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CUCA entrevista João das Neves: ‘Arte é transgressão, novela cria bundões’

12/05/2018 às 18:09, por Alexandre de Melo.


Histórico diretor de teatro, fundador do Grupo Opinião e diretor do CPC da UNE conversa com o CUCA na UFMG

Ícone do teatro brasileiro, o carioca João das Neves (1934) é fundador do Grupo Opinião e diretor do CPC da UNE no início da década de 1960. Diretor, dramaturgo, ator e escritor, João é reconhecido por sua obra com prêmios como o Molière.

João das Neves, ícone do teatro brasileiro. Crédito: Bárbara Marreiros

Nesta sexta (11), o artista participou de uma roda de conversa com o núcleo do CUCA – Circuito Universitário de Cultura e Arte na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). João respondeu perguntas sobre a sua trajetória e como funcionou a Caravana da UNE Volante de 1962, marco da resistência à ditadura da época. Abaixo, veja um resumo do papo.

Bárbara Marreiros – Como era feito a comunicação do CPC da UNE?

João das Neves – Tinha um núcleo do CPC no Brasil inteiro e cada CPC tinha autonomia. Claro, nós eramos todos de esquerda e isso nos dava um norte, mas havia independência em cada um dos núcleos. Quando a gente viajou junto da UNE Volante, a gente pode dialogar diretamente com cada CPC em cada Estado. Essa possibilidade de ver realidades diversas ajudou muito na divulgação. Com as viagens a gente pode sair um pouco do nosso mundinho e ver outras realidades. O genocídio dos índios, por exemplo.

Phil – Como vocês se organizavam antes da UNE Volante?

JN – De vez quando a gente organizava simpósios e debates. O intercâmbio entre as diferentes regiões acontecia melhor dessa forma. Agora, é necessário a adaptação para os dias de hoje. A gente fazia dessa forma, mas hoje vocês tem internet e um mundo de possibilidades. O grande encontro se deu por meio da UNE Volante, inclusive a peça “Auto do 99%”.  Fazíamos apresentações de rua e em muitos cantos como no saguão de aeroportos. A caravana possibilitou que a peça fosse mais conhecida e os objetivos da UNE Volante se espalhassem.

Camila Ribeiro – Estamos vivendo um momento de criminalização dos movimentos sociais. A arte engajada pode ajudar a mudar esse quadro? Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como se dava esse dabate na época do CPC e se havia uma cobrança para a arte ser engajada?

JN – Sempre vai haver essa conversa sobre arte livre versus arte engajada. Como se arte pudesse não ser política. Rimbaud era poeta político? Não era. Mas ele se aprofundava em sua arte. Nós temos que ter essa preocupação de produzir arte autêntica que busca a essência. A chamada direita sempre vai dizer que nos apropriamos da arte para fazer política. Mas a gente não precisa se preocupar com isso. A gente precisa se preocupar em fazer arte autêntica.

Encontro do Cuca com João das Neves. Crédito: Bárbara Marreiros

Alexandre de Melo – O teatro feito e criado por vocês tem um viés transgressor. Há omissão do teatro para pautas políticas hoje em dia?

JN – Não é o teatro em si que é transgressor. É a arte. A arte é transgressão por natureza. Agora, no fazer artístico pode ter acomodação. A arte incomoda e atrai. Sempre vai ter incomodo de alguma coisa para as pessoas. Se você não incomodar as pessoas, elas não se tocam. Por exemplo: as novelas da nossa querida vênus platinada utilizam os melhores elementos da arte, contratam os melhores atores, roteiristas, cenografistas, etc. Utilizam todos os elementos essenciais na arte, no entanto,  não fazem arte. A Fernanda Montenegro e  a Marília Pêra são as maiores atrizes do nosso País, certo? Mas ali na Globo elas não fazem arte. Elas fazem pastiche. Eles fazem para acomodar, ficar passivo. Eles são muito inteligentes. Na Globo, eles fazem parecer que estão dizendo alguma coisa essencial, mas tocam nesse assunto apenas quando esse assunto já está mastigado na sociedade. O beijo entre duas mulheres não espanta mais ninguém, a não ser os espantados de sempre. Nesse contexto superficial, não se aprofundam em nada. Arte é transgressão, novela cria bundões que acham que é natural apenas o que se passa ali.

