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1º de abril, relembrar um golpe para evitar outro

31/03/2016 às 15:15, por Artênius Daniel.

Há 52 anos, os militares tomavam o poder; hoje, um processo ilegal de impeachment ameaça nossa democracia

Os estudantes brasileiros se lembram bem daquela noite de terça-feira entre 31 de março e 1º de abril de 1964, apenas dois dias após o domingo de páscoa daquele ano. Na sede da UNE, localizada na Praia do Flamengo número 132, Rio de Janeiro, um grupo de jovens acompanhava apreensivo os desdobramentos do pronunciamento do general mineiro Olympio Mourão Filho. Segundo ele, suas “tropas estavam nas ruas” para tomar o poder do presidente eleito João Goulart. Um desses jovens era o poeta Ferreira Gullar, que atuava no Centro Popular de Cultura da UNE (CPC).

“A certa altura da noite, senti fome e convidei o Armando Costa, nosso colega de CPC, para comermos alguma coisa. Ele sabia de uma lanchonete no Largo da Carioca que ficava aberta até tarde”, descreve Gullar no seu livro “Antes do Golpe”, publicado em 2014, 50 anos depois daquele episódio. O relato prossegue: “Estávamos lá quando o rádio informou que o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, sediado em São Paulo, havia aderido ao golpe, o que nos deixou surpresos e preocupados”.

Gullar e Armando retornaram rapidamente para a sede da UNE, onde encontraram os colegas apreensivos. Reunidos, começaram a discutir a situação do país perante essa notícia, quando ouviram tiros: “Corremos até a janela e vimos, parada, uma caminhonete para a qual correram dois homens armados com revólveres. Entraram no carro, que partiu em seguida. Logo ouvimos vozes e gemidos de dois companheiros nossos, junto à porta de entrada do prédio. Um deles havia sido atingido por uma das balas disparadas contra o edifício”.

Ditadura nunca mais

Começava ali o pior pesadelo político do Brasil desde a proclamação da sua república, a ditadura militar que caçou liberdades individuais, perseguiu, torturou e matou aqueles que pensavam de forma diferente, em especial os estudantes e o movimento estudantil. Ferreira Gullar e outros conseguiram escapar do prédio mas, naquela noite, a sede da UNE foi completamente incendiada. A caçada aos estudantes continuou, a partir daquele momento, por 21 anos.

As entidades estudantis foram postas na ilegalidade, encontros foram invadidos e violentamente reprimidos – como o Congresso de Ibiúna, em 1968 – líderes presos e mortos como Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE que tornou-se símbolo da resistência democrática. A ditadura também perseguiu jornalistas, artistas, intelectuais, invadiu as universidades, exterminou os partidos políticos, sindicatos, associações de moradores ou qualquer forma de organização.

Hoje, 1º de abril de 2016, cinquenta e dois anos depois daquela terrível data, os estudantes estão novamente nas ruas, denunciando outra tentativa de golpe contra a democracia do país. Segundo a presidenta da UNE, Carina Vitral, é preciso respeitar as instituições do país para que não sejam cometidos os mesmos erros de outros tempos.

“Estamos do lado certo, lutando contra o ódio e a intolerância. Nós não vamos deixar que isso aconteça de novo. Nós resistiremos”, promete. A UNE é uma das principais entidades que organizam, na data de hoje, a Jornada de Lutas dos movimentos sociais pela democracia em todo o país.

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