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Celso Amorim cutuca Serra e avalia cena internacional

16/06/2017 às 9:03, por Felipe Cânedo.

Em debate, Celso Amorim fez análise sobre cenário internacional
Foto: Alexandre Rezende

Em debate, Celso Amorim fez análise sobre cenário internacional

Ex-ministro das Relações Exteriores do governo (2003-2011) de Luiz Inácio Lula da Silva, e da Defesa (2011-2015) de Dilma Rousseff, Celso Amorim proferiu uma palestra sobre “A nova Ordem Mundial em Tempos de Crise” no 55º Congresso da União Nacional dos Estudantes, mediada pela presidenta da entidade, Carina Vitral. “Poderia ser A Nova Crise Mundial em Tempos de Desordem também”, brincou Amorim. Em sua exposição, ele tratou de temas diversos e fez uma avaliação do conturbado cenário global atual.

Em dado momento, o ex-ministro comentava que o termo Brics (Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul) foi criado por um economista inglês. “Não sei se todo mundo sabe”, adiantou-se. Ao que Carina perguntou: “O José Serra sabe?” Amorim emendou: “O Serra não sabe até hoje.” A seguir algumas perguntas sobre a conjuntura mundial e nacional, e sobre o passado de Celso ligado ao Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE.

Pensando sobre acontecimentos recentes como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, de Emmanuel  Mácron na França, a questão do Brexit na Inglaterra, para onde aponta a nova ordem mundial?

É muito difícil reduzir isso tudo a um denominador comum. Até porque, embora todos eles revelem um certo cansaço com a política tradicional, e de certa maneira um mal estar com a globalização, as respostas são diferentes. Certamente a resposta do Brexit e do Trump, embora não sejam idênticas, vão numa certa direção, do isolacionismo. Digamos assim: do America First (América Primeiro), no caso da Inglaterra eles não podem dizer Britain First (Gran-Bretanha Primeiro) porque não têm essa força toda, mas Britain Alone (Gran-Bretanha Sozinha), não é? O Mácron não. Ele tem uma visão europeísta, mas também ligada indiscutivelmente ao grande capital. É uma visão globalizante mas o que ele tem em comum? É que a expressão partidária dele não existia, e agora se tornou, por causa dele – da eleição dele –, o maior partido francês. Isso é uma situação muito especial, uma pessoa inclusive que não tem um passado político. O exemplo que me vem à cabeça um pouco é o do (Charles) de Gaulle, que mais ou menos conseguiu algo parecido. Mas o de Gaulle já era um herói. O Mácron não. Era uma pessoa semi-desconhecida. Então as pessoas estão preferindo apostar no desconhecido do que no habitual. Acho que para a esquerda isso impõe lições sérias, sobretudo sobre a socialdemocracia, eu mesmo tenho participado de alguns debates deles. O que subiu na esquerda, não suficiente para enfrentar o Macron – até porque o sistema francês acaba ampliando muito as maiorias –, mas foi o Jean-Luc Mélenchon, o candidato mais à esquerda. Você não pode tentar fazer uma esquerda só entre as pessoas que têm boas ideias, aqueles que defendem a ecologia, do gênero, por exemplo, isso é importante. Mas, você também esteja atento para as pessoas que estão sendo deixadas de lado pela globalização. Acho que essa é a principal lição.

O que mudou na política externa brasileira com o impeachment?

O Brasil buscou nos últimos anos fortalecer suas relações com os Brics, com a América do Sul, com os países africanos e etc. Obviamente essa não era a orientação do governo, governo… Enfim, chamado governo. Talvez tenha sido um lado positivo que eles não conseguiram se organizar direito para fazer as coisas, a meu ver, contrárias ao interessa nacional. Depois a realidade internacional também mudou. Por exemplo: uma parte da elite brasileira, sobretudo o capital financeiro, alguns setores agrários e certamente a mídia, estavam doidos para que o Brasil fizesse um acordo com o Trump do tipo TPP (Acordo de Associação Transpacífico, entre países da Ásia e da América Latina), mas o Trump já disse que não quer esse tipo de acordo. Então ele nos facilitou a vida, sob esse aspecto. Por outro lado, o fato de existir um presidente como o Trump, com soft power (poder suave) zero, seria benéfico para um país como o Brasil, para você atuar na América Latina, levar adiante projetos de integração Sul Americana, Latino Americana. Infelizmente, hoje em dia, a gente não tem condição de fazer nada nesse sentido. A gente vê os problemas se tornarem mais sérios, como o da Venezuela – é um problema sério, não podemos negar –, e o Brasil está totalmente parado, autoexcluído de qualquer papel, totalmente diferente do que foi no governo Lula, e até do governo Fernando Henrique Cardoso, para falar a verdade. No governo Lula foi muito mais atuante, mas como hoje nunca teve.

O senhor foi do CPC da UNE. Como foi essa experiência para o senhor?

C.A. Como é que vocês descobriram isso? Na realidade eu tinha uma ligação na época, eu tinha pertencido ao que eles chamavam de Centro de Estudos Cinematográficos, da União Metropolitana dos Estudantes. Naquela época o Rio de Janeiro era a capital. Eu tinha uma ligação, mas não era – devo confessar – um militante. A minha ligação ora era com o cinema, eu fui assistente de Os Cafajestes (1962), do Ruy Guerra, fui contratado como continuista. E logo em seguida o Leon Hirszman, que já tinha me indicado para trabalhar com o Ruy, me convidou para trabalhar no Pedreira de São Diogo, aí tive um contato mais íntimo com o CPC. Eu era um dos poucos profissionais contratados, tinha uma remuneração pequenininha, mas tinha. Eu e o fotógrafo, o resto todo eram jovens lá trabalhando, mas eu também tinha grande identidade com essas pessoas. Foi um movimento muito importante.

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