Pular para o conteúdo Pular para o Mapa do Site

Notícias

Últimas Notícias

8 de Março pede basta à violência machista

08/03/2017 às 22:09, por Cristiane Tada.

Estudantes, negras, trabalhadoras e imigrantes marcham por suas vidas em SP

Elas foram chegando aos poucos na concentração na Praça da Sé, Centro de São Paulo, no início da tarde desta quarta-feira (08), dia Internacional da Mulher, organizadas ou não, de todOs os feminismos, credos, raças, siglas e bandeiras.

A pauta que mais unifica as mulheres em luta neste 8 de março é pelo fim da violência machista. Isso porque a violência contra elas no nosso país é uma questão de saúde pública e de sobrevivência. Em uma nação onde são registrados 13 feminicídios por dia, o ‘parabéns’ do Dia das Mulheres é por elas se manterem vivas.

No triste ranking de assassinatos femininos o Brasil está no 5º lugar sem sinal de retroceder e tem a cada sete minutos uma mulher que sofre violência doméstica.

Mesmo depois de quase dois anos da Lei do Feminicídio (2015), que classifica como crime hediondo e com agravantes quando acontece em situações específicas de vulnerabilidade, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 realizou 2.052 por dia em 2015, número 54,40% maior do que o registrado em 2014.

A Lei Maria da Penha , em vigor desde 2006 tem papel imprescindível, mas os números são cruéis em relatar que não diminuíram as marcas que o machismo de cada dia deixa na pele e na psiqué delas. O Mapa da Violência 2015 constatou que de 2003 a 2013, o número de vítimas do sexo feminino cresceu de 3.937 para 4.762, ou seja, mais de 21% na década.

Kelly de Oliveira, estava na Marcha com as companheiras que trabalham na Casa Viviane dos Santos, um Centro de Defesa da Mulher que atende mulheres em situação de violência doméstica na região do Lajeado, extremo Leste de São Paulo. Ela sabe bem sobre essa rotina perversa que atinge as mulheres como uma epidemia. Na Casa Viviane dos Santos são de 10 a 15 mulheres novas por mês que chegam procurando atendimento social, jurídico e psicológico, além de serem encaminhadas para oficinas de bem estar coletivo. Em sua maioria negras, pardas, periféricas de 30 a 49 anos.

Kelly de Oliveira, do Centro de Defesa da Mulher Casa Viviane dos Santos

Ela afirma que as pautas do dia das Mulheres se articulam entre si.

“Sobretudo quando falamos de retrocesso, de perdas de direitos, quando a gente vê o partido do presidente ameaçar a gente dizendo se a reforma da Previdência não passar, tchau Bolsa Família, isso atinge diretamente as mulheres que a gente atende que tem sofrido com cortes e com bloqueios desse benefício e que inclusive a falta de grana, de moradia, de condições para se alimentar, dificulta sair do círculo de violência”.

Para ela a Lei Maria da Penha é fundamental para o rompimento da violência e para dar visibilidade a essa violência, uma legislação importante, mas talvez seja o momento do movimento de mulheres e feministas repensarem as suas apostas. “Temos que apostar em outras políticas públicas, temos que estar nos espaços organizando as mulheres, e mais do que tudo, pressionar o Estado que faça políticas de prevenção como o estudo de gênero na escola, que é fundamental.”

Juliana Gonçalves, da Marcha das Mulheres Negras que ajudou na organização do ato disse que o genocídio e o feminicídio das jovens negras é uma das pautas prioritárias. O Mapa da Violência mostrou que existe ainda mais sangue derramado entre as negras que tiveram um crescimento nos assassinatos de 54% em dez anos, enquanto o número entre as brancas no mesmo período caiu. Ela é taxativa: “Esse feminicído é decorrente de uma política de Estado genocida”.

Para a jovem é preciso o reconhecimento da sociedade e de todos os movimento populares e sociais que a pauta do genocídio das mulheres e dos jovens negros é prioritária. “Não devemos mais ficar apenas reagindo a esse governo golpista, precisamos de um projeto de nação. E políticas públicas que tenham esse recorte racial porque vemos que políticas como a Maria da Penha ainda não são suficiente porque não estão chegando nas periferias e nas comunidades que mais precisam e isso aliado com o desmonte recorrente do SUS vai praticamente dizimar cada vez mais mulheres e principalmente as negras que usam este serviço”.

Juliana Gonçalves, da Marcha das Mulheres Negras

Universitárias na luta

O machismo e a violência presentes na sociedade se refletem sem timidez nenhuma dentro do ambiente onde estão as cabeças pensantes do país.

Pesquisa do Instituto Avon e Data Popular de 2015 mostrou que entre as universitárias 67% disseram já ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário. Mariana Gonzales, tem 20 anos, estuda Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e é integrante da Frente Feminista Casperiana Lisandra. Ela conta que lá devido ao surgimento dos coletivos feministas e negro houve uma mudança muito grande na questão de violência e opressões no ambiente.

“Por ser uma maioria de mulheres, com muitas mulheres professoras, foi melhorando com o tempo. Quando entrei Cásper em 2014 as músicas da bateria universitária eram mais misóginas, as festas eram muito mais agressivas e não tinham preparo para atender as mulheres assediadas e agredidas. Com o trabalho das frentes tudo foi mudando bastante. Temos uma campanha chamada Mulheres sem opressão que é uma rede de CAs e Coletivos para criar essa proteção. Não é o ideal mas tem evoluído bastante rápido”.

Mas ela sabe que ter acesso à academia, em uma Faculdade pequena, localizada em uma região nobre da cidade é uma exceção da maioria das mulheres em geral e das estudantes.

“Não adianta nós universitárias considerarmos que estamos superlibertas, evoluídas enquanto muitas outras não chegaram perto desse discurso ainda. Não tem sentido a gente se considerar livre enquanto outras não forem ainda”.

Mariana Gonzales, estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

Refugiadas e Imigrantes também querem respeito

A violência e o machismo são globalizados, dados da ONU mostram que mulheres com idade entre 15 e 44 anos do mundo todo apresentam maior risco de sofrer violência sexual e doméstica do que de serem vítimas de câncer, acidentes de carro ou malária, por exemplo.

Mas quando as opressões se interseccionam: machismo, racismo e xenofobia a situação de vulnerabilidade pode ser ainda maior.

Presente na marcha estava a Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas, em que participam mulheres militantes de diversas entidades e coletivos que se reúnem para visibilizar a situação dessas cidadãs.

“As mulheres que migram são expostas a riscos derivados de circunstâncias mais graves que os homens, por serem mulheres em sua maioria, jovens e pobres. Estar em outro país gera o isolamento das nossas culturas, redes familiares e sociais, situações que provocam incertezas de maior vulnerabilidade”, dizia Manifesto da Frente.

A peruana Rocio Bravo, contou que as mulheres imigrantes lutam pelo pleno direito de migrar em um mundo realmente sem fronteiras e sem discriminação. “As negras africanas e as que tem traços indígenas sentem na pele ainda mais preconceito”, contou.

Rocio afirmou ainda que a rede de atendimento às mulheres no Brasil não está preparada para atender essa população para além da barreira do idioma. E afirmou: “Nossa presença apenas exacerbou problemas e intolerâncias que já existiam aqui”.

Pular para o Conteúdo Pular para o Topo