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Confira entrevista com ”Elas cantam Belchior”, atração confirmada da Bienal

25/01/2017 às 11:30, por Renata Bars Foto: Yuri Salvador.


Quarteto formado por cantores cearenses falou sobre o surgimento do projeto, expectativas e os desafios de interpretar as canções de um dos maiores artistas do país

Pela primeira vez nos palcos, o quarteto cearense composto por Lorena Nunes, Lídia Maria, Rodrigo Ferreira – intérprete da Mulher Barbada, e Nayra Costa se apresenta no próximo domingo (29), inaugurando o primeiro dia de shows da 10ª edição da Bienal da UNE, em Fortaleza.

Repleto de performances, o espetáculo dialoga com o tema do festival estudantil, intitulado ”Feira da Reinvenção” , já que promete reinventar, desconstruir e reconstruir canções clássicas deste importante compositor e cantor cearense.

Ao site da UNE, os amigos falaram sobre o surgimento do projeto, inspirações, política, movimento estudantil e claro, Belchior.

Confira:

Por que Belchior?

Lorena – Foi uma sugestão que nos deram e achamos muito massa por que foi a primeira vez que nos reunimos para fazer algo do tipo e saiu uma combinação muito legal. Da galera das antigas aqui do Ceará o que eu curto mais mesmo é o Belchior, então, nada melhor do que cantar as músicas dele com essa galera massa. Sem contar que pra galera nova que está chegando é sempre bom eles conhecerem o Belchior que é um grande compositor da música brasileira e ainda tem gente que não conhece, então estou amando.

Rodrigo – Pra mim o Belchior foi muito decisivo pra eu sacar o que eu quero fazer na música mesmo porque eu era cantor de musical, então minha referência era extremamente americanizada, inclusive essa era uma crítica que eu tinha no meu trabalho e pra começar a me desvencilhar disso e encontrar a minha própria voz, Belchior e Fagner foram os primeiros assim que chegaram pra mim como cearenses, uma descoberta da música feita aqui. Tenho muita referência do Ney Matogrosso e Caetano, mas Belchior e Fagner foram essenciais pra eu começar a me projetar enquanto cantor.

Lídia – Eu já canto um pouco de Belchior no meu repertório porque a influência do pessoal do ceará na minha vida é muito grande. Inclusive o disco Alucinação do Belchior me marcou muito. Eu escutava quando era adolescente, um disco que fala de liberdade, de juventude, decepção e sonhos, então é muito forte, inclusive eu gravei um clipe da música ”A palo seco”, eu tenho uma versão dessa música, então é massa poder fazer mais e conhecer mais dele com esse projeto.

E o repertório? Vocês podem adiantar alguma coisa pra gente?

Lorena – Uma coisa bem legal que estamos fazendo com esse show é que vamos ter os clássicos, lógico, mas a gente escolheu algumas músicas bem lado b, que talvez até quem conheça Belchior, não conheça essas canções. A música ”Noves Fora”, que é uma parceria do Belchior com o Fagner tem muita gente que não conhece, então teremos muitas surpresas.

E terão repaginadas também, a gente pegou algumas músicas e desconstruiu com interpretações performáticas.

Pretendem continuar com o projeto?

Nayra – Se rolar mais convites, vamos ver como será daqui pra frente.

Vocês acreditam que rola uma identificação do público jovem atual com as composições do Belchior?

Lídia – Se não tem uma identificação, deveria ter, principalmente nesses tempos em que vivemos. É impossível como juventude se você está minimamente informado você fica sabendo do que está acontecendo politicamente no Brasil e não é nada fácil, mas também não é nada novo. Então, eu acho que o Belchior consegue ser extremamente atual porque a gente ainda tem uma situação no Brasil que se repete, talvez de outra forma, mas já tivemos um golpe, isso não é novidade. Somos uma república que vive de golpes e então o Belchior é sim atual, não sei se isso é felizmente ou infelizmente.

Parafraseando uma das canções dele, ano passado nós morremos com um golpe. E esse ano? Qual a expectativa de vocês em relação ao cenário político atual?

Rodrigo – Os tempos são cruéis, mas cabe a gente ter força para sobreviver a isso. Se a gente já sobreviveu ao que aconteceu na década de 60/70, a gente tem que ter garra. Eu percebo os artistas na cidade de Fortaleza e olha que eu frequento o todo o Brasil por causa do teatro e a arte que é feita aqui é muito de resistência, não tem comparação.

Lorena – Sem contar que o brasileiro em si mesmo é um povo que se reinventa, e eu acho que com certeza o contexto político dificulta muito as coisas, mas também num momento de crise é um momento em que a gente pode criar mesmo e se reinventar mais. É perceber que de repente um caminho que a gente estava acostumado a trilhar, a gente pode inventar outro, fazer outro, e talvez esse outro seja melhor também.

