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Artistas e intelectuais ocupam prédios do MinC em todas as capitais do Brasil

25/05/2016 às 12:26, por Vinícius Mendes.

Atos começaram como resistência ao fim do Ministério da Cultura, mas se tornaram os protestos mais significativos contra o golpe de Michel Temer

Uma semana após o início de ocupações de prédios ligados ao Ministério da Cultura em capitais brasileiras por manifestantes contrários ao governo de Michel Temer, os edifícios continuam tomados em 27 cidades com a mesma proposta: só sair com a queda do golpista.

As ocupações tinham, inicialmente, a proposta de reabrir o Ministério da Cultura, que havia sido fechado por Temer no mesmo dia em que o golpe contra Dilma Rousseff foi consumado. No sábado (21), o ministro da Educação interino, Mendonça Filho, anunciou a recriação da pasta.

No entanto, com o tamanho e o simbolismo que as ocupações alcançaram, se tornaram hoje os atos mais significativos da resistência contra o golpista Michel Temer, seus ministros ilegítimos e investigados pela Polícia Federal e os conspiradores aliados ao governo, como Eduardo Cunha, Renan Calheiros, a mídia e o empresariado.

A maior parte dos prédios são da Fundação Nacional de Artes (Funarte), órgão ligado ao Ministério da Cultura responsável pelo fomento às artes visuais, à musica, ao teatro, à dança e ao circo. A instituição se dedica a incentivar a produção, capacitação e desenvolvimento de artistas pelo país. É considerado o “braço” do Minc mais próximo das pessoas envolvidas com cultura pelas cidades do Brasil.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, onde foram organizadas as iniciativas, os ocupantes dividem os dias em apresentações artísticas, rodas de debate, protestos e shows gratuitos de artistas renomados do cenário cultural brasileiro, como Arnaldo Antunes, Otto e Caetano Veloso, que tocou no Palácio Capanema, no Rio, no sabado (21).

Os atos ganharam unidade sob o nome #OcupaMinC. Era ele que estava nas faixas da maioria dos manifestantes que estavam na audiência pública da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (24), onde se discutiu as motivações para a extinção da pasta e sua abertura posterior.

ARTISTAS CONTRA O GOLPE EM São PAULO

Cerca de 30 pessoas ocupam o prédio da Funarte, no centro de São Paulo, desde a terça-feira passada (17), dias depois da posse do golpista no Palácio do Planalto. Os manifestantes se revezam diariamente no local, de forma que a organização estima haver ao menos 200 a mil pessoas envolvidas no ato como um todo.

Uma página no Facebook foi criada para divulgar os eventos da ocupação, que incluem shows, debates, saraus, protestos, aulas públicas, concertos, peças de teatro e de dança, performances e rodas de conversa.

Já passaram pelo local o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, o sociólogo Paulo Gabeira e os cantores Filipe Catto e Liniker, além dos grupos Trupe Chá de Boldo e Bixiga 70. Outros artistas e intelectuais devem passar pelo local durante o feriado.

Show do cantor Liniker na Ocupa Funarte SP:

A reportagem da União Nacional dos Estudantes esteve na sede da Funarte em São Paulo na manhã desta quarta-feira (25). O prédio, que abrange o Centro de Convivência Waly Salomão, a Galeria Flávio de Carvalho, a Galeria Mario Schenberg, a Sala Carlos Miranda, a Sala Guiomar Novaes, a Sala Renée Gumiel e o Teatro de Arena Eugênio Kusnet ficará ocupado por tempo indeterminado. Em todos esses locais são organizados, todos os dias, algum tipo de intervenção artística gratuita e aberta ao público.

Ocupação do Complexo Cultural Funarte, por artistas e estudantes em protesto contra o governo interino de Temer, e o fechamento do Ministério da Cultura - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Ocupação do Complexo Cultural Funarte, por artistas e estudantes em protesto contra o governo interino de Temer, e o fechamento do Ministério da Cultura – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

“Não temos negociação com governo golpista. Só saíremos daqui quando o Temer cair e esse governo imundo acabar. É uma mobilização artística que tem como principal ideia protestar contra o golpe que aconteceu no Brasil”, disse um dos ocupantes, que não quis se identificar.

RIO OCUPADO

O Edifício Gustavo Capanema, no Rio, convive desde a segunda-feira passada (16) com centenas de ocupantes que se revezam no local entre as várias intervenções artísticas diárias organizadas ao público. São rodas de conversa, de poesia, de dança e de música, debates, saraus, encontros, apresentações teatrais, performances e encenações.

Simbolicamente, por ter sido o primeiro local ocupado, ter o maior número de pessoas e ter recebido os shows mais significativos, é o centro da resistência artística contra o golpe de Estado no Brasil. Na semana passada estiveram lá os atores Bemvindo Sequeira, Leticia Sabatella e Camila Pitanga, os músicos Marcelo Yuka e Jards Macalé e os deputados federais Chico Alencar (PSOL), Jean Wyllys (PSOL) e Jandira Feghali (PCdoB) e o estadual Marcelo Freixo (PSOL), entre vários outros. Sindicatos e movimentos sociais também demonstraram apoio ao movimento.

