Os mais expressivos projetos culturais da UNE, o CPC e o CUCA foram relembrados e discutidos por quem viveu essa história: na mesa personalidades como Arthur Poerner e Jalusa Barcellos
Eles não usavam black tie. Não mesmo. Eram mais conhecidos pelo jeito informal de se vestir e principalmente por suas ações. Seja nos palcos, nos palanques ou nas ruas, esse pessoal marcou uma época. Eram os membros do CPC, Centro Popular de Cultura, primeiro projeto cultural da UNE.
Anos depois, a imagem não é assim tão diferente. Eles ainda são conhecidos pelo visual alternativo. Fazem arte de todo tipo. Música, teatro, artes visuais, cinema, literatura e muito mais. Esses são os “cuqueiros”, estudantes que fazem parte dos CUCA’s, Centros Universitários de Cultura e Arte, da entidade espalhados pelo Brasil.
A história do CPC e os rumos sobre os trabalhos que estão sendo desenvolvidos nos núcleos CUCA’s foram os temas da mesa de debates “70 anos de história ao lado da Arte e da Cultura, do CPC aos CUCA’s”, que aconteceu este domingo, no espaço Gabão, Teatro Ópera Brasil, na Fundição Progresso.
Arte em debate
A mesa formada pelo jornalista e escritor, autor do livro “O poder jovem” considerado a bíblia do movimento estudantil, Arthur Poerner, pela também jornalista e escritora do livro “CPC da UNE: uma história de paixão e consciência”, pelo ex-presidente da UNE, Wadson Ribeiro, pelo assessor do Ministério da Cultura e ex-coordenador-geral do CUCA, Ernesto Valença e pelo idealizador do CPC 8 de março da Umes (União Municipal dos Estudantes) de São Paulo, Valério Benfica, propôs um debate e também um resgate sobre o que foi e o que é a cultura dentro da UNE.
Poerner abriu o debate. O jornalista e escritor que participou do CPC contou histórias dos tempos de militante. Lembrou também daqueles que fizeram parte desse momento como o colega de profissão Arnaldo Jabor e o cineasta Cacá Diegues. Ele também avaliou o trabalho feito neste período.
“O CPC representou um grande momento, onde foi dado um salto de qualidade nas discussões sobre cultura e tudo o que tange esse universo. Representou também um avanço no debate político, inserindo-o no fazer artístico”.
Após a exposição de Poerner, a convergência entre um período político conturbado e uma juventude que lutava com todas as forças para combatê-la deu o tom da discussão. Jalusa Barcellos questionou o termo “arte engajada”, tão proclamado neste período.
Segundo ela, o engajamento da arte não pode ficar preso em um período da história. “Hoje os tempos são outros, as dificuldades também. Nos anos 60/70 os inimigos tinham armas. Atualmente é preciso lutar contra um sistema imperialista e neoliberal. Não é porque mudam os tempos que temos necessariamente, que perder o engajamento, ele persiste e atravessa períodos da história”, afirma.
Agora é CUCA
Depois da dissolução do CPC, em 1964, a UNE passou um período sem um projeto cultural de grande expressão. Após a 1ª Bienal da entidade realizada em Salvador, surgiu a idéia de fomentar o trabalho cultural realizado dentro das universidades entre um festival e outro. Foi assim que nasceu o CUCA como explica um dos idealizadores do projeto, Ernesto Valença.
“A idéia do CUCA surgiu como uma crítica à política cultural de Fernando Henrique Cardoso focada na promoção de eventos. Queríamos pensar, refletir cultura, não apenas fazer a arte pela arte”.
Na contra mão do mercado
A indústria cultural também entrou em pauta. Sobre o assunto Wadson Ribeiro afirmou que o grande entrave é que tudo o que é exportado para países da América Latina e África é de baixa qualidade.
“Não que sejamos contra a globalização, mas queremos que seja justa. Queremos o museu do Louvre globalizado, o bom jazz americano, a boa arte da Europa. Recusamos é esse lixo cultural que invade nosso país”.
Valério Benfica sinalizou que é preciso conviver com esse processo, mas sem esquecer de valorizar o que é genuinamente nacional. “Não temos que ter vergonha de assumir quem somos, de termos orgulho de sermos brasileiros”.
O estudante Kleber Aquino de Almeida, de 21 anos, brasileiro estudante de arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, em Portugal, que veio ao Brasil especialmente para esta Bienal faz uma avaliação do debate.
“Desde que me mudei para lá, há 5 anos, que não voltava para o Brasil. Quando fiquei sabendo desta Bienal, por um amigo dos tempos que militei no movimento estudantil do Espírito Santo, me interessei em vir. O tema é, por si só, atrativo, mas as discussões propostas foi o que me incentivou a participar. Gostei muito deste debate. Notei aqui uma preocupação muito grande em valorizar a cultura brasileira. Acho que pelo tempo que fiquei fora não percebi o quanto nossa cultura está sendo suprimida pela indústria de produção cultural neoliberalista. Foi muito esclarecedor”.
Em conversa com a reportagem do EstudanteNet, Poerner deu seu aval. “Se construiu aqui um painel sobre a cena cultural independente do Brasil e também sobre o papel da UNE nesse aspecto”.
Danielle Franco