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18 de maio de 2007
UNE 70 anos: EstudanteNet estréia especial sobre a história do movimento estudantil

Pesquisadoras do projeto Memória do Movimento Estudantil vão colaborar com textos que contarão um pouco da trajetória dos estudantes brasileiros, desde a fundação da UNE, em 1937, até os dias de hoje


No dia 11 de agosto, a UNE completa 70 anos de vida. Ao longo de todo este tempo, as páginas da história do país registraram diversos acontecimentos nos quais os estudantes tiveram papel central. Do posicionamento contra o Eixo e o Nazi-facismo, na II Guerra Mundial, ao movimento cara-pintada, que derrubou um presidente, os jovens nunca fugiram à luta. Nas ruas ou dentro das universidades, a UNE sempre se fez presente, seja para defender o patrimônio nacional ou reivindicar um país mais justo com educação pública e de qualidade.

Hoje, mais viva do que nunca, a entidade chega aos 70 em plena forma. Para reviver um pouco da sua história, o EstudanteNet passa a publicar, a partir desta sexta (18), um especial com alguns fatos que marcaram a sua trajetória.

O portal convidou duas pesquisadoras do Projeto Memória do Movimento Estudantil, que jogarão luz sobre alguns acontecimentos marcantes. Elas vão colaborar com textos que ajudam a compreender a história recente e inacabada de nosso país. O especial vai lembrar a campanha "O Petróleo é nosso" (1947), pincelar a gestão de Aldo Arantes e a criação do CPC da UNE (1961), trazer um perfil do ex-presidente da UNE e desaparecido político, Honestino Guimarães; lembrar a reconstrução da entidade (1977), o impeachment de Fernando Collor, e episódios dos dias de hoje.

Para estrear a série, o artigo "Alunos fora do eixo", da doutoranda em História Social e coordenadora-técnica do Projeto, Angélica Müller, destrincha a atuação dos estudantes durante a Segunda Guerra Mundial, quando os jovens ganharam as ruas e conquistaram a adesão da população no posicionamento contra o Eixo (grupo formado por Alemanha, Itália e Japão).

A outra colaboradora dessa empreitada será Tatiana Rezende, especialista em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Juntas, elas mostrarão que o Brasil de hoje deve muito a luta de seus estudantes e, certamente, não seria o mesmo sem a participação deles.

Leia o primeiro texto do Especial "UNE 70 Anos":


Alunos fora do Eixo
Durante a Segunda Guerra Mundial, estudantes brasileiros ganharam as ruas e conquistaram mais do que a esperada adesão da população

* Por Angélica Müller

O Correio da Manhã, em sua edição de 1º de julho de 1942, anunciava um ato de repúdio ao fascismo que se espalhava pela Europa e se estendia para os lados de cá do Atlântico. O jornal definia a passeata a ser promovida dali a poucos dias por estudantes universitários como uma "reafirmação da fé no destino da democracia" e a edição do dia seguinte previa mais de doze mil jovens nas ruas da capital. O posicionamento contra o Eixo (grupo formado pela Alemanha, Itália e Japão), em plena Segunda Guerra Mundial, foi sem dúvida o primeiro grande momento protagonizado pela UNE – como é conhecida a União Nacional de Estudantes do Brasil, entidade representativa da classe estudantil que fora criada pouco antes, em dezembro 1938.

No início da Guerra, o governo de Getúlio Vargas anunciara sua "neutralidade" frente ao conflito. Mas a verdade é que internamente dois grupos mediam forças no país: Osvaldo Aranha, Ministro das Relações Exteriores, o Ministro da Justiça, Arthur de Souza Costa, além do Prefeito do Distrito Federal, Henrique Dosdworth, e do Interventor do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto, estavam do lado dos países Aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos). Já o Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra e seu Chefe de Polícia, Filinto Müller, simpatizavam com os países do Eixo.

Em 11 de junho de 1940, a bordo do encouraçado Minas Gerais, Vargas faz um discurso para a cúpula da hierarquia militar brasileira. Sem referência direta à Alemanha, o presidente, no entanto, elogia as "nações fortes que se impõem pela organização baseada no sentimento da Pátria e sustentando-se pela convicção da própria superioridade". A repercussão foi imediata, levando o ministro Osvaldo Aranha a se pronunciar a favor dos Aliados.

Mas durante o ano de 1941, o país progressivamente se integra à órbita norte-americana. Esse alinhamento se completa durante a III Conferência de Chanceleres das Repúblicas Americanas, realizada no Rio de Janeiro depois da entrada dos Estados Unidos na guerra (em decorrência do ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor, no Havaí). Ao final da reunião, o Brasil rompe relações políticas, diplomáticas, comerciais e militares com o Eixo.

Dentro desse novo quadro, os estudantes brasileiros, com amparo do ministro Osvaldo Aranha, organizaram uma grande passeata, marcada para o dia 4 de julho de 1942, não por acaso dia da independência dos Estados Unidos. José Gomes Talarico, na época Presidente da Confederação Brasileira de Desporto Universitário (CBDU), relembra que a ajuda para a manifestação vinha de todas as partes. Além de vários embaixadores, as sociedades carnavalescas, por exemplo, emprestaram seus carros e alegorias. Os jornais Correio da Manhã e O Globo também aderiram, numa clara posição antifascista. Daí as inúmeras reportagens apresentadas pelo primeiro jornal sobre a passeata, desde sua organização.