Isso inclusive dialoga com o tema da Bienal, que é Feira da Reinvenção. O que vocês acham disso, dessa força do povo brasileiro em se reconstruir?

Nayra – É maravilhoso. Temos que nos reinventar, é algo necessário para dar continuidade à vida. É aquela coisa: tem gente que se afoga, mas tem gente que aprende a nadar na hora da necessidade e eu acho que a gente vai aprender a nadar e vai chegar numa praia bem linda.

Amar e mudar as coisas é um tema frequentemente usado pela galera do movimento estudantil. Como é pra vocês cantar para esses jovens que levam uma canção do Belchior como estilo de vida?

Lídia – Eu acho massa saber que tem um cearense que representa a juventude. Saber que ele é a voz da UNE, vamos dizer assim. Ter um compositor que consegue representar essas angústias que a juventude passou e passa é muito bonito pra mim como cantora e cearense. É como se a gente estivesse cantando junto com todo mundo essas angústias. Belchior é existencialista, ele se pergunta muito, ele se questiona e ele sofre. A gente sabe que estamos desse jeito por dentro, então colocar isso pra fora através de canções tão legais é realmente muito bacana.

Rodrigo – O que o Belchior tem muito que eu acho incrível é que ele canta uma prosa, ele vai conversando com você, e isso faz com que você chegue ao palco e tenha uma conversa muito franca com a galera que está ali te assistindo. Não é sobre criar grandes poemas e despejar eruditismo. É sobre ter uma conversa séria sobre o país, sobre nossa vida.

Belchior virou uma figura mítica, um ‘desaparecido. Por onde vocês acham que ele anda?

Rodrigo- Se o cara não quer aparecer, deixa ele se esconder mesmo! Deixa ele dar o rolê dele. Se ele disse o que tinha pra dizer e agora está de boa para dormir na casa dele, deixa ele lá, eu odiaria ser perseguido.

Lídia – Eu acho que ele não está perdendo muita coisa não. Acho que ele era tão angustiado, tão questionador, acho que é difícil viver num mundo assim desse jeito. E ser artista não é só você se expor. Belchior poderia ter feito só o disco Alucinação que teria marcado nossa vida da mesma forma. Então, deixou o recado dele, deixa ele seguir a vida.

Vocês chegaram a conhecê-lo?

Lídia – Eu fui em dois shows do Belchior. Um show bem pequeno aqui em Fortaleza com uma entrevista no final, o que foi muito legal porque pude vê-lo bem de pertinho contando as histórias. E outro foi no aniversário da cidade e é muito interessante porque ele dança durante os shows, faz uns passos de karatê, ele é bem engraçado. Uma pessoa divertida apesar daquele bigode sério.

Vocês tem ou já tiveram alguma relação com o movimento estudantil?

Lídia – Eu sou da Ciências Sociais, então sempre tive contato com o movimento estudantil, mas nunca participei ativamente. Mas eu acho que mesmo quem não era de movimento estudantil, com essa onda que está acontecendo se contagia e acaba indo pra rua.

Lorena – Eu acredito que desde sempre os movimentos estudantis encabeçam as lutas. E é muito legal porque é aquele momento que você desce do trono acadêmico, apesar de estar na academia, e tem um diálogo franco com toda a sociedade. Eu acredito que é essa a essência do movimento estudantil.

Vocês tem alguma dica legal de Fortaleza pra galera que está chegando pra Bienal?

Lorena – Boa parte do movimento cultural da cidade é concentrado nessa faixa do Dragão do Mar e Praia de Iracema, então, quem ficar por aqui já vai absorver bastante coisa.

Rodrigo – Quem puder ir pelo Benfica tem o Bar da Lôra, que é o encontro dos estudantes, perto da Universidade Federal do Ceará (UFC), é muito massa.

Nayra – Praia do Futuro também é legal. E tem a barraca LGBT nessa praia, a Kabomba, que é uma super dica.

QUEM SÃO O ”ELAS CANTAM BELCHIOR”

Nayra Costa, 32 anos, trabalha com música desde os 14, nascida e criada em Fortaleza está prestes prestes a lançar seu primeiro álbum.

Lídia Maria, canta desde os 10 anos de idade, toca violão e bandolim, e em 2013 lançou disco com suas composições. Atualmente faz o show intitulado ”Por inteiro”.

Rodrigo Ferreira, ator desde os 16 anos se enveredou na música há cerca de três anos. Trabalha também com teatro musical e faz parte do coletivo As Travestidas.

Lorena Nunes trabalha com música desde 2010. Formada em Publicidade diz que ”curou o recalque” ao trabalhar com música. Atualmente trabalha em seu primeiro disco ”Ouvi dizer que lá faz sol”.

SERVIÇO

O que? Tributo ”Elas cantam Belchior” na 10ª Bienal da UNE
Quando? Dia 29 de janeiro a partir das 22h
Onde? Praça Almirante Saldanha – Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza – Ceará

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