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Carina Vitral: A UNE é a maior voz política da juventude

16/05/2017 às 12:50, por Laís Gouveia do Portal Vermelho .


“Saio cheia de experiências, com garra para seguir lutando e esperança na mobilização estudantil.” É com esse sentimento que a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, encerrará sua gestão em junho. Com a voz doce e rouca já conhecida por muitos, a jovem santista de 28 anos relembrou os dois anos mais recentes de sua vida, período que envolveu um golpe de Estado, tentativas de criminalização da entidade e uma disputa à Prefeitura de Santos

Carina assumiu a presidência da UNE em junho de 2015, depois de cumprir uma trajetória no movimento estudantil iniciada em Santos (SP), com passagem por Florianópolis (SC) e pela presidência da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP).

A pleno vapor na construção do Congresso da UNE (Conune), que ocorrerá entre os dias 14 a 18 de junho na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte (MG), Carina concedeu entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, na qual relata a experiência à frente da UNE, fala da importância da entidade para Brasil, em especial para a juventude, e sobre a comemoração dos 80 anos de história da organização estudantil.

Confira os principais trechos da entrevista:

A UNE chega ao fim de mais uma gestão. Quais foram os principais desafios ao longo desses dois anos?

Começamos num período de muita efervescência. A primeira batalha foi contra o projeto de lei sobre a Maioridade Penal. No segundo dia de gestão ocupamos a Comissão Especial e impedimos a votação do projeto na Câmara Federal. Foi a primeira derrota do Eduardo Cunha [presidente da Casa à época]. Continuamos mobilizando e o projeto saiu da pauta no Senado.

Seguimos atentos à conjuntura política. A UNE foi a primeira entidade a denunciar a possibilidade de um golpe. Nesse período, não era permitido falar sobre essa hipótese, pois muitos argumentavam que o tema daria um cheque em branco à presidenta Dilma, que, naquele momento, promovia iniciativas contraditórias, como o ajuste fiscal, mas a UNE já dizia claramente que um processo de impeachment estava sendo construído.

Lutamos durante um ano pela sustentação do mandato da presidenta e contra a política econômica executada em seu governo. Foram centenas de manifestações, propiciando uma reaglutinação de forças da esquerda brasileira que pudesse reunir uma força pujante contra os desmandos do governo Temer.

Outra grande bandeira da gestão foi a luta contra a criminalização dos movimentos sociais, fruto do nosso embate com Eduardo Cunha, que encaminhou junto ao Congresso uma série de assinaturas para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito da UNE. Nós sabíamos que o propósito dessa ação não era a investigação da entidade, mas sim fazer uma retaliação pelo nosso papel em defesa da democracia. Travamos uma batalha de seis meses contra a instalação dessa CPI, que foi encerrada com a saída de Cunha da Presidência da Câmara. Sem força e apoio, a proposta perdeu a validade para instauração.

No período eleitoral, me licenciei da presidência da UNE para concorrer às eleições municipais à Prefeitura de Santos, uma experiência que unificou o campo da esquerda da cidade [Carina ficou em segundo lugar na disputa, com 6,61% dos votos].

Durante a licença, a UNE teve a sua primeira presidenta negra, assumindo a entidade a estudante Moara Saboia. Nesse período, começam as grandes manifestações pelo Fora Temer em todo o Brasil. A resistência começou através dos estudantes contrários à Reforma do Ensino Médio e a PEC 55 do Teto de Gastos. Ocorreram 220 ocupações universitárias, culminando com uma grande marcha no dia 29 de novembro em Brasília, em defesa da educação pública.

Como foi a experiência da Bienal da UNE no Ceará?

Realizamos a Bienal da UNE, no Ceará, que homenageou o cantor Belchior e contou a história de resistência dos nordestinos, através da reinvenção que a cultura e a política viveram nesse último período. Além disso, ocorreu uma mesa de debate político com lideranças políticas como Ciro Gomes (PDT) Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Luciana Genro (PSOL-RS).

O que está sendo programado para celebrar os 80 anos da UNE?

Será lançado um filme durante o Congresso da UNE, que tem participação de Nelson Xavier e Ferreira Gullar, recém-falecidos, além dos ex-presidentes José Serra, Aldo Rebelo e Aldo Arantes. A película relata os tempos em que a UNE tinha sua sede na Praia do Flamengo [Zona sul do Rio de Janeiro], o incêndio provocado pelo regime militar no local, a ruptura democrática e o momento de retomada da sede, que hoje se encontra em plena reconstrução.

 

Além disso, será lançado um catálogo fotográfico com a história da UNE e ocorrerá um ato político em homenagem ao ex-presidente da entidade, Honestino Guimarães.

A UNE completa 80 anos no próximo mês de agosto e em suas fileiras há estudantes das mais diversas correntes de opinião política. A amplitude é indispensável à entidade?

A UNE, mais do que uma entidade representativa dos estudantes, é a maior voz política da juventude. A despeito das vontades de alguns, ela precisa ser uma organização cada vez mais ampla, dialogar com toda a sociedade do ponto de vista da representação, inclusive com os estudantes de direita, com todas as forças políticas. É claro que a UNE tem lado, mas esse lado não é próprio da entidade, ela em sí não é de esquerda, mas passa a ser de esquerda à medida que o movimento estudantil e os estudantes em luta escolhem por defender a educação pública, elegendo uma marca à esquerda da entidade.

Essa questão é delicada, precisamos tomar cuidado. Nossa história é o nosso maior patrimônio, estamos falando da entidade mais antiga do movimento social em funcionamento. Tem gente que pensa devemos apagar o nosso passado, pois algumas pessoas “traíram a juventude”, mas é importante contar a história da forma que ela foi construída. Eu não tenho dúvidas que José Serra e a UNE estão em lados opostos na política, com exceção em seu parecer contrário à redução da Maioridade Penal, mas isso não nos leva a apagá-lo da memória. Ele foi um dos presidentes mais importantes da entidade, pois a presidiu na época do golpe militar de 1964 e ajudou a reconstrui-la, em 1979.

Qual o recado que você deixa para os estudantes que irão participar do Congresso da UNE e para os próximos diretores eleitos na gestão?

Estudantes, conheçam a UNE, é um espaço de vivência e experiência inigualável, que ocorre na juventude, a melhor fase de nossas vidas. Ter companheiros ao nosso lado, que lutam por um Brasil melhor, é muito significativo.

Aos diretores que serão eleitos no próximo congresso, digo que continuem firmes, é na crise, nos momentos difíceis, que a UNE se agiganta, debatendo as grandes questões nacionais. Que a luta em defesa da educação, a derrota dos golpistas, o resgate de um país que retome o seu desenvolvimento e empoderamento da juventude sejam os principais desafios da UNE no próximo período.

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