A passeata contou com a participação de milhares de jovens que combateram a política traçada pela Alemanha, Itália e Japão. Hélio de Almeida, presidente da UNE em 1942/43, relata que procuraram o chefe de polícia, Capitão Filinto Muller, para pedir licença para a realização da passeata, que iria da Praça Mauá até o Palácio Monroe. A permissão foi negada, pois o capitão considerou o ato subversivo. O passo seguinte foi procurar o Ministro interino da Justiça, embaixador Vasco Leitão da Cunha, um democrata que, inclusive, já servira na Embaixada do Brasil em Washington. Contrariado com a atitude de seu subordinado hierárquico, o embaixador não só deu a permissão, como prometeu que a polícia não interviria no assunto. Hélio de Almeida conta que, na véspera da passeata, Filinto Müller foi ao gabinete do ministro para reforçar sua oposição: "Houve uma discussão que chegou às vias de fato. Foi um escândalo tremendo e depois da passeata, realizada com pleno sucesso, o Dr. Getúlio Vargas, num momento de lucidez, demitiu o senhor Filinto Müller".

A discussão entre Vasco Leitão e Filinto Müller acarretou a prisão do ex-Chefe de Polícia, determinada pelo próprio Vasco Leitão. Além do Chefe de Polícia, o Ministro da Justiça, Francisco Campos, e o Chefe do DIP, Lorival Fontes, foram exonerados dos seus cargos, em 17 de julho daquele mesmo ano.

No dia seguinte à passeata, a primeira página do Correio da Manhã estampava: "Unidos em vibrante demonstração de civismo, os estudantes levaram a efeito, ontem, um desfile em que significaram sua condenação política do Eixo". O periódico ressaltava os "magníficos exemplos de patriotismo [...] conhecidos através das campanhas desenvolvidas no terreno político pelos jovens que sabem amar a Pátria e defendê-la em qualquer emergência". Reconhecia nos estudantes "uma força indestrutível, unida e coesa em torno de princípios democráticos que sempre nortearam os ideais de nossos maiores".

Várias passeatas se seguiram e, em 18 de agosto, na Praça da Sé, em São Paulo, logo após o afundamento de cinco navios brasileiros pelos alemães na costa dos Estados da Bahia e Sergipe, nova grande manifestação foi planejada pelos estudantes de Direito. No mesmo dia, os estudantes universitários fizeram uma investida contra o Clube Germânia do Rio de Janeiro.

Em 22 de agosto, após uma reunião ministerial, o Brasil declarou guerra aos países do Eixo. Com a guerra declarada, a política de nacionalização de Vargas foi posta em prática com o intuito de controlar os núcleos de origem alemã, italiana e japonesa no país. As sociedades e as escolas eram os principais focos. O Clube Germânia, localizado na Praia do Flamengo n. 132, foi fechado pelo governo. A ocupação do Clube pela UNE tem versões um pouco distintas, segundo revelam os depoimentos de José Gomes Talarico e Hélio de Almeida.

Segundo Talarico, o Presidente da UNE, Paes Leme, escreveu uma petição pedindo a ocupação do Clube Germânia. De posse do documento, os estudantes foram até o presidente Getúlio Vargas que, após a conversa, despachou favoravelmente o pedido. A delegação foi então a Gustavo Capanema, ministro da Educação: "[fomos pedir] que ele designasse uma comissão para fazer o levantamento, que era riquíssimo! Quadros, bronzes, o que você pode imaginar tinha o clube..."

A partir desse momento, a UNE e as demais entidades estudantis instalaram-se no Clube Germânia: "o primeiro andar foi dado ao Diretório Central, inclusive para o restaurante, os locais para prazeres. O segundo andar para UNE e o terceiro para a CBDU".

Hélio de Almeida apresenta outra versão. Para o sucessor de Paes Leme, o grupo, composto por ambos, mais Talarico e dois filhos de Oswaldo Aranha, o Vavau Aranha e o Euclides Aranha Neto, procurou os diretores do Clube e deu-lhes um prazo de cinco dias para desocuparem o prédio. Ao fim deste prazo, encontraram o edifício inteiramente desimpedido e fizeram a ocupação. Ainda segundo Hélio de Almeida, somente depois da ocupação os dirigentes foram até o ministro, que cedeu as instalações do Clube à UNE, sob o controle de um administrador, nomeado pelo ministério.

Para além das versões apresentadas, o importante a destacar é o status que a entidade adquiriu, principalmente depois das manifestações anti-Eixo. Passando pelo pedido a Vargas ou pela ocupação direta da sociedade alemã, a UNE evidenciou sua força política no contexto do Estado Novo, tanto que o prédio ficou ocupado pela entidade até seu incêndio, em 1964, pelos militares e, hoje, às vésperas de comemorar seus 70 anos, a UNE está em processo de retomada do seu terreno.

Vale observar que, a partir de então, as reivindicações dos estudantes, restritas anteriormente ao círculo universitário nos primeiros anos de vida da entidade, ganharam dimensão e adesão do povo, que também saiu às ruas para lutar pelo posicionamento do país contra os governos do Eixo. O movimento estudantil organizado saía às ruas para, pela primeira vez, ganhar peso e respaldo da sociedade brasileira.


* Angélica Müller é doutoranda em História Social pela USP, coordenadora-técnica do Projeto Memória do Movimento Estudantil e autora de Entre o Estado e a Sociedade: a política de juventude de Vargas e a fundação e atuação da UNE durante o Estado Novo, Rio de Janeiro: UERJ, 2005.

** Texto originalmente publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional (maio/20007)

*** Na foto, estudantes fazem um esquete bem humorada para protestar contra Hitler

 

Saiba mais:
Projeto Memória do Movimento Estudantil: www.mme.org.br
Revista de História: www.revistadehistoria.com.br


 
 



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