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30 de julho de 2007
UNE 70 Anos: "Fora Collor: o grito da juventude cara-pintada" - por Tatiana Rezende

 Os estudantes brasileiros foram protagonistas de um dos episódios mais democráticos da história da república brasileira: o impedimento de um presidente. Foi em 1992, quando a UNE e a UBES levaram milhares de cara-pintadas para as ruas das principais cidades brasileiras e marcaram mais um capítulo na história do movimento estudantil.

O EstudanteNet publica o penúltimo artigo da série "UNE 70 anos", que retrata o período do Fora Collor e a participação decisiva dos estudantes. A pesquisadora Tatiana Rezende, do projeto Memória do Movimento Estudantil, descreve como os cara-pintadas influenciaram, mais uma vez, os rumos do país, enriquecendo a história dessa que é a maior entidade da juventude brasileira. Leia abaixo:


FORA COLLOR: o grito da juventude cara-pintada

Em 11 de agosto de 1992, a União Nacional dos Estudantes convocava a massa estudantil e todo o povo brasileiro a vestir-se de luto em protesto contra a onda de corrupção em que estava envolvido o presidente Collor. Diante disso, o então presidente da UNE, Lindberg Farias, lançou a palavra de ordem "Fora Collor!" bradada em coro por milhares de estudantes que, com os rostos pintados de verde e amarelo, pediam o afastamento do presidente da República, após um ano e meio de governo.

Fernando Collor de Mello, político jovem e desportista, elegeu-se presidente da República num clima de grande expectativa do povo brasileiro: era o primeiro presidente eleito pelo voto direto após 21 anos de ditadura militar. Seu discurso de "collorir" o Brasil livrando-o da corrupção, inflação e miséria encheu de esperanças brasileiros que o viam como um novo modelo de político: vigor e transparência em prol do bem público.

A era Collor foi repleta de extravagâncias do esportivo presidente: passeios de jet-ski, corridas ao ar livre, partidas de futebol e tênis, pilotagem de avião e carros de alta velocidade. Por causa dessas excentricidades, sua imagem diferia, no imaginário popular, do perfil convencional dos políticos brasileiros, apesar dele próprio ter o apoio de grupos conservadores em sua vitória no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Além disso, sua legenda partidária anterior ao PRN (Partido da Reconstrução Nacional), pelo qual se elegeu presidente, era a ARENA (Aliança Nacional Renovadora), facção política representativa dos grupos militares e de direita durante a ditadura.

Auto-intitulado "caçador de marajás" – alusão a funcionários-fantasmas da máquina estatal e políticos que usavam recursos públicos em benefício próprio –, seu governo foi marcado pelo confisco de depósitos bancários acima de cinqüenta mil cruzeiros (Cr$ 50.000), por uma mal planejada abertura econômica, privatizações de empresas estatais e leilões de bens públicos.

Devido à maré de privatizações, o movimento estudantil iniciou uma série de mobilizações contra a política econômica do governo Collor e contra a política educacional do então ministro da Educação Jarbas Passarinho quanto à veemente ameaça de fim da universidade pública e gratuita. Durante o 41º CONUNE, em 1991, a UNE lançou a campanha "Educação não rima com lucro" (foto acima) em defesa das universidades públicas brasileiras.

Apesar de seu discurso progressista e moralizador, seu governo foi palco de sucessivos escândalos de corrupção envolvendo, principalmente, o tesoureiro de sua campanha eleitoral, o empresário Paulo César Farias, protagonista do episódio conhecido como "esquema PC".

Diante das evidências contra Collor, a Câmara recebeu uma petição pelo afastamento de Collor assinada pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho; pelo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Levanere; pelo presidente da CUT, Jair Meneguelli e pelo presidente da UNE, Lindberg Farias. No dia 1º de junho, o Congresso instaurou uma CPI para investigar o esquema de corrupção institucionalizada envolvendo o presidente da República.

Lindberg (foto ao lado) é paraibano, elegeu-se presidente da UNE quando era filiado ao PCdoB e cursava Medicina na Universidade Federal da Paraíba. Em 2004, foi eleito prefeito de Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense, pelo PT. Segundo o então presidente da UNE, em depoimento ao projeto Memória do Movimento Estudantil:

"Nós tínhamos feito uma chamada anterior chamando 'Fora Collor! Impeachment!' Os caras diziam para a gente: 'Isso é loucura! Na verdade, isso aí é radicalismo de vocês tal e tal.' (...) Nós passamos em sala de aula na USP e estava feito todo o esquema de divisão, quem ia passar em sala de aula era a UNE e tal, e fomos chamando para passeata do impeachment. (...) Nesta primeira passeata, quando eu cheguei lá na Avenida Paulista com a turma da USP, em frente ao MASP [Museu da Arte de São Paulo], – o MASP virou o nosso símbolo – eu disse: 'Cara, não acredito! Uma loucura!'

