Assembléia Nacional da Classe Trabalhadora leva multidão ao estádio e aprova documento unificado com pauta de reivindicações das cinco principais centrais sindicais do país

Dentro do carro, o taxista perguntou: “Tem jogo hoje, nesse horário?” Acostumado a levar passageiros para os grandes clássicos de futebol, o motorista se assustou com o mar de gente que ocupava as redondezas do estádio do Pacaembu às 10h daquele 1º de junho de vento frio na capital paulista. Na verdade, eram 30 mil pessoas que estavam entrando para a história: ali nas arquibancadas o povo brasileiro se reuniu para a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), encontro que aconteceu pela segunda vez após 29 anos e unificou a agenda de lutas das cinco principais centrais sindicais do país. Em clima de unidade, homens, mulheres, jovens e crianças aproveitaram o clima e fizeram por diversas vezes a tradicional ‘ola’. O evento foi transmitido ao vivo pela internet.
Organizaram a 2ª Conclat a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST). O objetivo foi apresentar e aprovar as pautas de reivindicações que compõem os seis eixos da “Agenda da Classe Trabalhadora pelo desenvolvimento com soberania, democracia e valorização do trabalho”:
1- Crescimento com distribuição de renda e fortalecimento do mercado interno;
2- Valorização do trabalho decente com igualdade e inclusão social;
3- Estado como indutor do desenvolvimento socioeconômico e ambiental;
4- Democracia com efetiva participação popular;
5- Soberania e integração internacional;
6- Direitos Sindicais e Negociação Coletiva.
UNE e UBES, presente!
Assim como na assembléia da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), realizada um dia antes, a irreverência do movimento estudantil também esteve presente na Conclat. Uma grande bandeira da UNE podia ser vista de longe nas arquibancadas. Como entidade mais antiga dos movimentos sociais, com 72 anos de vida, a UNE foi convidada a falar para os trabalhadores e trabalhadoras. O presidente da entidade, Augusto Chagas, destacou o caráter amplo e democrático da Conferência e disse ser uma honra poder participar daquele momento histórico.
Chagas ressaltou que o objetivo do fórum das centrais deve ser conquistar muito mais direitos à classe trabalhadora, especialmente em 2010, ano desafiador da história brasileira e do qual muitas lições serão tiradas. “Hoje, trabalhadores e o movimento social são atores políticos importantes que não aceitarão retrocessos”, pontuou. Ele observou que nos últimos anos mais de 600 mil filhos de trabalhadores passaram a ter oportunidade de chegar à universidade (citando o ProUni – Programa Universidade para Todos), sem contar avanços sociais em áreas como saúde e emprego. “É por isso que a marca desta Conclat deve ser: os trabalhadores querem mais. Os trabalhadores se organizarão para lutar por muito mais”.
O presidente da UBES, Yann Evanovick, destacou a importância das centrais sindicais e como a união das forças em prol da luta classista está representada nesta demonstração do poder de sua mobilização. “Com a realização deste evento, as centrais sindicais cumprem um importante papel para a luta da classe trabalhadora, principalmente, ao apresentar propostas importantes que serão entregues aos presidenciáveis, ainda mais porque este é um ano eleitoral e é preciso que os trabalhadores e jovens permaneçam unidos, pois mesmo que governo Lula tenha criado mais de 600 mil empregos diretos para a juventude, este ainda é um número insuficiente”, destacou.
Também se manifestaram no espaço democrático da Conclat, representantes de organizações sindicais internacionais e de partidos políticos. A presidente da Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam), Bartíria Costa, reiterou a unidade do movimento sindical na construção do documento, e reafirmou que a plataforma das centrais se soma ao projeto das CMS, formando uma “unidade dos movimentos sociais para avançar nas mudanças e combater o retrocesso no Brasil”.
Pela coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, celebrou também a unidade, reafirmou o compromisso do MST com a reforma agrária e encerrou marcando bandeiras como a diminuição da jornada de trabalho e contra a criminalização dos movimentos sociais.
Mulheres e trabalhadoras!
Um dos destaques da Conclat, pontuado inclusive pela representante da União Brasileira de Mulheres (UBM), Lúcia Stumpf, que é também figura importante dentro da CMS, foi o destaque dado às mulheres. Ex-presidente da UNE, Lúcia disse que “a presença expressiva de mulheres demonstra o protagonismo que elas vêm assumindo no mundo do trabalho e também à frente das centrais e dos sindicatos”.
“A principal questão para as mulheres se emanciparem, se libertarem, é o acesso ao trabalho, em todas as categorias”, apontou Márcia Campos, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), e da Federação Democrática Internacional de Mulheres (Fdim). Sônia Coelho, a Soninha da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), fez questão de lembrar que o trabalho das mulheres ainda é “precarizado”, com salários muito inferiores aos dos homens. Reforçou que a luta pelo trabalho digno é uma luta de todas as mulheres.
Confirmando a declaração, as mulheres das centrais sindicais se dividiram na leitura do manifesto final da classe trabalhadora: Débora Cheyne (CGTB), Márcia Machado (CTB), Maria dos Anjos (Nova Central), Auxiliadora (Força Sindical) e Bebel (CUT).
Documento
A plataforma aprovada traz reivindicações como a redução constitucional da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem diminuição de salários; a ratificação da Convenção 158 da OIT, que coíbe a dispensa imotivada; uma nova política de comunicação, que democratize o direito à informação, fortaleça as mídias alternativas e as expressões culturais nacionais e regionais; e que os recursos do pré-sal sejam aplicados na erradicação da pobreza e das desigualdades sociais.
O documento frisa ainda “a disputa eleitoral marcada pela acirrada disputa entre diferentes projetos políticos e de desenvolvimento para o país, coloca para a classe trabalhadora a responsabilidade de participar ativamente, com propostas que visam garantir e ampliar direitos dos trabalhadores/as e avançar nas transformações necessárias à construção de um país igualitário e democrático [...] Temos que ter consciência que, frente aos problemas globais que ameaçam a todos, não existem soluções individuais. Ou vencemos todos, ou ninguém vence!”
Conclat, 29 anos depois
A 1ª Conclat aconteceu de 21 a 23 de agosto de 1981, e reuniu cerca de 1.200 entidades e aproximadamente 5.000 delegados sindicais, que discutiram as bases para a organização nacional dos trabalhadores. A conferência foi o embrião das atuais centrais sindicais e, além de ser uma demonstração de força do movimento sindical pelos direitos dos trabalhadores, representou um largo passo pela redemocratização do país.
Da redação