Declaração polêmica da reitora Suely Vilela incita os comandates da PM a dizerem ser possivel um retirada à força dos estudantes; UNE lembra que USP é palco da luta pela democracia e que o uso da truculência faz parte do regime militar
Após nova tentativa de negociação com o movimento de ocupação do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), a reitora Suely Vilela estipulou um prazo que não agradou os estudantes. Ela disse que vai esperar até a meia-noite desta segunda-feira (21) uma posição dos alunos sobre a desocupação do local.
De acordo com João Alex, representante dos estudantes no Conselho Universitário, a reitora não avançou nas negociações desde a última reunião que aconteceu nesta segunda-feira, na Escola Politécnica, com presença do senador Eduardo Suplicy (PT), convidado pelos estudantes para mediar as discussões. "As propostas iniciais não foram alteradas. Ainda hoje (21) acontece uma plenária dos estudantes para deliberar sobre o prazo de desocupação".
Também aconteceu na manhã desta segunda-feira uma reunião entre representantes da USP e a Polícia Militar, que estuda como fazer a reintegração de posse determinada pela 13º Vara da Fazenda Pública.
A PM diz que se os estudantes não desocuparem o prédio hoje (até meia-noite) será marcada mais uma reunião de negociação. O coronel Joviano Conceição Lima, comandante da Tropa de Choque da Polícia Militar, no entanto, chegou a dizer que a PM pode sim usar a força contra, alegando que a reintegração de posse imediata tem que ser cumprida:
"Se mesmo após diversas tentativas de negociação, não houver acordo, só tem um caminho: desocupação pacífica ou emprego da força necessária e equilibrada para a reintegração", declarou.
O presidente da UNE, Gustavo Petta, repudia qualquer possibilidade de intervenção truculenta da polícia. "É um absurdo, um ato de autoritarismo que relembra a ditadura militar. A ocupação é um movimento legítimo e respaldado por dezenas de assembléias e plenárias realizadas pelos estudantes. Qualquer tentativa de violência dentro da USP será uma afronta contra a democracia do país", ressaltou.
Para o diretor da UEE-SP e estudante de ciências sociais da USP, Vinícius Macário, essa medida é coercitiva. "A reitora está cortando o diálogo que até então vinha mantendo com os alunos e resumindo toda uma pauta de reivindicações a um possível confronto policial, coisa que não acontecia desde o período mais obscuro da ditadura militar", reforça.
Desde a manhã desta segunda-feira, há barricadas cercando o prédio da reitoria, armadas por alunos e funcionários dispostos a evitar qualquer tentativa de aproximação da Polícia Militar.
Até o fechamento desta matéria, às 22h, os estudantes realizavam um plenária no prédio da reitoria. A decisão de fazer uma reunião foi tomada após as declarações de Suely Vilela.
Com a polícia, não!
O aluno de direito Danilo Carlotti, representante dos estudantes, afirmou que o grupo só negocia com a reitoria. De acordo com ele, todos entendem que a ocupação é um movimento político e por isso não devem sofrer agressão ou negociar com a polícia.
Os alunos emitiram nota descartando a negociação com a PM. Eles argumentam que: "o que está sendo proposto não se trata de uma negociação. A única negociação possível é com a reitoria. Defendemos a autonomia da Universidade e negociar com a PM seria um ataque a esta autonomia que estamos defendendo. Por isso, não participaremos da reunião e mandaremos apenas representantes jurídicos para entregar oficialmente este comunicado e defender nosso movimento e nossas reivindicações".
O texto diz ainda que "É importante lembrar que reintegrações de posse com uso de força policial não ocorrem na USP desde os obscuros anos da ditadura militar, quando centenas de pessoas foram presas e torturadas por lutar pela democracia na Universidade e no país. Não vamos compactuar com uma intervenção que reinstitui práticas ditatoriais e, se houver uso da força policial, resistiremos."
Próximos passos
Os estudantes realizam ato amanhã (dia 22), às 9h, no prédio da Faculdade de Letras. No blog da ocupação, os alunos solicitam que todos que comparecerem estejam vestidos de preto, sob a alegação de que o ato terá caráter simbólico, no qual se manifestará Luto frente os decretos do Governo Serra.
A partir das 18h, acontece, em frente à reitoria, a Assembléia Geral dos Estudantes com o objetivo de deliberar sobre os rumos da ocupação. (Confira a pauta de reivindicações: http://ocupacaousp.blog.terra.com.br/?page=2)
No You Tube
Os bastidores da ocupação, que já dura 18 dias, vêm sido mostrados no site YouTube, onde os estudantes divulgaram diversos vídeos mostrando seus debates e assembléias. Além disso, as ações do movimento também são detalhadas no Blog da Ocupação da USP, criado pelos próprios alunos.
Entre outras coisas, os vídeos mostram uma feijoada realizada pelos alunos durante a ocupação, em homenagem ao Dia das Mães. Em outro vídeo, os alunos apresentam o Jornal da Ocupação, em que apresentam notícias criadas por eles, envolvendo o governador do Estado, José Serra, e a reitora da USP.
O que está em questão
» Decreto: Em janeiro, um decreto do governador José Serra criou a Secretaria de Ensino Superior, sob a qual ficam ligadas as três universidade estaduais paulistas. A partir de então, o secretário seria também o presidente do Cruesp, o conselho dos reitores. A medida causou polêmica, reitores reagiram e o governo recuou;
» Orçamento: Em outro decreto, a Secretaria da Fazenda instituiu que a execução orçamentária das universidades passasse a ser feita "em tempo real" pelas instituições. Até então, isso era feito uma vez por mês. Cada uma delas tem hoje uma conta bancária na qual recebe uma parte nos 9,57% do ICMS. Isso ficou mantido;
» Remanejamento: Outra questão se referia ao remanejamento de verbas, feito hoje a critério apenas das instituições. Havia uma dúvida em aberto sobre uma mudança no procedimento. Em ofício aos reitores, neste semana, o governo afirma que vai procurar uma maneira conjunta e que respeita a autonomia de lidar com o tema.
Da redação
Com Portal G1 e Estadão
Saiba mais:
18/05/2007 - Ocupação na USP: estudantes resistem e PM marca reunião para negociar retirada
10/05/2007 - Ocupação na USP: Estudantes se unem a protesto de professores
09/05/2007 - Ocupação na USP: após reunião com a reitora estudantes mantêm acampamento
13/02/2007 - DCE da USP também se manifesta contra medidas do governo Serra