O EstudanteNet publica o novo artigo da série em comemoração aos 70 anos da UNE. O objetivo é resgatar e trazer ao conhecimento do público alguns dos principais fatos que marcaram a entidade durante a longa trajetória de lutas. No texto abaixo, "A década de 1970 e a reconstrução da UNE", a pesquisadora Angélica Muller, do projeto Memória do Movimento Estudantil, descreve os meandros que levaram os estudantes a se reorganizarem por meio dos DCE’s, UEE’s e Executivas de cursos e, depois, reconstruírem a UNE.
"O ano de 1977 pode ser encarado como marco para o processo de redemocratização do país. E, mais uma vez, o movimento estudantil foi pioneiro nesse processo. Apesar dos movimentos sociais já estarem se articulando nesse momento como, principalmente, o movimento sindical e as pastorais, foi o movimento estudantil o primeiro a ir para as ruas lutar pelas liberdades democráticas e exigir anistia aos presos políticos", diz um trecho do artigo.
Em 1979, na Bahia, cerca de 10 mil estudantes, num congresso aberto pelo ex-presidente José Serra, reergueu a entidade e elegeu, numa votação direta e inédita, Rui César. "A UNE estava pronta novamente para jogar papel nos grandes acontecimentos do cenário político nacional lutando por liberdades democráticas e pelas Diretas Já!", escreve Angelica. Leia abaixo:
A década de 1970 e a reconstrução da UNE
Depois do Ato Institucional n. 5 (AI-5) em dezembro de 1968, o Movimento Estudantil (M.E.) entrou na clandestinidade, a UNE foi extinta e muitos de seus militantes acabaram se integrando em grupos guerrilheiros. Já no início da década de 1970, diante da impossibilidade de atuação legal do M.E. articulado, vários jovens começaram a trabalhar para sua reestruturação, ainda no período mais duro da repressão.
Se a geração de 1968 preconizava uma cultura política revolucionária, em que a radicalidade estava centrada na luta armada, a nova geração assumiu uma postura, a partir daquela experiência que não teve sucesso, apostando num novo tipo de luta de resistência contra o regime autoritário, assumindo como tática de enfrentamento político o "confronto pacífico". É importante salientar que essa nova proposta das esquerdas orientou-se pelo objetivo da luta pelas liberdades democráticas, mas tal posição não foi unânime.
O ressurgimento do movimento estudantil, neste momento, esteve ligado a um processo de reflexão (autocrítica) sobre a derrota (política e militar) da luta armada. O debate realizado pela maior parte da esquerda orientou-se pela proposta de uma luta de massas pela redemocratização (1).
Na primeira metade da década de 70, como aponta Mirza Pellicciotta (1997), as atividades se desenvolveram principalmente no âmbito cultural e na formatação das Executivas de Cursos e formação dos Diretórios Centrais Livres (DCE’s), caso da Universidade de São Paulo, com o DCE Alexandre Vanucchi Leme (2).
A partir disso, sentiu-se a necessidade de rearticular o movimento através das suas entidades representativas: as Uniões Estaduais dos Estudantes (UEE’s) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
Entre 1976 e 1978 quatro reuniões preparatórias foram propostas com intuito de reconstruir a UNE. Os Encontros Nacionais de Estudantes (ENE’s) aconteceram a partir da articulação interna das forças políticas do M.E., articulação esta que teve como desdobramentos as grandes passeatas de 1977 (3).

O ano de 1977 pode ser encarado como marco para o processo de redemocratização do país. E, mais uma vez, o movimento estudantil foi pioneiro nesse processo. Apesar dos movimentos sociais já estarem se articulando nesse momento como, principalmente, o movimento sindical e as pastorais, foi o movimento estudantil o primeiro a ir para as ruas lutar pelas liberdades democráticas e exigir anistia aos presos políticos.
