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3 de julho de 2007
UNE 70 anos: Luta e Memória de Honestino Guimarães - por Tatiana Rezende

Como parte das comemorações do seu 70º aniversário, a UNE está prestes a realizar  o antigo sonho de construir o Centro de Estudos Honestino Guimarães (CEHOG) com o intuito de resgatar a história de participação política, social e cultural dos estudantes desde a fundação de sua entidade de representação máxima, em 1937. Um centro nacional de referência do movimento estudantil brasileiro responsável pela recuperação e preservação da memória de um dos maiores e mais importantes movimentos sociais da história do país. Para batizar este centro de estudos, a UNE vai homenagear um ex-presidente assassinado pelos instrumentos de repressão durante a ditadura militar, Honestino Monteiro Guimarães, que levou sua militância às últimas conseqüências sendo seqüestrado e morto em 1973, enquanto ocupava o cargo de presidente da entidade.


Para recuperar sua trajetória de militante estudantil e opositor combativo ao regime instaurado após o Golpe Militar de 1964, há que se relembrar alguns fatos de sua vida que se confunde com a própria história do Brasil. Honestino nasceu em Itaberaí, pequena cidade do interior de Goiás, em 28 de março de 1947. E, em 1960, mudou-se com sua família para Brasília – a promissora capital recém inaugurada – com o objetivo de iniciar o curso secundário, atual ensino médio. Nesse período, o país vivia um período de efervescência política e sócio-cultural e a nova capital federal representava bem essa perspectiva de modernização e desenvolvimento, enfim, o sonho de transformar o Brasil. Honestino ainda não tinha uma militância efetiva, apenas destacava-se como um dos alunos mais brilhantes  do Colégio Elefante Branco e do CIEM (Cento Integrado de Ensino Médio). Porém, vivenciou o ambiente de radicalização de tendências esquerdistas ansiosas por reformas estruturais na sociedade brasileira, bem como a movimentação das forças reacionárias temerosas quanto ao rumo “comunista” que o país estava seguindo.

Em 1965, Honestino entra para o curso de Geologia da Universidade de Brasília como o primeiro colocado geral no vestibular, sendo que – segundo seu irmão, Norton Guimarães – o segundo colocado ficou 42 pontos atrás dele. Logo que inicia sua vida universitária, ele começa a participar da APML (Ação Popular Marxista-Leninista) e a fazer militância estudantil em Brasília, como conta sua mãe, Maria Rosa:

“E na UnB, logo ele começou a participar do movimento estudantil. E participava mesmo, assiduamente, eu ficava doida em ver como ele conseguia falar e prender a atenção do auditório: quando ele ameaçava a falar, cinco minutos depois, o auditório era todo dele. Olha, espontaneamente, ele começou a crescer, criar vulto e eu ia lá para ver o que estava acontecendo, porque eu morava perto da UnB e eu via ele falando e pensava: como ele podia, assim, prender o auditório quando falava? E depois ele ia para as passeatas, os estudantes em Brasília eram muito movimentados e faziam muitas passeatas”.

Honestino começou a projetar-se no ME brasiliense, se tornando um alvo certeiro do aparato repressivo por causa de sua ousadia e militância combativa. Devido a um de seus protestos contra o governo Costa e Silva, pichações numa das principais avenidas de Brasília, ele foi preso pela primeira vez em 1966, sendo vítima de outros episódios de prisão posteriormente. A partir daí, se tornou um combativo militante estudantil, assumindo rapidamente uma posição de liderança ao ser eleito presidente do Diretório Acadêmico de Geologia da UnB. Sua atuação efetiva nos protestos estudantis fez com que, numa das vezes em que se encontrava preso pela repressão, fosse espontaneamente escolhido pelos estudantes para presidente da FEUB (Federação dos Estudantes Universitários de Brasília) sem mesmo candidatar-se para o cargo. À frente da direção da FEUB, ele conduziu o movimento estudantil em Brasília, em 1968, ano de grandes manifestações em todo o país e não diferente na capital federal. Diante da morte do estudante Edson Luís no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968, – dia de seu aniversário – Honestino promoveu a ocupação da UnB num protesto denominado “Território Livre”.