Em um protesto irreverente e indignado contra os escândalos de corrupção, uma multidão de estudantes – em sua maioria, secundaristas – saiu às ruas exigindo o impeachment de Collor, em 11 de agosto e espontaneamente pintou as caras de verde e amarelo.

A UNE e a UBES tiveram um papel crucial na articulação das passeatas que reuniram milhares de pessoas nas principais cidades do país visando o afastamento do presidente. Em defesa da ética na política, as manifestações populares, conhecidas simplesmente como "Fora Collor", foram lideradas pela juventude "cara-pintada" e se tornaram o maior ato de protesto de massa ocorrido no Brasil desde o comício pelas Diretas-Já, em 1984.

Entretanto, as passeatas pelo "Fora Collor!", engrossadas por milhares de jovens com seus rostos pintados com as cores da bandeira brasileira, foram vistas como manipuladas pela mídia, principalmente, pela mini-série Anos Rebeldes veiculada pela TV Globo naquele ano. Porém, há que se ressaltar que um ano antes da exibição do programa, a UNE já encabeçava uma campanha contra o Governo Collor, principalmente, em relação à sua política educacional e contra às privatizações em massa e o mau uso do dinheiro público. De acordo com Lindberg:

"Tinha os dois lados e os outros diziam que foi a TV Globo que fez as passeatas, mas na verdade, não foi uma coisa nem outra... Porque veja bem, ninguém podia imaginar que aquela mini-série fosse mexer tanto com o romantismo da juventude, mas a gente soube aproveitar isso. Você sabe como é o cartaz que a gente fez? Nós montamos um cartaz: 'Anos Rebeldes, próximo capítulo: impeachment'. E sabe qual era o meu discurso? "Pessoal, a juventude e os estudantes desse Brasil já lutaram muito, lutaram contra a Ditadura Militar e nós temos que voltar às ruas.' e aquilo era como se uma mini-série tivesse dado uma breve aula de história do Brasil, tivesse massificado a história do Brasil, é um negócio impressionante. E você sabe que aquilo influenciou tanto que as passeatas do impeachment tinham esse negócio de ditadura, com a história da resistência e com o papel dos estudantes, que é como se tivesse aflorado também a história do movimento estudantil. Então, nós soubemos aproveitar muito bem aquela mini-série ali para estimular o romantismo e ninguém podia imaginar que isso caiu como uma luva no momento. A gente pegou os 'Anos Rebeldes' ali e puxou para aquele momento, pois isso estava muito presente na cabeça da juventude".

Em 29 de setembro de 1992, cerca de 100 mil pessoas ocuparam as áreas diante do Congresso para acompanhar a votação do processo de impeachment do presidente cujo resultado foi a aprovação por maioria absoluta: 441 deputados federais votaram sim contra 38 que votaram não, havendo a ausência de 23 parlamentares e uma abstenção. Porém, antes de também ser condenado pelo Senado Federal, Collor renunciou ao mandato, em 29 de dezembro, cedendo definitivamente o cargo ao seu vice, Itamar Franco.

Itamar, ao assumir a presidência, buscou sustentar-se numa base partidária ampla, ora articulando com a esquerda e ora com a direita, inclusive nomeando FHC para Ministro da Fazenda. Ele, em 17 de maio de 1994, devolveu o terreno da Praia do Flamengo n. 132 que integrava o patrimônio da UNIRIO, embora já estivesse ocupado por um posseiro que explorava o local como estacionamento.

E neste ano em que a UNE comemora seus 70 anos no próximo 11 de agosto, a entidade recuperou a posse efetiva do terreno, onde reconstruirá sua sede incendiada e posteriormente demolida pelos militares durante a Ditadura. Mesmo com a reintegração da propriedade do terreno dada pelo então presidente Itamar Franco, somente no início deste ano, a UNE conquistou em juízo o direito de "voltar para casa".

Mesmo que sempre atuante em suas bases estudantis e militante em relação à política educacional do governo brasileiro, não podemos minimizar a importância da campanha pelo "Fora Collor!" para re-projetar o movimento estudantil enquanto setor social combativo politicamente. Destacamos também que no início da década de 1990, não havia um outro fenômeno de massa com força no país capaz de aglutinar multidões em torno de uma causa de tal proporção: a derrubada de um presidente da República.


* Tatiana Matos Rezende é Mestre em História Política (UERJ) e Pesquisadora do Projeto Memória do Movimento Estudantil (www.mme.org.br)




Referências:

AXT, Bárbara & LEITÃO, Sergio. Fora Collor: a incrível aventura da geração que derrubou um presidente. Rio de Janeiro: Diagrama: 2002.
POERNER, Arthur. O Poder Jovem. 5ª ed. revista. Rio de Janeiro: Booklink, 2004.
Depoimento de Lindberg Farias ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 01/05/05.



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