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“É preciso aprender na escola sobre a contribuição do povo negro”

22/11/2016 às 18:11, por Natália Pesciotta.

Em série de entrevistas especiais para o mês da Consciência Negra, a primeira vereadora negra eleita em São Bernardo do Campo (SP) explica por que o estudante afrodescendente precisa conhecer a história da própria identidade

Ana Nice Martins de Carvalho é a primeira mulher negra a conseguir uma vaga na Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e será a única representante feminina na próxima legislatura. Ela viveu a infância no campo, no Norte de Minas Gerais, e só aprendeu a ler aos 14 anos, mas formou-se metalúrgica e, mais tarde, historiadora.

Em série de entrevistas especiais do mês da Consciência Negra, ela conversou com o site da UNE  sobre política, representatividade, racismo e educação. Para ela, conhecer a história africana além da escravidão pode melhorar até a autoestima do jovem negro: “Um dos meios de incentivar a promoção da igualdade racial nas escolas é com a inclusão da cultura afrobrasileira nos currículos escolares. É um dos meios até para a gente se ver de outra forma, saber a contribuição que o povo negro tem ao longo da história, não só do Brasil”.

Como é fazer parte de uma Câmara formada quase totalmente por homens brancos? O que isso significa pra você?

Ao longo da história, o espaço da política e o espaço público, desde a Grécia antiga, foi reservada para os homens, e alguns homens, os homens livres, brancos. As mulheres sempre estiveram muito no espaço privado. Aqui no Brasil, o voto feminino foi permitido a partir de 1932, é muito recente. Se você não tem direito a voto, também não tem direito a ser votada… O País é muito conservador, Na América Latina, o Brasil só está atrás do Haiti quanto à participação feminina na política. Aqui em São Bernardo não é diferente. Então, chegar à Câmara Municipal sendo a única mulher é um retrato do machismo, racismo e conservadorismo.

O fato de nunca ter tido uma mulher negra na Câmara da sua cidade nunca te desencorajou a tentar uma vaga?

Pelo contrário. O que me encorajou foi o fato de que, desde 1948, em 16 legislatura nós só termos conseguido eleger diretamente seis mulheres aqui na Câmara Municipal. Era preciso ter representatividade. É claro que nesse momento de conjuntura política, em que nós perdemos muitas vagas – aqui no ABC paulista nós tínhamos 10 vereadoras e, a partir de 2017, termos 4 – ter sido eleita mulher, negra, trabalhadora, sindicalista, sem dúvida nenhuma foi uma grande vitória.

Você já lutou pelo feriado da Consciência Negra em São Bernardo. Como e por quê?

De 2005 a 2008, fui coordenadora da comissão de Igualdade Racial aqui no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, momento em que cresci muito na minha formação e militância por políticas afirmativas. Participei da luta pelo feriado de 20 de novembro junto com movimentos negros e vereadores. A primeira vez que falei na tribuna da Câmara foi para defender a tese a importância de reconhecer Zumbi dos Palmares como líder negro, herói brasileiro, e contrapor ao 13 de Maio, data da “falsa libertação dos escravos”.

Você vê alguma forma de incentivar a promoção da igualdade racial nas escolas?

Acho que a gente precisa melhorar cada vez mais o ensino público e que não haja nenhuma criança fora da escola. Um dos meios de incentivar a promoção da igualdade racial nas escolas é a inclusão da cultura afrobrasileira nos currículos escolares. É um dos meios até para a gente se ver de outra forma, saber a contribuição que o povo negro tem ao longo da história, não só do Brasil. Isso pode inclusive melhorar a autoestima das crianças, dos jovens e de toda a população negra do nosso País. E, claro, por meio de políticas afirmativas, como as cotas.

Você foi eleita com bandeiras progressistas num momento de avanço conservador. Como explicar isso? Quais os desafios?

Acredito que explica-se pelo meu histórico de luta. Sou do movimento sindicalista, desde 1993, e minha formação política foi pelo sindicato. Então fui eleita pelo meu histórico de luta, de defesa dos direitos, do movimento de mulheres, do movimento negro, da Educação de Jovens e Adultos. Claro que não fui eleita só pelos segmentos, mas também por estudantes universitários, outras pessoas da cidade. Acredito que a muita gente conseguiu se ver no meu trabalho e na minha história. Quando se fala de uma pessoa negra no meio político, a gente tem oportunidade de sonhar, ver que é possível. Acho que algumas pessoas podem ter visto esta perspectiva.

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