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“Com organização, podemos enfrentar a arrancada conservadora”

24/11/2016 às 16:09, por Natália Pesciotta.

Para Áurea Carolina, vereadora eleita com mais votos em Belo Horizonte, hoje há graves ameaças às lutas sociais e a uma educação pública emancipatória, mas a sua eleição já é uma prova de que é possível se mobilizar e resistir

Enquanto apenas 3,9% dos eleitos para as câmaras das capitais brasileiras são mulheres negras, a cientista social Áurea Carolina (Psol) conseguiu a façanha de ser a mais votada em Belo Horizonte neste ano. Em entrevista especial para o mês da Consciência Negra, ela explica ao site da UNE: “O contexto é desfavorável para a luta social. No entanto, as lutas permanecem vivas. As ocupações estudantis, as ações das mulheres contra a cultura do estupro, há diversos exemplos. A minha eleição é uma demonstração de como esse campo da resistência tem se projetado”.

Áurea foi criada e vive em João Pinheiro, um bairro de classe média baixa em Belo Horizonte. Como rapper, boa parte da sua formação política está ligada ao movimento hip hop. Ela se formou cientista social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), se especializou em Gênero e Igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona e foi subsecretária estadual de políticas para mulheres.

No Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, ela completou 33 anos. O presente de aniversário foi uma foto que recebeu com um trabalho sobre a data numa escola em Contagem (MG). Em um mural, seu rosto aparecia entre outros recortes de personalidades negras de destaque, como Mandela, Bob Marley e Obama. “Representatividade importa e transforma!”, comemorou.

Mas alerta: “Tem graves ameaças colocadas a uma educação pública de qualidade que tenha um caráter emancipatório nesse momento”. Leia a entrevista completa:

Como você se sente ao fazer parte de uma bancada formada quase totalmente por homens e brancos? O que isso significa para você?

A minha eleição é um marco importante em Belo Horizonte. Uma demonstração de força de um campo muito diverso de lutas que se encontram na cidade, pelos direitos das mulheres, da população negra, das juventudes, da população LGBT, da cultura, de quem reivindica o direito à cidade. E, pra mim, é um reconhecimento importante de uma trajetória e de uma construção coletiva. Essa é minha caminhada.

Sei que na Câmara, diante de uma configuração em que predomina a presença de homens brancos conservadores, que não têm relação com as lutas sociais, vai ser muito difícil nossa atuação. Por outro lado, nós estamos com essa cidade viva, pulsante. A perspectiva é de que nossos mandatos, meu e da Cida Falabela (também eleita pelo Psol em Belo Horizonte), sejam também recursos a serviço das lutas para promover esse campo para além da institucionalidade da Câmara Municipal. Que sejam espaços de reflexão, de mobilização social, e que contribuam para que essa resistência popular seja ampliada.

Como foi escolher o caminho da política, tendo em vista que pouquíssimas mulheres negras participam das bancadas? Isso nunca te repeliu a tentar uma vaga?

Minha candidatura vem da necessidade de que mulheres como eu ocupem os espaços de poder. É imprescindível que tenhamos representatividade nas instâncias decisórias. E, para conquistar essa posição, é preciso ter muita organização e enfrentar uma conjuntura muito desfavorável de arrancada conservadora e de predominância de setores da direita contrários às lutas sociais.

É enfrentar muitas barreiras o tempo todo. Mas eu me fortaleci e tenho me fortalecido com o encorajamento de outras parceiras que também acreditam que esta é uma escolha necessária, para que todas estas lutas tenham um espaço de voz e de influência direta sobre o poder público. É um compromisso de vida.

Qual você acha que é o caminho para que hajam mais negros e negras nos espaços de poder?

Acredito que é fundamental investir na formação de lideranças negras, com atuação em áreas muito diversificadas, para que tenham suas trajetórias fortalecidas e amparadas, para que consigam se posicionar em condição de ocupar estes espaços com mais amparo coletivo. E também ações afirmativas para garantir o acesso dessas pessoas nas diversas instituições.

Sobre o Dia da Consciência Negra, que importância ele tem pra você? Vê como um dia de lutas? De comemorar conquistas?

É um momento importante de celebração da resistência do povo negro no nosso País. De afirmar a sua contribuição fundamental para a nossa formação e de denunciar as persistentes violações dos nossos direitos. O quadro de desigualdade que continua brutal no nosso País.

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Muitos falam em retrocessos e uma guinada à direita em 2016. Ainda assim, você foi eleita com bandeiras progressistas. Como explicar? Quais os desafios?

De fato, há um crescimento do conservadorismo no nosso País, que é alimentado pela mídia monopolista, que expõe cotidianamente discursos contrários à inclusão de diversos grupos sociais, que legitimam a violência e uma dominação de grupos que mantêm o poder econômico e político. Na narrativa do golpe também há uma adesão desses setores da mídia e isso tem impacto sobre o imaginário coletivo. Essa exposição permanente de ideias antidemocráticas, ultraliberais e de negação de conquistas históricas, como as políticas de promoção da igualdade racial, as ações afirmativas, as políticas para mulheres…

Tudo isso conduz a este contexto desfavorável para a luta social. No entanto, as lutas permanecem vivas e têm se colocado na cena pública, resistindo a todos estes ataques. As ocupações estudantis, as ações das mulheres contra a cultura do estupro e a violência machista.

Há diversos exemplos de como as lutas têm criado formas de contrapor essa narrativa conservadora predominantes. A minha eleição é uma demonstração de como esse campo da resistência tem se projetado. Mas a gente vive nesse paradoxo muito difícil das contradições entre o avanço do conservadorismo, por um lado, e a nossa reação muito forte, a nossa resistência contra todas essas ameaças.

No seu ponto de vista, as buscas por igualdade racial e de gênero estão caminhando ou estagnadas no Brasil?

As lutas das mulheres e da população seguem firmes. Nós nunca paramos de lutar. Mas nós temos enfrentado agora um momento muito difícil de desmonte das políticas pela igualdade racial e das políticas para mulheres, das políticas de juventude, de cultura… De todas as áreas que representaram conquistas, ainda que insipientes, para nossa população.

O golpe tratou de derrubar a institucionalidade dessas temáticas. É preciso agora que a gente reorganize a luta das políticas públicas. É um momento de alerta e exigência de muita capacidade de organização dos nossos movimentos.

O que você acha que pode ser feito pela educação em nível municipal? Seja pela educação como um todo ou pelas demandas de promoção de igualdade racial.

É urgente que tenhamos uma reflexão crítica sobre formação cidadã das pessoas sobre temas que afetam nosso cotidiano. E aí entram as questões de gênero, de sexualidade, de relações étnico-raciais, que têm sido interditadas nessa arrancada conservadora, na tentativa de se implementar uma “Escola Sem Partido”, na distorção do debate sobre gênero como se fosse “ideologia de gênero”…

Tem graves ameaças colocadas a uma educação pública de qualidade que tenha um caráter emancipatório nesse momento. A implementação da lei 10.639 ainda é muito dificultada, há resistências de todo o tipo, embora seja uma lei já com 13 anos. É um trabalho de convencimento, de atuação coordenada com os movimentos sociais que vai permitir que possamos enfrentar esse contexto.

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