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Confira entrevista concedida pela presidenta da UNE ao jornal Folha Dirigida

28/07/2015 às 16:27, por Renata Bars.

Carina Vitral falou sobre as principais bandeiras da entidade estudantil na atual conjuntura política

Na última segunda-feira (27/7), a presidenta da UNE, Carina Vitral, concedeu entrevista ao jornal carioca Folha Dirigida e falou um pouco sobre as pautas prioritárias da entidade , avaliou o desempenho do atual governo na  educação  e repudiou o corte  9 bilhões na área.

‘’Na Educação, por exemplo, foram R$9 bilhões cortados do orçamento federal. Isso é um contrassenso, um retrocesso. A saída da crise e o crescimento na economia necessários serão feitos com mais investimentos e não cortando verbas’’, destacou.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Na pauta da atual gestão da maior entidade estudantil, a União Nacional dos Estudantes (UNE), tópicos como a democracia, crise econômica, maioridade penal, expansão e consolidação das universidades públicas e a reestruturação de programas, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), são prioridades. Quem dá voz à essas questões é a jovem Carina Vitral, 26 anos, estudante de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP).

Eleita para a presidência no dia 7 de junho, Carina conta o motivo de tais temas serem tão importantes no atual momento vivido pelo Brasil. “A União Nacional dos Estudantes sempre lutou por democracia, resistiu à ditadura militar e não vai compactuar com denúncias. Quanto à crise, somos muito críticos em relação ao ajuste fiscal. O corte de R$9 bilhões foi um contrassenso”, disse.

Nesta entrevista, concedida à FOLHA DIRIGIDA, Carina destacou mudanças positivas nas novas regras do Fies, como o controle da sociedade sobre o programa. “Antes, não existia transparência em relação aos critérios utilizados no Fundo. O estudante ia até o banco e fazia o contrato entre o banco e a  universidade”, comentou. O ministro da Educação, Renato Janine também foi assunto da conversa. Para ela, pelo educador não ter vindo do próprio Ministério, conseguiu desenvolver rápida compreensão acerca das atividades do MEC. Entretanto, Carina acredita que o foco para os próximos períodos deva ser a educação básica. “A educação básica vive uma crise de qualidade muito grande, é um consenso entre o movimento educacional, os educadores e os especialistas. Esse consenso mostra que o ensino médio, fruto da indústria do vestibular, perdeu o sentido no meio da formação básica e da universidade.”

Natural de Santos (SP), Carina Vitral carrega na bagagem lutas antigas. Em sua história, foi diretora do Centro dos Estudantes de Santos (CES), diretora das universidades públicas da UNE e ocupou a presidência da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP). Primeira mulher a suceder outra à frente da UNE, Carina acredita que o fato pode inspirar e mobilizar meninas a galgarem cargos como este. “É muito simbólico, tal qual a presidência da República. Quem de nós já não sonhou em ser presidente da República?”, finalizou.

FOLHA DIRIGIDA — Quais são os temas prioritários da UNE, em especial neste contexto de crise que marca o ano de 2015?

Carina Vitral – Hoje, o centro da nossa luta gira em torno de dois temas. O primeiro é a democracia. Na atual conjuntura de crise política e de instabilidade, diversos setores reacionários da sociedade utilizam- se da crise econômica e da licitação em empresas públicas a fim de deslegitimar o poder político no país. E a UNE sempre lutou por democracia, resistiu à ditadura militar e não vai compactuar com denúncias, oportunismo e principalmente com quem levanta tais bandeiras no atual momento do Brasil. Então, a questão da democracia é atual e bastante importante. O segundo tema é a crise econômica e a forma como o governo tem lidado com ela. Porque a UNE é muito crítica em relação ao ajuste fiscal. Na Educação, por exemplo, foram R$9 bilhões cortados do orçamento federal. Isso é um contrassenso, um retrocesso. A saída da crise e o crescimento na economia necessários serão feitos com mais investimentos e não cortando verbas. O ajuste tem consequências sérias para o setor educacional, como o aumento dos juros do Fies, que é uma das principais regras de mudanças do programa. Além disso, nas universidades federais, há o congelamento dos investimentos, ampliação dos novos prédios e novas estruturas, que colocam a universidade em crise. Além disso, também lutamos contra a redução da maioridade penal.

Como você avalia o governo da presidente Dilma na área de educação? Houve muitos retrocessos em relação aos dois mandatos do ex-presidente Lula?

Não. Não cobramos uma comparação entre os governos, porque o período de crise econômica é um período sem precedentes na história. Mas vivemos uma nova realidade na universidade, com as políticas radicais de democratização, as cotas, o Reuni, o Prouni e o Fies. É uma outra universidade e, por isso, ela gera novos desafios que necessitam de maior investimento. Então, cobramos decisões políticas contrárias à atual: a de aumentar os investimentos. Por isso lutamos pela aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê a aplicação de 10% do PIB na Educação. Acho que o governo federal poderia ter poupado a Educação no ajuste. E a saída para poupá-la era taxar grandes fortunas, diminuir e pagar menos juros da dívida pública, assim conseguiria evitar os cortes.

Diretórios acadêmicos de várias instituições têm sinalizado preocupação com a redução do investimento em assistência estudantil. No Rio, por exemplo, obras de restaurantes universitários e alojamentos estão paradas em algumas instituições. A UNE tem percebido essa tendência, nos últimos anos, de redução do gasto com assistência ao estudante?

