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20% das brasileiras já abortaram, mas há pouco espaço para falar sobre isso

09/03/2017 às 17:35, por Natália Pesciotta.

Em marcha do Dia da Mulher, participantes relatam casos de abortos clandestinos, medo de discriminação no serviço público e o olhar acusatório da sociedade

Uma amiga olha para a outra por um instante de silêncio e apreensão, até que concordam entre si, num olhar de aprovação. Em seguida se voltam para a repórter e enfim respondem: “Sim, conheço uma pessoa próxima que já realizou um aborto. Algumas”. Apesar de realizado por uma a cada 5 mulheres de até 40 anos, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto da Universidade Federal de Brasília, falar abertamente sobre vivências relacionadas ao assunto pode ser perigoso.

A maioria das entrevistadas pela nossa reportagem na marcha “Aposentadoria Fica, Temer Sai”, em São Paulo, nesta terça (8), diz já ter realizado ou conhecer alguém que praticou aborto, mas sabe que se trata de assunto velado. Principalmente porque, além do risco de passar três anos na prisão, segundo a legislação do País, a pessoa ainda enfrenta o julgamento da sociedade e mau atendimento no serviço público.

Tema velado

“Eu já fiz um aborto”, afirmou a socióloga Silvana M., antes de completar: “Sei que posso falar isso aqui, pois é uma manifestação também pela descriminalização, mas em muitos lugares eu não falo”. Passados 18 anos desde que viveu esta realidade, ela compara: “Hoje, pelo menos existem alguns espaços em que podemos abordar o assunto, como este”.

Segundo Silvana, as clínicas clandestinas de alto padrão, como a que ela teve acesso, realizam um ótimo serviço, mas a mesma assistência não é encontrada nas clínicas mais baratas e nem no serviço público, que recebe vítimas de abortos malfeitos.

“Eu trabalho no sistema público de saúde e vejo muito preconceito lá dentro. Nós, profissionais da saúde, não deveríamos misturar nossas opiniões pessoais com o trabalho, como acontece”, diz a socióloga.

O relato da atriz Ana Paula Oliveira confirma: “Uma amiga tomou um chá abortivo e foi horrível. Mas, apesar de achar que pudesse morrer, ela não foi ao hospital, com medo de ser humilhada”. Ela também fala da falta de apoio que as garotas vivem nestas situações: “Na época, éramos adolescentes e eu tentava dar apoio, ela não podia dividir a situação difícil com outras pessoas”.

Questão de saúde

Segundo a OMS, 47 mil mulheres morrem por ano em decorrência de abortos clandestinos. Enquanto isso, o serviço de saúde brasileiro gasta R$ 142 milhões por ano com curetagem e outros tratamentos para procedimentos mal sucedidos.

“Querendo ou não, é uma questão que acontece”, afirma a secundarista Vitória Maia, que mora em Ferraz de Vasconcelos, em São Paulo.

Os dados confirmam. Nos países onde é permitido, o aborto acontece em 37 a cada mil gestações. Onde é proibido, o número não muda muito: 34 a cada mil gestações, segundo o Guttmacher Institute.

O que muda é a segurança. Na Suécia, por exemplo, onde o aborto é legalizado (assim como quase toda União Europeia, Estados Unidos e Uruguai, entre outros), não morreu nenhuma mulher entre 1988 e 2007. A taxa por lá é de 17,5 abortos a cada mil gestações.

Pobres e ricas

“Conheço uma pessoa que abortou com condições, numa boa clínica, e que ainda assim foi um processo que deixou sequelas psicológicas. Imagine se fosse num desses ‘açougues’”, conta a estudante de história Marília Bonchara.

A professora Vanda Nunes, da Marcha Mundial das Mulheres, resume: “O que acontece hoje é que as ricas pagam, as pobres morrem. É uma questão de saúde”. E acrescenta: “A mulher pode ser presa, mas o homem que gerou a gravidez não tem responsabilidades”.

É a mesma opinião da Cláudia Rodrigues, professora de Educação Física e presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM) em São Paulo: “Já existe a legalização para quem tem condições”. Pensando nos casos passados por amigas e conhecidas, Cláudia diz que outra grande dificuldade é o olhar acusador da sociedade perante uma decisão que raramente é tranquila: “Já é um momento bastante difícil. A criminalização só aumenta os traumas”.

A conversa é cortada pela bateria da Marcha Mundial das Mulheres, que acompanha o coro: “Legaliza! O corpo é nosso! É nossa escolha!”.

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