Pular para o conteúdo Pular para o Mapa do Site

Notícias

Últimas Notícias

Bordadeiras mineiras costuram novo horizonte com estudantes

12/06/2017 às 21:17, por Natália Pesciotta /Fotos: Yuri Salvador.

Coletivo Linhas do Horizonte faz bordado político em frente ao antigo Dops, na capital mineira
Yuri Salvador

Coletivo Linhas do Horizonte oferecerá oficina no Congresso da UNE e bordará nomes de jovens mortos pela ditadura. Estandartes desfilarão em ato político em Belo Horizonte

A reportagem da revista Veja que enaltecia a primeira-dama Marcela Temer por ser “bela, recatada e do lar” revoltou muita gente em 2016. Um grupo de mulheres de Minas Gerais aproveitou o incômodo para transformar a imagem de uma atividade sempre relacionada ao universo feminino em expressão de luta política: o bordado. “Aquele padrão descrito pela Veja não é o que queremos, não”, explica Lucia Pinheiro, uma das integrantes do Coletivo Linhas do Horizonte. “Bordamos por política e justiça”, dizem.

Todas viveram o Golpe Militar de 1964, lutaram para não serem silenciadas pela repressão e pela sociedade, e continuam lutando. O grupo se conheceu frequentando protestos contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Elas começaram fazendo um enorme bordado em homenagem à Marisa Letícia e não pararam mais. Criam, voluntariamente estandartes pelas causas em que acreditam, em locais importantes da cidade.

Nesta segunda (12/6), levaram seus banquinhos, linhas e agulhas para preencher os nomes de estudantes mortos pela ditadura militar na frente do antigo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão e de tortura em Belo Horizonte durante o regime, atualmente uma delegacia de polícia. Enquanto trabalham, elas aproveitam para conversar sobre democracia, os golpes e o futuro do país, que bordam com cuidado e linhas coloridas. Adoram integrar na conversa os desconhecidos que passam curiosos – ensinam pontos de bordado e da história brasileira. Já estão virando figuras conhecidas na cidade.

Na manhã de sexta-feira (16/6), o coletivo estará no Congresso da UNE, na UFMG, e conta com os estudantes presentes para terminar o trabalho. As faixas feitas com mãos de diferentes gerações homenagearão os estudantes mortos na ditadura durante ato público do Congresso, com concentração às 16h na Praça Afonso Arinos.

Mulheres de luta

Nem sempre as bordadeiras puderam se expressar como fazem hoje, por meio das linhas e da voz. Quarenta anos atrás, Leda Leonel, uma das integrantes do grupo, participava do 3° Encontro Nacional dos Estudantes (ENE) em Belo Horizonte, que terminou sem ter nem começado – reuniões políticas eram proibidas em 1977 – com forte repressão e todos os jovens presos pela polícia militar (leia mais!)

No mesmo ano, Seuza Matos, outra das atuais bordadeiras, chegava à Belo Horizonte casada e grávida: “Era uma alienada! Eu tinha opinião, mas precisava me dedicar à vida de casada. Quando virei professora, comecei a participar de sindicato, greve, passeata. Meu marido ficava indignado, morria de vergonha”. Hoje ela é separada e feliz por poder participar de todos os movimentos que queira. Aos 79 anos, é a mais velha do grupo e também a que mora mais longe do centro – demora uma hora e meia para chegar às atividades na região central.

Passando a linha

O grupo conta também com a participação de Gilda Consenza, viúva do cartunista Henfil, e de Maristela Scofield, companheira de cela de Dilma Rousseff na “torre das donzelas” no presídio Tiradentes, em São Paulo. Marcia Brandão, outra integrante, pode hoje enfim prestar sua homenagem aos torturados. Ela lembra quando, há 40 anos, estagiava como jornalista no jornal O Globo e precisava cobrir o julgamento de presos políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional: “Eu segurava o choro e ia desabafar no banheiro do tribunal”. Para ela, participar deste projeto com os estudantes é a contribuição para que a história não seja esquecida.

O engajamento da juventude pela democracia anima Lucia, que diz nunca ter pensado que voltaria às ruas para lutar contra um golpe, mas que percebeu que cada vez mais os atos de 2016 estavam atraindo gente mais nova. Todas elas são enfáticas na vontade de passar a linha adiante. Só com o engajamento dos estudantes de hoje, elas imaginam um horizonte mais claro para o país.

Serviço

  • O que:Oficina de bordado político com o Coletivo Linhas do Horizonte
    Quando:Sexta-feira, 16/6, das 9h às 12h
    Onde:na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG
Pular para o Conteúdo Pular para o Topo