Este também foi o ano da realização do III ENE (Encontro Nacional dos Estudantes). O Encontro que deveria ter acontecido na Faculdade de Medicina da UFMG foi impedido pelos militares e, depois de algumas tentativas, ocorreu na PUC São Paulo, causando um acontecimento bastante conhecido na história do ME: a invasão da universidade pelos policiais comandados por Erasmo Dias, a mando do governador Paulo Egydio Martins, que fora diretor da UNE na década de 1950. Ainda nesse ano, foi reconstruída a UEE/SP e a comissão Pró-UNE. A montagem desta comissão redundou na realização do XXXI Congresso da entidade na cidade de Salvador em maio de 1979.
Coube ao presidente da DCE da UFBA, Rui César Costa, encontrar um local para o Congresso. Rui César pediu uma audiência com então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, que cedeu o Centro de Convenções e garantiu a viabilidade do Congresso.
Depois de muitos sacrifícios e alguns ônibus de estudantes retornando para suas casas, barrados pela polícia, o XXXI Congresso da UNE, que contava com cerca de 10 mil estudantes, foi aberto pelo seu ex-presidente de 1964, José Serra, em 29 de maio de 1979 (foto acima).
Foram aprovados um novo estatuto, uma carta de princípios e uma pauta de lutas a serem levantadas pela entidade, dentre elas: "contra o ensino pago; por mais verbas para educação; pela anistia ampla, geral e irrestrita e contra a devastação da Amazônia.".
A grande polêmica, sem dúvida, ficou no encaminhamento para a eleição da nova diretoria. Depois de muita polarização de idéias, acabou vencendo a proposta de se eleger no Congresso uma diretoria provisória formada por um conselho de entidades e no segundo semestre, realizar, pela primeira vez, eleições diretas para diretoria da UNE.
Mais de 350 mil universitários foram às urnas eleger o presidente de sua entidade. A chapa vencedora foi encabeçada pelo próprio Rui César, que ganhou destaque acentuado pelo seu trabalho na coordenação do Congresso.
Assim, a entidade máxima dos estudantes brasileiros estava reconstruída. A UNE estava pronta novamente para jogar papel nos grandes acontecimentos do cenário político nacional lutando por liberdades democráticas e pelas Diretas Já!
* Angélica Müller é doutoranda em História Social pela USP e coordenadora-técnica do Projeto Memória do Movimento Estudantil
Notas de fim:
(1) Marcos Napolitano ressalta que a questão democrática passou a ser pensada por amplos setores da esquerda brasileira dos anos 70 basicamente através de duas leituras "ora por uma reafirmação das alianças em torno da democratização institucional, como no caso do PCB; outra pela derrota da revolução da vanguarda (produto das cisões do PCB e dos grupos contra o partido), buscando uma estratégia para construir a democracia a partir dos movimentos sociais como um todo". In: NAPOLITANO, Marcos. Cultura e poder no Brasil contemporâneo. Curitiba: Juruá, 2002. p. 21.
(2) O nome do diretório foi uma homenagem ao estudante de geologia da universidade, militante da ALN, que foi morto pelos militares durante a ditadura.
(3) Para um maior detalhamento das passeatas realizadas por estudantes no ano de 1977 verificar o trabalho de NAPOLITANO, Marcos. Cultura e poder no Brasil contemporâneo. Curitiba: Juruá, 2002.
Referências Bibliográficas:
ARAÚJO, Maria Paula. A ditadura militar em tempo de transição (1974-1975). In: MARTINHO, Francisco Palomanes. Democracia e ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Eduerj, 2006.
BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean-François. Para uma história cultural. Lisboa: editorial Estampa, 1998.
NAPOLITANO, Marcos. Cultura e poder no Brasil contemporâneo. Curitiba: Juruá, 2002.
PELLICIOTTA, Mirza Maria Balfi. Uma aventura política: as movimentações estudantis dos anos 70. Dissertação de Mestrado defendida na Universidade Estadual de Campinas, 1997.
POERNER, Artur José. O Poder Jovem: História da Participação Política dos Estudantes Brasileiros. Rio de Janeiro: Booklink, 2004.
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