A Universidade de Brasília, que completou 45 anos em 21 de abril deste ano, foi um dos principais focos da resistência ao regime militar e de militância estudantil. Não só pela militância de seus estudantes – um dos mais combativos do país naquela época – mas por localizar-se no Distrito Federal, foi a universidade mais perseguida pelo regime militar, sendo invadida pelo Exército cinco vezes entre 1964 e 1984. Sob a alegação de cumprir o mandato de prisão dos alunos – dentre eles,  Honestino Guimarães –  numa operação conjunta entre o Exército, Polícia Militar e Polícia Civil do Distrito Federal e Polícia Política (DOPS), a UnB foi invadida em 29 de agosto de 1968, a mais violenta das invasões sofridas pela universidade. Segundo Maria Rosa, esse episódio:

“Não foi horrível, foi terrível. Era um sinal de guerra o que a gente via: todas as entradas para a UnB estavam tomadas de soldados, soldados do Exército, sei lá... Então, quando cheguei em casa, eu senti que tudo aquilo era muita coisa, passei por aquela fileira de soldados, uma coisa doida, sabendo que tudo aquilo era para prender, era para liquidar o Honestino”.


Após esse episódio, Honestino foi sumariamente expulso da universidade, sendo impedindo de terminar o curso de Geologia a dois meses de sua conclusão. Já oficialmente perseguido pelo regime, casou-se por procuração dada a seu pai com Isaura Botelho numa cerimônia secreta realizada pelo próprio Arcebispo de Brasília. E, com o Ato Institucional no5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, como outros estudantes e intelectuais, ele entrou definitivamente para a clandestinidade diante do endurecimento do regime.  Mesmo clandestino, em 1970, assumiu uma importante e difícil tarefa: presidir a UNE sob o cerco da Ditadura Militar. Como presidente da União Nacional dos Estudantes, Honestino conseguiu manter o movimento estudantil vivo e minimamente organizado.

Honestino permaneceu na clandestinidade durante 5 anos vivendo no eixo Rio-São Paulo atuando na articulação do ME e escrevendo artigos para publicações de esquerda. Vendo o cerco se fechar, sua família e amigos se mobilizaram para tirá-lo do país com passaporte falso, mas Honestino recusava-se a sair do Brasil e abandonar sua luta, como relata seu irmão:

“Se eu sair daqui eu me sinto mais morto do que ficando aqui. Eu não posso desertar, eu não posso deixar minha pátria. Se todos fugirem, como fica a pátria?” (...) Aí quando ele parou de falar, eu disse assim: ‘Cara, você vai ser morto, põe isso na cabeça, eles vão te prender e você vai ser morto’. Aí ele parou e falou pra mim assim: ‘Você sabe por que um relógio funciona? Porque no centro tem uma peça que faz assim...’ Aí eu entendi a analogia dele: ele fazia parte de um mecanismo que era essencial no movimento. Fiquei muito preocupado, fiquei muito preocupado... Isso foi em julho, em outubro prenderam ele pra nunca mais”.

Como forma de proteger-se e, ao mesmo tempo, manifestar publicamente sua revolta contra o estado de coisas que estavam acontecendo, escreveu uma carta aos amigos, que ele chamou de “Mandado de Segurança Popular”. Nesta carta-protesto, ele denunciava as ameaças que sofria e acusava os instrumentos de repressão por seu possível – e provável – desaparecimento e/ou morte. Nesta carta-protesto, Honestino relatava:

“A partir de 1964, quando entrei na Universidade Nacional de Brasília, pude efetivar em manifestações coletivas toda uma consciência política gradual que vinha desde a infância. Inicialmente, minha revolta se evidenciava numa crescente consciência nacionalista e social à qual a partir do Golpe de 64, se somou de forma irrevogável a consciência anti-ditadura. (...) Sei que a luta será longa e árdua, mas acredito firmemente na força da atuação coletiva das massas”.

