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Assembleia reúne 100 estudantes de 50 escolas ocupadas

25/11/2015 às 0:02, por Cristiane Tada e Sara Puerta com edição de Rafael Minoro.

Estudantes trouxeram a experiência das ocupações e compartilharam dúvidas e arbitrariedades das direções

Representantes de 50 escolas paulistas ocupadas e de algumas escolas ainda não ocupadas se reuniram na noite desta terça-feira (24) na sede das entidades estudantis na Vila Mariana, na capital, para trocar experiências e planejar estratégias e passos para a movimentação dos secundaristas contra a reorganização proposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSBD).

Os estudantes aderiram a um manifesto que exige a revogação imediata da reorganização, que não admite nenhuma escola fechada ou dividida, demissão de funcionários ou professores bem como nenhuma perseguição à comunidade escolar.

O texto será debatido esta semana nas diversas assembleias que acontecerão nas escolas ocupadas. Depois disso, os estudantes voltarão a se reunir no domingo (29), às 14h, na Praça Roosevelt, em uma grande assembleia livre para a propor a assinatura de documento comum que servirá como pauta para pressionar o governo do Estado.

O encontro na sede das entidades estudantis reuniu mais de 100 estudantes de diferentes regiões do Estado.

A primavera estudantil é diversa e horizontal. Grande parte dos estudantes estão aprendendo a se auto-organizarem e a deliberar coletivamente. A  presidenta da União Paulista de Estudantes Secundaristas (UPES), Ângela Meyer, partiu do básico, explicando o funcionamento de uma assembleia, como é feita uma ata do encontro e como uma comissão de sistematização precisa concatenar as ideias e questões levantadas para aprovar um resultado justo emitido em um manifesto final.

E encorajou a luta: “temos chances reais de derrotar um projeto de educação que não nos representa. O número de escolas continua crescendo e nós não vão retroceder”.

Intercâmbio de experiências

Os secundaristas  de diferentes escolas compartilharam informações e atualizações sobre como está o movimento que a (UPES) tem acompanhado de perto nas instituição de ensino.

Alunos de escolas ocupadas há mais de uma semana puderam contribuir com estudantes que vão passar hoje pela primeira noite de ocupação.

Como Stephanie Mirely, do 3º ano da E.E Professor Alberto Conte, da Zona Sul da capital. “Eu vim buscar ajuda aqui, lá está um pouco complicado ainda, porque é nosso primeiro dia de ocupação. Eu vim buscar informação, porque estou meio desesperada, não sei nem onde vamos dormir hoje, acho que essa noite vamos dormir num papelão”, contou.

Já a estudante Thais Caroline Rocha, do 2º ano da Escola Dr. Heitor Penteado, de Americana, a 130 km de São Paulo, disse que a realidade de uma ocupação ainda está longe da sua instituição de ensino, que será reorganizada com o fim do ensino fundamental e com o aumento das salas do ensino médio. Mesmo assim, ela veio em busca de força para iniciar uma resistência.

Thais afirma que os estudantes da sua escola temem pelo emprego dos professores que não são efetivos, já que a instituição sofre com falta de docentes. “Também nos preocupamos com a superlotação, porque a nossa escola é muito central, e devem ser transferidos para lá muitos alunos”, ressaltou.

Estudantes X direção de escolas

Na E.E Plínio Negrão, em Santo Amaro, que foi ocupada nessa segunda-feira (23/11), a polícia foi chamada quando os estudantes começaram a definir a ocupação. Para Rinaldo Silva, aluno do 2º ano, não há possibilidades do movimento recuar agora. “A minha escola não vai ser fechada, mas a tal da reorganização afeta todos. As ocupações são manifestações em defesa da educação de qualidade, contra a política do estado de São Paulo”.

Também da Zona Sul da capital, da E. E Miguel Maluhy, no Campo Limpo, já ocupada desde o dia 13/11, as estudantes Barbara Nicole, Jéssica Figueiredo e Ana Beatriz Cartola relataram que a diretoria ameaça de expulsão os alunos que estão se manifestando, porém a ocupação que conta com mais de 60 alunos segue resistindo.