Não. Não houve uma redução dos gastos, mas, sim, um aumento. Existe o Plano Nacional da Assistência Estudantil (PNAE) que tem verba crescente. Ela é insuficiente para o atual estágio da universidade, contudo, não é verdade que diminuíram os custos. A verba do PNAE não diminuiu. Ao contrário, ela se manteve, mesmo com o corte. A nossa maior crítica é em relação à verba dos investimentos, para construção de prédios, obras do bandejão. Esta não é destinada à assistência estudantil. Não é assistência estudantil na rubrica. Assistência estudantil seria o subsídio do bandejão. Na questão dos recursos, o governo adotou a seguinte política: manter todas as obras já em andamento e paralisar as novas. Isso é ruim, pois não basta concluir. As instituições precisam de prédios e campi novos. Então, hoje, o corte na área de investimentos é de 45% dentro dessa conta. Isso acontecer no atual estágio na qual a universidade se encontra é muito ruim.

A UNE tem notícia de instituições de outros estados em que os alunos enfrentam problemas graves por conta do corte de verbas?

Todos os estados têm problemas. Existiram algumas instabilidades, como por exemplo, uma notícia de um corte de bolsas que o MEC não confirmou e até desmentiu. Então, a essas incertezas nós ficamos bastante atentos para não acontecer. Porém, o corte afeta diversas universidades.

As ações de expansão do ensino superior, a partir de agora, deveriam ter qual prioridade, na sua visão?

A universidade brasileira, hoje, está encerrando um ciclo e começando outro. Os programas que surgiram para expandir e democratizar o acesso à elas, como o Prouni, o Reuni e o Fies, já existem há muitos anos. O Prouni, inclusive, completou 10 anos de sua criação. É preciso revisar, avaliar e reestruturar esses programas, principalmente para ampliar o acesso. Porém, na visão da UNE, o foco deve ser a expansão da educação pública. Por exemplo: falou-se muito sobre a diminuição dos contratos do Fies. Mas, em um momento de crise, você ter 750 mil contratos, como foi há dois anos atrás, é exagero. Exagero porque você percebia que na universidade pública por ano, tinha somente 250 mil vagas. Ou seja, o número de contratos oferecidos pelo Fies era três vezes maior do que as vagas das universidades públicas. O Prouni e o Fies são importantes, pois milhares de jovens têm oportunidade de estudar, porém, a política dos estudantes é a política da universidade pública. Portanto, o foco necessita ser também a criação de novas universidades. E elas podem não serem criadas agora, contudo, existe a possibilidade de planejá-la, arranjar os parceiros e os terrenos, para que no momento de melhor conjuntura, as construções possam vir a surgir.

O anúncio do ministro Renato Janine para o MEC entusiasmou o meio acadêmico pelo fato de ele ser um educador. Como a UNE vê a gestão do novo ministro? É positiva? Ou, até agora, não mostrou a que veio?

Ainda estamos conhecendo a gestão do ministro. Ele demonstrou uma rápida compreensão, atualização e domínio sobre as atividades do MEC, já que ele não veio do próprio Ministério. Agora, é preciso que ele consiga ter uma liderança grande, sobretudo na instrumentação do Plano Nacional dos Estudantes e na reformulação do ensino médio básico. Acredito que este  deva ser o principal tema dele. A educação básica, atualmente, vive uma crise de qualidade muito grande, é um consenso entre o movimento educacional, os educadores e os especialistas. Isso mostra que o ensino médio, fruto da indústria do vestibular, perdeu o sentido no meio da formação básica e da universidade. A maior aposta de melhoria na qualidade do ensino básico é a reformulação do currículo do ensino médio.

Como você avalia as mudanças feitas no Fies este ano? Com quais a UNE não concorda?

A principal mudança negativa é o aumento dos juros. Como o governo também baixou o teto da renda do Fies de 20 salários mínimos para três salários mínimos, achamos que esta medida prejudicará justamente os estudantes mais necessitados. Essa é a parte que a gente mais discorda.

Ainda com relação ao Fies: quais mudanças a UNE considera positivas?

A estruturação do novo modelo do Fies. Com a reestruturação, o Estado, o governo e a sociedade possuem um controle social sobre o programa. Por que eu digo isso: antes, não existia transparência em relação aos critérios utilizados no Fundo. O estudante ia até o banco e fazia o contrato entre o banco e a universidade. Agora, todos passam a ter controle sobre isso.

Há uma concorrência entre as instituições, onde existem critérios de qualidade, de mensalidade e de seleção dos alunos. O que acontecia também, com o antigo modelo, era o financiamento estar disponível ou não, e com o aluno já matriculado, o que prejudicou os estudantes no último semestre. Muitos acabaram endividados. Então, achamos que houve uma melhora na qualidade do Fies.

Você é a sexta presidente mulher da UNE. Acredita que isto pode inspirar as mulheres a participarem mais da mobilização estudantil?

Com certeza. Criamos liderança muito por nos espelharmos nas lideranças vigentes. Quando uma mulher vira presidente da UNE, ou no meu caso, pela primeira vez na história, uma mulher passa a presidência para outra, várias meninas de Centros Acadêmicos (CAs) e dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs), passam a acreditar que um dia podem chegar a ser presidente. E é muito simbólico tal qual com a presidência da República. Quem de nós já não sonhou em ser presidente da República?

 

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