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Depois das chamas, banqueiros atacam a UFRJ

06/09/2018 às 16:46, por Renata Bars.


Leia artigo assinado pela diretora de direitos humanos da UNE Luiza Foltran

As chamas sobre o Museu Nacional, que começaram no domingo à noite, tiveram um efeito sobre o mundo todo. Se em um primeiro momento essas chamas queimaram memórias e arderam de indignação, ainda com a dúvida se o fogo era um acaso, após apagadas se transformaram em milhares de pessoas-brasas amontoadas sobre os portões da Quinta da Boa Vista e da Cinelândia, gritando contra o descaso. As brasas, se tornam cinzas, por sua vez impessoais, que nas mãos dos banqueiros e jornais tentam pintar culpados entre a população.

 E afinal, quem é o culpado? Diretamente, temos órgãos responsáveis e uma política orientadora. O Museu Nacional é patrimônio da UFRJ, ligado ao MEC. Em escala hierárquica existe o Coordenador do Museu, o Coordenador do Fórum de Ciência e Cultura e o Reitor. A responsabilidade deles grosseiramente é conhecer o museu, saber das suas demandas, administrar os recursos que chegam e, batalhar para que cheguem. Em artigo cedido para o Nexo Jornal, Aparecida Vilaça, professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ diz que ao procurar as esferas superiores, estes dirigentes “eram tratados como crianças pedindo um brinquedo novo e supérfluo”.

 Já os dirigentes das esferas superiores, o MEC e o Governo Federal, que orientam os repasses para a educação, nunca levaram a sério quando a comunidade acadêmica da UFRJ dizia que estava para fechar as portas. Ignoraram o significado de um pedido de verbas emergenciais para os impactos do incêndio do Alojamento no ano passado. Ou que era grave a situação do Museu Nacional. Afinal, o tipo de cuidado que exige o Museu Nacional é diferente dos demais, pois não bastaria ter extintores ou sprinklers como disseram alguns após a tragédia, já que os equipamentos também danificariam um acervo tão particular. O Ministério da Educação nunca possuiu uma linha de financiamento para museus e prédios tombados, forçando para que os investimentos tenham sempre sido feitos com recursos próprios da UFRJ. Recursos estes, insuficientes para manter o dia-a-dia da universidade, como contas de luz e de água atrasadas há meses.

Me lembro bem, em 2012 e 2015, duas greves que duraram aproximadamente 3 meses cada e que, em diversas tentativas de negociação entre a comunidade acadêmica e o MEC, tentamos pedir socorro. Em 2012, ocupamos o Canecão, importante casa de show e cultura da década de 70, pertencente à UFRJ, mas fechada após anos de concessão a um empresário que o devolveu completamente destruído e sob ordem judicial. O recado era: queremos investimento para cultura! Não podemos deixar nosso patrimônio ruir. Em 2015 a greve começou a partir da crise do não pagamento dos e das funcionárias terceirizadas, em sua maioria mulheres negras, em situação de extrema vulnerabilidade. O recado, por sua vez, foi: precisamos de verbas para continuar funcionando. Após a greve, liberava-se um trocado, mas não havia disposição de encarar a realidade como deveria ser.

Essa reitoria, conduzida por Roberto Leher e Denise Nascimento, foi eleita em maio de 2015, através de voto direto da comunidade acadêmica, em meio ao processo de greve. A chapa “UFRJ Autônoma, Crítica e Democrática” venceu o segundo turno da pesquisa eleitoral na universidade, com 13.377 votos, sendo 9.538 de alunos, 2.706 de técnicos-administrativos e 1.133 de professores. Roberto Leher foi eleito pela maioria da comunidade acadêmica com um programa de defesa da educação pública. Como intelectual, sempre enfrentou os interesses do Banco Mundial em acabar com o ensino superior gratuito no Brasil. Logo após a sua eleição, começaram as negociações com o BNDES para que fossem liberadas verbas específicas para o museu. Essas verbas não chegaram a tempo. Milhões de reais forem liberados através de emendas parlamentares, entre eles Chico Alencar, Glauber Braga e Jandira Feghalli, para conter a crise do alojamento, do hospital universitário, dos laboratórios e do museu. Todos possivelmente inflamáveis.

 Essa situação se estende há décadas, entre contingenciamentos e falta de recursos, mas se agravou profundamente depois da aprovação da Emenda Constitucional 95, que institucionalizou a crise pelos próximos 20 anos.

Agora, os banqueiros se reúnem com o presidente golpista Michel Temer dispostos a dar dinheiro para a reconstrução do Museu Nacional. Com a condição de que se demita o Reitor-Eleito Roberto Leher, em uma tentativa oportunista de colocá-lo como culpado, querem vender a imagem de salvadores da pátria, criminalizando a esquerda e a coisa pública. O que eles não dizem é que todos estes comandantes do Itaú Unibanco, do Bradesco, da Caixa Econômica Federal, do Santander, do BTG Pactual e do Safra, foram favoráveis a Emenda Constitucional 95 que congelou as verbas públicas para educação por 20 anos. Instituições que tem lobby permanente no Congresso em prol da injeção de verbas públicas na educação privada. Banqueiros que disseram explicitamente querer privatizar o Museu Nacional em forma de (OS) Organização Social.

A UFRJ vai completar 100 anos no ano que vem e o Museu Nacional acabou de completar 200. Mesmo com todos os ataques, neste centenário, a UFRJ também é e sempre foi luta. Lutamos contra a ditadura, contra os cortes sistemáticos na educação e fomos a única do Brasil a não deixar que os nossos hospitais universitários fossem privatizados. Por isso, não vamos desistir! Seguiremos batalhando por um projeto que entenda a educação pública como estratégica, que preze pela autonomia universitária, pelos nossos museus e pela ciência e tecnologia! Com investimento que pense o longo prazo e não olhe para a universidade apenas na hora de apagar um incêndio. UFRJ Resiste!  

Luiza Foltran Aquino
Graduanda em Letras Português-Italiano pela UFRJ
Diretora de Direitos Humanos União Nacional dos e das Estudantes

*Este é um artigo de opinião e não reflete a posição do conjunto da entidade

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