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“A escola deve ser espaço para enfrentar desigualdades”

21/11/2016 às 18:23, por Natália Pesciotta.

Vereadora eleita com mais votos em Niterói (RJ), a professora de história Talíria Petrone (Psol) conversou com o site da UNE sobre ser a única mulher negra da bancada. Para ela, é possível combater o racismo nos municípios e nas escolas, mas o avanço conservador exige mobilização

“A escola não fala do estudante negro, o trata como se fosse invisível. Os livros didáticos não falam das etnias, da identidade negra”, dispara a candidata mais votada para a Câmara de Niterói (RJ), Talíria Petrone (Psol), em entrevista ao site da UNE. Ela diz com conhecimento de causa: é professora de história licenciada da rede pública.

Segundo a vereadora eleita, o cargo que assume em 1ª de janeiro traz possibilidades de mudanças, como criar políticas de formação de professores e fiscalizar o cumprimento da lei 10.639, que determina o ensino da história africana e da cultura afrobrasileira: “A escola é um lugar de desconstrução de desigualdades históricas. É preciso discutir na escola o negro, mulher, pobres. Criar novas referências”.

Além disso, o papel de vereadora possibilita mais mobilização, diz Talíria. O que, segundo ela, será essencial para enfrentar o momento atual, de grande avanço conservador e fortes ameaças a uma educação emancipadora, como o projeto Escola Sem Partido: “Saímos da senzala e tentam nos colocar de novo lá. Mas estamos na resistência, desde que saímos dos navios negreiros. E, por mais que puxem a corda do outro lado, continuaremos resistindo”.

A entrevista faz parte de uma série feita pelo site da Une para o mês da Consciência Negra.

 

Como é fazer parte de uma bancada formada quase totalmente por homens brancos? O que significa estar lá na sua trajetória?

É uma experiência que a gente, que é mulher, negra e militante, já vive nos principais espaços de direção e nos espaços coletivos. A política é colocada como um lugar que não é nosso. A política carrega a esfera do poder e a esfera do público, que são negadas para nós historicamente. Somado a isso, tem a lógica do parlamento, embrutecida e conservadora, mais ainda no próximo ano, no caso de Niterói. Mas o fato de eu ser a vereadora mais votada possibilita a mobilização por uma pauta. Vamos fazer do mandato uma luta para além dele mesmo, como uma maneira de enfrentar o parlamento.

Como foi olhar para uma bancada onde as mulheres negras não estão presentes e ainda assim imaginar que poderia estar ali? Como construiu este caminho?

À medida em que vamos nos organizando coletivamente, entendendo nossa experiência concreta na cidade, na falta de liberdade de ir e vir, no não respeito aos nossos direitos, criamos uma consciência coletiva e nos encorajamos. Porque, apesar de olhar para o parlamento e não ter referências de gente como você ali, temos olhado nossa experiência e visto necessidade de estar lá, sim. E os processos de mobilização recentes, de manifestações na rua, foram muito protagonizados por mulheres, o que nos faz ter certeza de ser urgente e ser possível ocupar aqueles espaços.

Qual sua experiência, como professora, com o ensino de história e cultura africanas nas escolas? E como pode ser como vereadora?

Como professora, penso na minha história de formação. Na faculdade, na UERJ, não tinha ensino de África no currículo. A perspectiva da questão racial era da escravidão. Eu senti na pele um déficit na formação, como educadora, que fui minimizado por fora da educação formal. Eu entrei na faculdade em 2002, e em 2003 foi aprovada a lei que determina o ensino da história e cultura africanas nas escolas. Só quando terminei o curso o currículo foi atualizado.

Nas escolas, os livros didáticos ainda priorizam referências brancas e masculinas, a história das etnias são pouco contadas. Ainda não houve efetivação da lei nos espaços escolares. Mas, ao mesmo tempo, a existência desta lei já é fruto das lutas dos movimentos negros, assim como as cotas.

Hoje vivemos um momento complicado. O projeto Escola Sem Partido ameaça com a impossibilidade de atrelar a vida escolar à vida real. Não tem escola neutra, o que pode ter é proibirem o debate de quais são as prioridades. O que acabaria com uma negação das culturas negras que já são silenciadas. Como educadora, vejo a escola como espaço para enfrentar desigualdades históricas.

Aqui em Niterói, foi aprovada uma emenda ao PME e retiraram um artigo para que não se trabalhasse questões de gênero nas escolas! Não podemos falar sobre violência contra mulher, sobre LGBT. É um sinal de censura que nos alerta para o risco real de nos impedirem de discutir o impacto da escravidão, a história, a cultura e a identidade africana.Teremos dificuldades de dar centralidade à luta antirracista. E a escola, na minha opinião, deve ser um instrumento da luta antirracista.

É uma prioridade no seu mandato promover a igualdade racial por meio da escola? O que é possível fazer em nível municipal?

A questão racial é central na minha candidatura. Um dos eixos é garantir que escolas implementem a lei que não é cumprida hoje [sobre ensino da história africana e identidade afrobrasileira]. É muito importante haver política de formação dos educadores. E, além disso, pensar a cidade como um todo com recorte antirracista. Por exemplo: a formação da guarda municipal ter um enfoque não racista, para que os profissionais saibam tratar de toda a população da mesma forma. Pensar na formação dos profissionais da saúde, no atendimento às mulheres negras, no oferecimento de saúde integral para este perfil. Promover campanhas de combate ao racismo. Tudo isso é política legislativa. Também temos a ideia de ter rodas territoriais e temáticas, para ouvir os diferentes setores da sociedade, como negros e negras, para pensar as formulações de políticas necessárias.

O que poderia ser feito para aumentar a quantidade de mulheres, negros e negras na política?

A saída para qualquer processo histórico de exclusão passa pela organização coletiva. Eu me identifiquei na relação politica com outros companheiros negros. Ainda mais numa conjuntura de retrocesso, é preciso se organizar para se empoderar. Reagir por uma política federal que garanta diversidade de gênero e raça nos espaços de poder. Uma série de fomentos são necessários. E educação. A escola é um lugar de desconstrução de desigualdades históricas. É preciso discutir, nas escolas, negro, mulher, pobres. Criar novas referências e possibilidades. A escola não fala do aluno negro, o trata como se fosse invisível. É preciso mostrar para os estudantes que os negros são uma população excluída, mas também resistente. É preciso valorizar as mulheres negras na escola.

Como você vê a luta por igualdade racial hoje? com retrocessos ou avanços?

Não há dúvidas que vivemos um momento de avanço do conservadorismo, com crise política, crise econômica. E toda crise resgata a desigualdade histórica tanto de gênero quanto social e racial. Em contraposição, tem uma mobilização de resistência com uma outra cara, mais preta, mais horizontal, com mais mulher. Às vezes penso que o conservadorismo avança como resposta a vitórias que conquistamos com ocupação dos espaços públicos. Saímos do armário! Saímos da senzala. E tentam nos colocar de novo lá. Mas permanecemos na resistência, desde que saímos dos navios negreiros. E, por mais que puxem a corda do outro lado, continuaremos resistindo.

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