Letícia Sabatella fala ao público na Funarte Rio:

Os ocupantes, que estão entre o mezanino e o segundo andar do prédio, já viram apresentações de Arnaldo Antunes, Leoni, Lenine, Frejat, Seu Jorge, Marcelo Jeneci, Erasmo Carlos e Caetano Veloso, este último que reuniu mais de mil pessoas no salão principal do prédio.

O cantor baiano, que evitou discursos, defendeu a recriação do Ministério da Cultura no palco e tocou canções que lembraram a ditadura militar, como Alegria, Alegria, Tropicália e Força Estranha, além de Odeio, completada pelo público com o nome de Temer.

Show de Caetano Veloso no Palácio Capanema, no Rio:

Nesta quarta-feira (25), os manifestantes postaram em sua página no Facebook uma carta onde reiteram as motivações da ocupação.

“Os artistas e trabalhadores da Cultura, cidadãs e cidadãos que permanecem ocupados em equipamentos do Ministério da Cultura em todo o Brasil, não reconhecem a legitimidade desse auto intitulado governo interino. Repudiamos qualquer apoio ou tentativa de diálogo de qualquer entidade, segmento ou artistas que venham a negociar com esse governo ilegítimo, utilizando-se da luta plural e democrática travada nas Ocupações”.

O prédio da Funarte do Rio de Janeiro é, além de tudo, uma construção simbólica para a cidade: o Edifício Gustavo Capanema foi projetado por uma equipe de arquitetos que tinha, por exemplo, Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Carlos Leão. Finalizado em 1947, é uma obra que marca o início da arquitetura moderna brasileira, difundida mundialmente por vários nomes da área. Foi sede do Ministério da Cultura do Brasil por vários anos e hoje sedia a Funarte e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Baianos contra Temer

Cidade fundamental para a cultura brasileira, Salvador também tem uma ocupação grande no prédio da Funarte, no Pelourinho, cartão-postal da capital baiana. A organização estima que 200 pessoas passem pelo local diariamente, sendo que 70 delas permanecem no local desde o dia 17.

Diversos artistas e intelectuais passaram pelo local, como o advogado Geraldo Cohen e a ambientalista Bete Wagner.

Artistas apresentam dança nas ruas do Pelourinho, em Salvador, contra o golpe de Temer - Foto: Ocupa MinC BA

Artistas apresentam dança nas ruas do Pelourinho, em Salvador, contra o golpe de Temer – Foto: Ocupa MinC BA

Por estar localizado em um local normalmente cultural, a ocupação soteropolitana consegue realizar atividades artísticas nas ruas em frente ao edifício, sempre acompanhados por um grande número de pessoas, entre trabalhadores, turistas e pessoas que passam pelas vielas do Pelourinho.

“O interessante dessa ocupação é que os artistas perceberam que podem protestar contra o governo ilegítimo de Temer por meio dos seus trabalhos do cotidiano, como encenar, tocar um instrumento, cantar, dançar. É um ganho cultural e político”, disse o diretor teatral Eurico de Freitas, um dos líderes do movimento, ao site da UNE.

OCUPAÇÕES EM CAPITAIS

Outras 25 capitais brasileiras possuem ocupações nos seus equipamentos ligados ao Ministério da Cultura neste momento. Em Brasília, estudantes de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) e de dança do Instituto Federal de Brasília (IFB) montaram barracas na área aberta e dentro dos prédios da Funarte. O cineasta Iberê Carvalho foi um dos que compareceram ao ato.

Iberê Carvalho na ocupação em Brasília:

Em Recife, no Pernambuco, quem marcou presença foram o diretor teatral Aderbal Freire Filho e o grupo Trio Trombeta. Do lado de fora do prédio histórico, no centro da cidade, um grupo entrega panfletos aos pedestres ao som de paródias com críticas ao impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff.

“Golpe não, nossa voz na rua vem para lutar. Eu não abro mão do que sonhamos juntos”, diz um trecho de uma das músicas. Do outro lado da rua, artistas fazem acrobacias ao ar livre.

Prédios do MinC estão ocupados também em Porto Alegre (RS); Florianópolis (SC); Curitiba (PR); Campo Grande (MS); Cuiabá (MT); Goiânia (GO); Vitória (ES); Belo Horizonte (MG); Maceió (AL); Aracaju (SE); João Pessoa (PA); Natal (RN); Fortaleza (CE); Palmas (TO): Teresina (PI); São Luiz (MA), Belém (PA); Manaus (AM); Boa Vista (RO); Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO).

A União Nacional dos Estudantes (UNE) é solidária, participa e manifesta seu apoio às ocupações, por serem um laboratório vivo da construção da resistência democrática e por entender, ao longo da sua luta histórica, a importância da cultura e da arte nos múltiplos aspectos da vida humana e social.

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