Contudo, mesmo com todo aparato de proteção de seus amigos e companheiros,  no dia 10 de outubro de 1973, segundo informações recebidas pela família, Honestino foi preso pela CENIMAR (Central de Informações da Marinha), no Rio de Janeiro. Após a notícia de seu desaparecimento, D. Maria Rosa, sua mãe, iniciou em vão uma longa peregrinação em busca de notícias a respeito de seu paradeiro. A partir desse momento, Honestino Monteiro Guimarães entrou para a numerosa lista dos “desaparecidos políticos” durante o regime militar, o qual não reconheceu publicamente sua morte nos porões da ditadura. Sobre este fato, fala Norton Guimarães:

“E sabe por que eu não gosto de usar o termo desaparecido? O termo desaparecido político é bonitinho, mas têm quatro crimes por atrás dele: 1o) seqüestro, não é prisão, pois na prisão tem todo o ato formal da prisão e você pode entrar com advogado pra visitar o preso; 2o) tortura, que me provem que não houve tortura com aquele prisioneiro, eu mesmo sofri tortura; 3o) assassinato e, por útlimo, 4o) ocultação de cadáver. São quatro crimes, sendo três hediondos, subentendidos debaixo do termo desaparecido político”.

O reconhecimento público da morte de Honestino e de outros “desaparecidos políticos” pelo Estado brasileiro só ocorreu em 1996, quando os familiares de presos políticos assassinados conquistaram a oficialização das mortes através da obtenção da certidão de óbito das vítimas do regime militar.

Em 1979, durante o Congresso da Reconstrução da UNE, em Salvador, cerca de 10 mil vozes cantavam em coro: “A UNE somos nós, a UNE é nossa voz”. Os organizadores do congresso reservaram uma cadeira vazia – a do presidente de honra – na qual colocaram uma grande bandeira com o rosto de Honestino Guimarães para homenagear, em memória, o presidente da entidade até então. Neste ano, entre 4 a 8 de julho, o congresso em que a UNE comemora os seus 70 anos (50º CONUNE), na UnB, será recepcionado pelo DCE Honestino Guimarães no qual será mais uma vez homenageado o último presidente da UNE nos anos de chumbo da ditadura.

Honestino e outros estudantes, como Alexandre Vanuchi Leme e também Edson Luís – este  mesmo sem ter uma liderança efetiva no movimento estudantil – tornaram-se mártires e ícones da luta de resistência contra o regime militar. Suas mortes marcam a luta política e social dos estudantes durante um dos períodos mais difíceis da história do país e da própria UNE. A trajetória de militante estudantil de Honestino simboliza o histórico de lutas da UNE por um Brasil justo socialmente, democraticamente consolidado e pela educação pública, gratuita e de qualidade.

Relembremos, portanto, a histórica frase atribuída à Honestino Guimarães que, segundo sua mãe, foi proferida durante uma assembléia de estudantes na UnB:

“Podem nos prender, podem nos matar,
mas um dia voltaremos e seremos milhões...”


* Tatiana Matos Rezende é Mestre em História Política (UERJ) e Pesquisadora do Projeto Memória do Movimento Estudantil



Referências:
Depoimento de Maria Rosa Monteiro ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 14/07/05.
Depoimento de Norton Monteiro Guimarães ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 11/07/05.
ANISTIA. Publicação do Comitê Brasileiro pela Anistia, mar/abr/1979.
MONTEIRO, M. Rosa Leite. Honestino: o bom da amizade não é a cobrança. Brasília: Da Anta Casa Editora, 1998.
POERNER, Arthur. O Poder Jovem. 5ª ed. revista. Rio de Janeiro: Booklink, 2004.
ROMOGNOLI, Luis Henrique & GONÇALVES, Tânia. A volta da UNE: de Ibiúna a Salvador. Caderno História imediata n. 5. São Paulo: Alfa-Omega, 1979.

 

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