responsabilidade.

A reportagem do site da UNE acompanhou muitos desses atos. Impossível não chamar a atenção o discurso e as apresentações-político-explosivas da turma da Liga do Funk, entidade fundada há três anos em São Paulo com objetivo de “educar, organizar, estruturar, defender e promover a formação artística dos jovens com a preocupação de formá-los também cidadãos conhecedores dos seus direitos.”

A explicação é de Bruno Ramos, 29 anos, um dos organizadores deste movimento e figura sempre presente nas manifestações populares. Em um desses atos, dentro do tradicional teatro da PUC-SP, cheio de advogados, alguns históricos como Celso Antônio Bandeira de Melo, os caras da Liga do Funk ocuparam o auditório para, por meio de música e discurso, denunciar o descaso que governos passados tiveram com a favela e sobre como a ascensão social do pobre incomoda os conservadores. Resultado? Auditório lotado sacolejando, advogados batendo pezinho e a dupla de cantores bem a vontade em um palco meio inusitado.


Com atividades todas as quartas-feiras sendo realizadas em um espaço emprestado na rua General Jardim, próximo ao metrô República, no centro da cidade, a Liga vem tentando entender o próprio movimento Funk e suas diversas linguagens. Ali, trabalham temas como a presença das mulheres dentro e fora do Funk e o papel delas na sociedade, formas de combate ao machismo e à lgbtfobia, a questão das drogas, além de oficinas de canto, rima, postura, presença de palco e atenção ao processo consciente da criação das letras dos MCs.

Os caras também realizam o “Talk Show Favela “Cadeira Elétrica”, que é um quadro criado pela Liga do Funk em que os convidados, diante de uma plateia de jovens, respondem a perguntas sobre temas diversos. Já sentaram na cadeira Emcida, MC Guimé e MC Menor da VG. Lá, o bicho pega! Aqui, pegamos leve com o Bruno e fizemos algumas perguntas sobre o cenário político atual, o avanço das forças conservadoras e as saídas para a crise. Confere aí:

Percebo que o funk é meio atrevido, metido a besta mesmo, e vem chutando a porta e ocupando espaços até mesmo inusitados. Por exemplo, vocês cantaram em um ato de juristas na PUC-SP sobre a legalidade democrática. Só tinha advogado, professor, intelectual lá, cara! e todo mundo cantou com vocês. Marcaram presença também no Fórum Social Mundial, no ato do teatro oficina e estão por aí, preenchendo os lugares com som e luta. Me explica isso aí, esse viés de movimento social que o funk vem angariando…

Digo que os funkeiros e as funkeiras naturalmente são, assim, um tanto audaciosos com tudo o que fazem, falam aquilo que vem à mente sem medo de errar, afinal, já viemos ao mundo pagando dívidas e culpas que não são nossas. Então, passamos a ocupar espaços inusitados porque somos de certa forma inusitados. Falamos pra nós mesmos e não pra outras pessoas externas a nossa realidade. Segue o movimento quem quer, é democrático e tem espaços pra todas as pessoas, credos, religiões, etnias, condições sociais.

Até então, a banda estava sendo tocada por pessoas que não nos representam e chegou a hora da favela mostrar a real força que tem, não somente nas urnas,  mas também nos espaços de decisões. Somos mais de 20 milhões de funkeiros e funkeiras em todo país e temos plenas condições de colocar nossos representantes nos lugares de decisões atendendo às nossas necessidades, que não são poucas.

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Nesse momento de acirramento da disputa política, de que lado o funk está? E qual você acha que deve ser a saída para essa crise? E qual o papel do funk?

A crise existe, sim, e já afetou as panelas das casas, mas nada que seja um problema maior que não possa ser superado. Em meio às dificuldades, existem grandes oportunidades e estamos procurando fazer uma leitura minuciosa do que realmente de fato está acontecendo para não sermos manobrados e para que seja também uma oportunidade de mudanças. Pelo o que vimos, a crise é interna, política, e não externa, mas, se quem está na disputa tivesse dado continuidade ao trabalho de base que começaram com o real propósito de mudar as periferias, nada disso estaria acontecendo. Precisa de mais diálogo e construção concreta com os movimentos de base e, em especial, com as culturas da periferias que têm sido protagonistas no último período e é uma nova forma de se fazer e fortalecer o campo político da esquerda pelo fato de ser transversal em diversas áreas da arte, educação, meio ambiente, esporte, lazer, saúde, trabalho… “A política deveria mudar a base das pessoas e essas pessoas mudariam o mundo.”

 

Boladão peitei o mundo / Deixei o sistema maluco / Tentaram me alienar / Mas eu criei o meu mundo / Vou na pista e trago mesmo / Inteligência é o segredo  / Enquanto pensam que eu sou lok / Aprontei, deixei com medo / Sou falcão no dia a dia / Favela é a minha família / Mafioso periférico tu vai perde a linha / Se tu pensa que eu sou bobo / Que vou falhar na missão  / Tu vai ver o resultado / Quando chegar a eleição / Se o sol nasceu pra todos / A sombra pra quem trabalha / Já expandi meu investimento / Dinamite monetária / Te sarniei mané / Te botei do meu jeito / Entrei na sua mente / Furei o seu bloqueio / Aqui ninguém é Zé / Pra tu achar que é esperto / O bloco tá passando / É o certo pelo certo. (Letra de Mc Pôneis, da Liga do Funk)

 

O que percebemos é que os protestos, principalmente da direita, são realizados em pontos centrais, até mesmo mais ricos da cidade. São protestos chics, né. Tem carros de som grandes e mais gente branca. Você acha que está faltando o pessoal organizar as pessoas da periferia para a luta política? Por que não se realiza grandes manifestações nas favelas?

Se o bonde deles tem pessoas mais brancas, tá suave, porque os movimentos de esquerda tem mais pessoas negras, então tá tudo certo. E isso é o importante, é sinal que o nosso povo tem lado e não está se contaminando com essa galera dos movimentos de direita. Temos que entender que as pessoas da periferia são organizadas, sim, e realizam as suas manifestações todos os dias. Os fluxos que acontecem nas favelas todos finais de semana, isso não é estar organizado? Quem não são organizados são os partidos políticos com as suas tretas.

Com o avanço de forças conservadoras para cima de muitos direitos conquistados nos últimos tempos, principalmente pelas pessoas mais pobres, mulheres, lgbts e negros, qual você acredita que deva ser a melhor forma de enfrentamento para evitar retrocessos?

O sinal de alerta já explodiu faz tempo e eu vejo da seguinte maneira: “Quando um dos nossos acerta é porque todos no seu entorno também acertaram, mas quando um erra é porque todos no seu entorno também contribuíram para o erro.” Essa é a política LIGA do FUNK. A nossa parte já estamos fazendo, o FUNK, como estilo de vida, como movimento periférico e como continuidade da luta de resistência de gerações passadas segue de forma atualizada lutando pelo direito de ir e vir, o direito de escolha, pelos direitos iguais entre homens e mulheres, pelo respeito ao movimento LGBT, fazendo de certa forma o papel do Estado junto às classes menos favorecidas. Muita gente não conhece o trabalho da LIGA do FUNK e essa é uma boa oportunidade de mostrar esse oásis de oportunidades em meio a essa selva de pedras cheia de predadores e dificuldades.

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