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Douglas Belchior: ”A periferia é o centro da resistência política no Brasil”

07/08/2016 às 22:13, por Renata Bars Foto: Yuri Salvador.

Professor e colunista da revista Carta Capital fala sobre violência contra a população negra, enfrentamento ao racismo e comunicação

O debate sobre ”O papel da população negra na ampliação da democracia”, que aconteceu na noite da última sexta-feira (5), durante o 5º Encontro de Estudantes Negros, Negras e Cotistas da UNE (Enune), realizado em Salvador, teve como um dos convidados o professor, colunista da revista Carta Capital e fundador do movimento Uneafro Brasil, Douglas Belchior.

Na revista, Douglas fala sobre assuntos ligados à educação, diversidade, direitos humanos, e, claro, a questão racial. Ao site da UNE, ele falou sobre pontos discutidos durante o Enune, como o enfrentamento ao golpe e ao racismo e também a luta pelo fim da violência contra a população negra e pobre.

”Hoje, a periferia é o centro da resistência política no Brasil. Mulheres, negros, LGBTs, é desses grupos que vem a resistência política não só contra o golpe, mas também resistência política pela vida”, destaca.

Confira abaixo o bate-papo na íntegra:

Ano passado você participou da quarta edição do Enune falando sobre o extermínio da juventude negra. De lá pra cá, você acredita que avançamos em algum ponto?

As mortes continuam sendo em grande escala, elas não retrocederam um minuto, pelo contrário. Todos os estudos apontam que há um avanço na morte negra no Brasil a partir do recrudescimento das forças policiais, sobretudo depois da ascensão do governo golpista. Se antes a gente já reclamava de uma política pública que valorizava a ação violenta por parte das polícias, e que acaba determinando a ação violenta também civil, esse governo reafirma uma política repreensiva contra negros e a população periférica. Infelizmente a tendência é a violência aumentar. É o recrudescimento policial fazer mais vítimas. O Brasil é um país que se reafirma como um país genocida contra o povo negro.

Como é possível então afrontar o racismo, como afirma o tema do 5º Enune, e enfrentar a violência?

A gente precisa se organizar politicamente. A única novidade possível na atual conjuntura brasileira é a organização política da população negra. Nós já experimentamos todas as demais formas de organização política, todas as matrizes do pensamento político, a gente precisa entender que esse é o momento de reorganização da esquerda e reorganização das forças políticas no Brasil. Hoje, a periferia é o centro da resistência política no Brasil. Mulheres, negros, LGBTs, é desses grupos que vem a resistência política não só contra o golpe, mas também resistência política pela vida. A gente percebe isso nas comunidades organizadas, nos territórios periféricos. São os pobres e negros que estão organizando dentro da universidade a resistência política, são os pobres e negros que estão se organizando dentro dos saraus e coletivos dentro das periferias. O que a esquerda brasileira precisa entender é que é do chão, do fundão, que a gente vai conseguir o fôlego para reorganizar a luta política da classe trabalhadora no Brasil. Se não entender isso vamos continuar sendo vítimas por mais quinhentos anos.

Falando em comunicação, como os jovens brasileiros podem se organizar para realizar um contraponto à hegemonia da grande mídia?

Eu penso que a cada dia a população preta e periférica está tendo mais acesso às tecnologias. E de nossa parte o que nunca faltou foi inteligência, nunca faltou sabedoria ou criatividade, então, com as ferramentas nas mãos a gente resiste. A gente faz isso com a vida cotidiana e vamos fazer isso politicamente. O que é muito importante trabalhar é enfrentar o individualismo que também ocupa a política. Então, a nossa voz, sozinha, isolada, ela é só uma voz. Nós precisamos nos reunir, nos organizar politicamente. A nossa voz precisa falar em conjunto. Enfrentar o culto à personalidade, o culto ao personalismo na política que não leva a nada. A internet é um ambiente propício para o individualismo, embora seja também um espaço importante de reflexão e espaço positivo de demonstração das individualidades. Cultuar o individualismo não dá certo. A gente precisa se organizar politicamente no coletivo, valorizar as organizações que constroem política coletivamente. Essa também é uma tarefa nesse momento.

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