Tiago, estudante secundarista – Na época de vocês como era a disputa pelos espaços públicos de cultura e como lutar para não permitir o desmonte dos equipamentos culturais como Valores de Minas hoje?

JN – Esse processo de ocupação de espaço públicos para atividades culturais começou lá atrás. Veja, Gilberto Gil fazia parte do CPC de Salvador. Quando ele entrou no Ministério da Cultura ele trouxe toda essa experiência para ações como Arena Cultura e o Valores de Minas. São conquistas que estão sendo destruídas. A primeira atitude do Governo Temer foi desmontar o Ministério da Cultura. Os artistas resistiram e conseguimos que o Ministério da Cultura voltasse, mas evidentemente não voltou o Ministério do jeito que era antes, voltou totalmente anulado. A tendência é acabar com os equipamentos e espaços culturais. Não há dúvidas que houve avanços no governo Lula e depois no governo Dilma, mas a gente não pode deixar de fazer a autocrítica que foram mandatos de conciliação. Esse retrocesso é o preço dessa conciliação. Fiquei muito impressionado com uma fala do Lula em um acampamento do MST. Ele disse que os banqueiros que hoje estão perseguindo a ele deviam na verdade erguer uma estátua em seu nome porque nunca eles ganharam tanto dinheiro quanto na época do governo dele. Quem disse isso foi o Lula, não foi eu. Talvez essa conciliação fosse o que era possível ser feita na época. Quando a Dilma resolveu radicalizar e não entrar em acordos caiu. O Lula mais maduro politicamente foi levando em banho maria. No entanto, esse modelo de conciliação está trazendo muitos retrocessos em todas as áreas nesse momento.

Mateus – Um dos nossos maiores desafios na Universidade é levar arte e cultura para além dos muros. Como vocês pensavam esse trabalho de levar arte para o povo?

JN-Basicamente, eu não sei responder (risos). É pretensioso da nossa geração dizer que levamos arte para o povo. Articulamos teatro de rua, mobilizando. No entanto, nós ainda temos muito que aprender com a arte genuinamente popular. Muito sofisticada, inclusive. Antes da UNE ser queimada veio um documento a público dizendo ser um suposto manifesto do CPC. Nesse documento, cheio de preconceitos, dizia-se que tínhamos arte do povo alienada representada por congadas e folia de reis. Segundo eles, era uma arte reacionária. Depois teríamos a arte popular influenciada pelas elites. E, por fim, a arte revolucionária que dizia o que o povo tinha que fazer. Esse documento era um documento de discussão interna, a maioria não concordava com isso, mas alguns concordavam. Uma bobagem. Pensem na riqueza na cultura sincrética do Candomblé. Nós temos que aprender com arte popular. Zé Coco do Riachão não sabia escrever e tinha um domínio musical imenso.

GRUPO OPINIÃO

João contou ainda como formou o Grupo Opinião, um dos  primeiros grupos artísticos que enfrentou a ditadura, logo após o incêndio da UNE e termino do CPCs e contou sobre o lançamento de um livro biográfico. ” Nós eramos todos filiados ao partido comunista. Para fugir da repressão, dizíamos fazer parte do Teatro de Arena. Apenas no terceiro trabalho passamos a usar o nome opinião. Tivemos que ter esse jogo de cintura. Quando a ditadura se ligou, a gente já existia e legalmente. Mas já teve momentos de silêncio durante as peças porque trechos foram censurados, isso depois de 1968″. Estou escrevendo um livro contando a história do grupo opinião e espero lançar até o final do ano. O livro chamará “Por cima do Temporal – a História do Grupo Opinião”. É justo termos um registro mais extenso”, disse.

O dramaturgo deixou como conselho para as novas gerações que trabalham com cultura na UNE que não deixem de conhecer e apoiar o MST e buscar novos caminhos que se adaptem aos tempos atuais. “É importante ver o que for feiro, mas há de se seguir em frente e adaptando a luta para as demandas atuais que eu diria que são ainda mais graves”.

No final da atividade, João recebeu uma homenagem dos estudantes da UFMG, por meio de um mural grafitado no restaurante universitário.

Mural em homenagem ao João das Neves no RU da UFMG. Crédito: Bárbara Marreiros

 


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