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A batucada é a reinvenção da resistência

16/06/2017 às 8:44, por Natália Pesciotta.

Auditório ficou lotado para debater a reinvenção da resistência
Foto: CUCA DA UNE

Mesas sobre cultura no 55° Congresso da UNE apontam para a inovação popular e artística como saída em momento de crise

O diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer Alexandre Santini estava quase concluindo a primeira fala da sua mesa no 55° Conune na UFMG nesta quinta-feira (15) quando foi interrompido por um altíssimo som de baterias ritmadas. O barulho aumentou de volume até irromper no ambiente com dezenas de estudantes dançando, gritando palavras de ordem, tocando bumbo, pratos e metais.
Ao retomar o microfone, com os jovens já assentados, Santini completou com um sorriso: “Isso resume o que eu estava dizendo. E pode até explicar muito melhor”. O tema era “Cultura Reinventando a Resistência”.

Em seguida, os demais participantes celebraram o potencial do movimento estudantil brasileiro para reinventar formatos, mesmo em momentos duros. Como exemplo, foram citadas as ocupações do Minc e da Funarte no Rio de Janeiro, ano passado. Por sinal, muitos deles lembraram que, não por acaso, a primeira ação do governo após o golpe parlamentar de 2016 foi a extinção do Minc, assim como a primeira ação após o Golpe Militar de 1964 foi o fechamento da UNE e do seu Centro Popular de Cultura (CPC).  Alguns citaram a associação entre cultura e movimentos sociais.

Segundo Douglas Estevam, do coletivo de cultura do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MST), as políticas públicas dos últimos 12 anos costuraram novo cenário em que cultura não é mais apenas um acessório, mas uma forma de luta política:

“A batucada, as redes de comunicação, a organização de produtores, a valorização de saberes, tudo isso é uma forma de militância e luta. Isso se une organicamente com movimentos sociais. As políticas do ponto de cultura foram isso.”

Pablo Capilé, do Fora do Eixo, explicou que o Ministério da Cultura, quando teve o tropicalista Gilberto Gil à frente, não tratou só das “gavetas” de teatro, música, mas criou redes, abriu diálogos e integrou movimentos sociais na pasta, englobando políticas de gênero, do movimento negro e indígena. “Acreditamos que era possível sair da invisibilidade e criar narrativas de potência em todos os cantos”, diz Capilé.

Estudantes participaram ativamente do debate cultural

Cultura em tempos sombrios

O cineasta Manoel Rangel, que ocupou por 11 anos a presidência da Ancine, vê um momento sombrio no Brasil e no mundo, mas ao mesmo tempo um “território para a luta, para criação e para a invenção”. Para ele, “o maior desafio de quem lida com arte e cultura é procurar sinais para construir uma nova trajetória, prospectar o futuro”. Foi enfático ainda ao ressaltar o papel da cultura ao longo da história para “ensinar o Brasil aos brasileiros”. Lembrando que as elites sempre negaram a identidade nacional, completou citando a Tropicália, Machado de Assis, Lima Barreto e Nelson Pereira dos Santos:  “O melhor que produzimos foi a capacidade de inventar o brasil, e isso criou a centralidade do povo. Lição que segue sendo atual”.

Capilé também é otimista sobre o poder da inovação nas novas redes mundiais: “A conexão sul-sul, entre a potência da América Latina e da África, a possibilidade de apresentar soluções, até do nada, por meio da gambiarra, é muito grande para o mundo”. Que diga a bateria no auditório, emudecida apenas durante as duas horas de conversa, e logo vibrante de novo.

Na cidade e na universidade

A ocupação de espaços públicos e a cultura na universidade também foram tema de outra mesa no primeiro dia do Conune, ainda no eixo de debates sobre a conjuntura nacional. Aprofundaram-se no assunto o músico Flavio Renegado, o gestor cultural Alê Youssef, a professora Ivana Bentes e Leia de Souza Oliveira, representante da Fasubra.

Os participantes lembraram da importância da troca da universidade – e da cidade – com a população real numa via de mão dupla. “Mais do que ‘formar’ público para teatro, é preciso que a própria cultura do povo esteja nos espaços públicos”, disse Alê Youssef. “E que as próprias periferias e comunidades estejam na universidade para produzir conhecimento sobre elas”, completou Ivana.

Eles ressaltaram também a necessidade da esquerda extrapolar “bolhas sociais”. A união da sociedade pela cultura, acreditam, deve ir além de limites partidários e criar temas amplos de convergência, como no caso dos atos nacionais por Diretas Já em diversas cidades do país.

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