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Lugar de mulher é… na música!

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Site da UNE bateu um papo com a percussionista e DJ mineira Nara Torres, da banda Iconili, do bloco Chama o Síndico e outros projetos na cena belo-horizontina. Conheça a sua trajetória e entenda como é criar em uma banda com 11 outros músicos. Na entrevista, ela fala também sobre combater o machismo, superação e seguir em frente

*Por Rafael Minoro

Lá pelos idos dos seus 15 anos, uma menina do interior de Minas Gerais troca o Mickey e a Disney por uma aula de gaita. “Encontrei o professor por meio de um cartaz pendurado na sorveteria da praça da cidade”, relata. Nessa época já tinha ouvido falar de um tal Aldous Huxley, começava a gostar de rock, adentrava o mundo de Jim Morrison e dos Doors. “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito” profetizou Willian Blake.

Foi assim que, aos 18, a mineira Nara Torres, natural de Itajubá, Sul do estado, entrou por uma dessas portas e saiu na cidade grande: Belo Horizonte. A experiência com a gaita havia despertado a voracidade pela música, mas ela escolheu primeiramente o jornalismo na UFMG. “Pois gostava de escrever e acreditava no texto como instrumento de transformação social e revolução. Ainda acredito”, pontua.

Trocou experiências com a cidade, fundou com amigos uma rádio livre dentro do campus e participou do Centro de Mídia Independente. As referências políticas se expandiram: “Comecei a ouvir e falar em passe livre, aparelhamento, pelegos, manifestação, fanzine, enfim, ativismo”. Correu atrás. Foi editora de vídeos e cinegrafista, fez estágios, trabalhou como freelancer.

Enquanto o jornalismo vingava, a música também queria sair. Foi nesse meio de campo que Nara Torres conheceu a percussão, começou sua pesquisa com ritmos africanos, embrenhou-se no carnaval de Pernambuco e participou de grupos de maracatu. Aos 26, uma reviravolta. “Tive um problema de saúde. Fiquei um mês sem poder andar direito e três meses em tratamento. Isso mexeu comigo profundamente. Considerei isso mais um divisor de águas na minha vida: a partir dali eu iria correr atrás da música cada vez mais”.

Nara fez então como a moça no filme de Jean-Luc Godard, “Viento del Este”. A atriz, ao se deparar no meio de uma encruzilhada com Glauber Rocha, escolhe o caminho do cinema do terceiro mundo. “Perigoso, divino e maravilhoso”, brada Glauber. E foi assim que a itajubense escolheu a arte definitivamente. Entrou de cabeça na parada. Refinou sua verve musical e também política, feminista e revolucionária.

No final de 2011, passou a integrar como percussionista a banda Iconili, sendo a única mulher ao lado de 11 outros músicos. A banda lançou um dos melhores álbuns do Brasil em 2015, o seu segundo trabalho, “Piacó”, sucesso na crítica do país e também no exterior, com duas menções no jornal britânico The Guardian – um dos periódicos mais lidos do mundo. Nara também fundou com amigos o bloco Chama o Síndico, um dos principais do novo carnaval de rua de BH, tornou-se DJ e criou os projetos Geléia Geral e Baixo Ventre.

> Veja registro da gravação de uma das músicas do álbum “Piacó”:

Na última virada Cultural em Belo Horizonte, os integrantes do Iconili discursaram a favor das ocupações urbanas da cidade – entre elas a significativa ocupação da Isidora – da liberação do espaço público e criticaram o atual prefeito Márcio Lacerda (PSB). “O envolvimento político sempre foi uma referência importante pra mim e para a escolha dos grupos dos quais eu faço parte”, explica.

Questionada sobre machismo, ela concorda com a recente posição da cineasta Anna Muylaert. “Muitos homens têm dificuldade em aceitar uma mulher como protagonista, uma mulher que dê orientações para eles, uma mulher realizadora. Existe um machismo muito velado na sociedade, assim como o preconceito racial, a homofobia, a gordofobia”, protesta.

Nara diz que enxerga a opressão e sua inevitabilidade, mas que no momento exato da imersão musical sente essas questões se desmancharem. “Isso pode ser polêmico e estranho de dizer, mas é o que eu sinto. Quando partimos para uma conexão no nível da alma, eu acho que todas essas questões desmoronam”, declara. No entanto, alerta: “A cada dia mais o grito da mulher se fortalece e encontra outros gritos urgentes, não dá para não ouvir. Você pode fingir que não ouviu, mas no fundo percebeu”.

Abaixo, fizemos um bate pronto com a percussionista:

> A favor ou contra a redução da maioridade penal?

Contra. Estamos falando de um país completamente segregado, com uma questão social latente, que oferece péssimas condições de educação e formação social para suas crianças e adolescentes. Nossa polícia é elitista e conchavada com interesses financeiros e políticos. O sistema é arbitrário e injusto, prende pessoas da periferia, negros, jovens que muitas vezes nem tiveram culpa. A reforma que precisamos é em outra escala, não é prendendo mais e mais gente no péssimo sistema carcerário do país que vamos melhorar.

> A favor ou contra a descriminalização do aborto?

A favor. Quando a mulher quer, faz o aborto de qualquer forma, muitas colocam suas vidas em risco por aí. Existe um mercado paralelo do aborto e isso mostra que, no fim das contas, trata-se de uma decisão da mulher, que envolve o seu corpo, a sua vida, o seu futuro e o futuro daquela vida. Se no seu íntimo ela escolheu interromper aquela gravidez, acredito que seja sim uma decisão dela. A sociedade não pode querer intervir e tomar essa decisão por ela: você vai ter essa criança. Os aspectos religiosos, morais, não me convencem. O corpo é da mulher e ela deveria ter a autonomia total para uma decisão dessas.

>A favor ou contra a descriminalização da maconha?

A favor. Mais ou menos como na questão do aborto, trata-se de uma prática que está aí, que vai acontecer independente da legislação. As pessoas fumam e dão um jeito de plantar e de comprar. É muita hipocrisia querer proibir que as pessoas plantem uma erva medicinal em suas casas pois sabemos que trata-se de interesses políticos e econômicos disfarçados de uma questão moral. A descriminalização da maconha, além de trazer todo o debate à tona, é positiva para a economia do país, para uma diminuição do tráfico de drogas e para várias questões medicinais que a maconha atende.

> Assista ao show da banda Iconili no Circo Voador, no Rio de Janeiro:

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