“A direção fica sabendo quem são os alunos mobilizados por meio dos professores que são contra a manifestação e diz preparar uma punição. A nossa mobilização não tem data para acabar e estamos seguindo com doações da comunidade que nos apoia”, conta.

Já Ana Letícia Esteves Rodrigues é aluna do 3º ano da E.E Major José Mariotto, em São José dos Campos, a 90 km de São Paulo, que venceu uma ação na justiça e impediu o seu fechamento dentro do projeto de reestruturação. Foi decidido mantê-la em funcionamento já que é uma das dez melhores escolas do Estado.

Ana então apoiou os protestos em outra instituição, a E.E Major Miguel Naked. Ela conta que na mobilização para a ação na Naked, a primeira escola da cidade a anunciar ocupação no dia 18/11, a diretora trancou a cozinha, as quadras e outras dependências da escola. Professores que apoiaram o movimento liberaram a senha do Wi–fi para facilitar a mobilização os alunos, porém logo a ação sofreu boicote. “A diretora mandou desligar o sinal da escola e ainda registra boletins de ocorrência diariamente”, disse.

A estudante denuncia que na Mariotto, nessa terça-feira (24), três alunas boicotaram o Saresp, escreveram em todo o gabarito manifestações contra o governo de São Paulo e, por isso, foram chamadas na direção e ameaçadas de expulsão.

Assessoria Jurídica

O que é reintegração de posse? Posso ser preso? Podemos filmar abordagem truculenta da polícia militar? Professores e diretores podem sofrer processos administrativos se ajudarem alguma ocupação? Posso ser penalizado se boicotar o Saresp?

Essas e muitas questões foram a preocupação de grande parte dos jovens.

“Sabemos bem, como temos sido recebidos nas escolas. A PM nos aborda com fuzil na cabeça”, ressaltou a presidenta da UBES, Camila Lanes.

Os estudantes relatam a cobertura ostensiva na polícia na porta das unidades e que na maioria das vezes são acionados pela própria diretoria que também é violenta na pressão sobre os alunos.

O advogado da UNE e da UBES, Victor Grampa, estava presente na assembleia e ajudou os estudantes a esclarecer alguns pontos. Ele foi taxativo: “Uma escola ocupada não pode ser invadida a qualquer hora pela PM. Nem o governador pode exigir isso por contra própria. Eles precisam de um mandato de reintegração de posse.”

Na cidade de São Paulo, o Tribunal de Justiça decidiu que as ocupações são legítimas e que as escolas são bens do povo e o povo está se manifestando por esse bem.

“Na capital nenhuma escola pode ser reintegrada. Isso significa que se a polícia invadir contra a ordem da Justiça ela pode punir esse comando”, afirmou.

Grampa esclareceu para diversos estudantes de outros municípios paulistas que a medida pode ajudar a impedir reintegrações no Estado todo.

A “nova escola”

Entre as ocupações surge um movimento que revela um desejo dos estudantes: um novo ensino, com diferentes atividades, que leve em consideração a vivência dos alunos e lhes dê protagonismo.

Sob a forma colaborativa de oferecer aulas, professores e voluntários comparecem nas unidades e apresentam uma programação diferente. Na E. E Miguel Maluhy acontecem palestras, apresentação de teatro e oficina de grafites e quadrinhos. A estudante Ana Beatriz Cartola é enfática: “Estamos aprendendo muito mais do que com a grade de aulas comum, além de desenvolver muitas outras habilidades”

Na E.E Maria Regina Machado, região Leste da capital, ocupada há uma semana, cerca de 50 alunos resistem mesmo com o corte de luz da diretora e comemoram. “A nossa escola nunca foi tão bem cuidada e limpa. Todos os dias acordamos cedo para a organização do local, preparar comida e participar das atividades culturais que incluem até formação de coral de música. Está bem melhor assim”, disse Rodrigo Henrique Duarte, aluno de 2º ano.

A unidade tem sido uma referência na região, dividindo as doações para as novas ocupações, que já chegam a 10 nas redondezas, e mobilizando para o boicote ao Saresp.

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