Cinema, teatro, samba e literatura. Tem para todos os gostos. Basta chegar e se acomodar no mais novo espaço cultural do Rio de Janeiro
Sem holofotes, glamour e com poucos recursos, o acampamento dos estudantes na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, aos poucos vai ganhando generosas doses de cultural. Espetáculos improvisados e atividades interativas, promovidos pelos 100 jovens que continuam no local, agregam a arte aos seus conceitos políticos.
Foi assim, como numa brincadeira, que surgiu a idéia de montar a releitura da clássica peça Saltimbancos, criada por Chico Buarque, na década de 70, a partir da adaptação do conto dos Irmãos Grimm, "Os Músicos de Bremen", com texto do dramaturgo italiano Sérgio Bardotti.
O excesso de criatividade estimulou os jovens atores a realizar uma apresentação, aberta ao público, que deve acontecer nessa terça feira (27), às 18h30. Para o diretor do grupo teatral do acampamento, Paulo Roberto Pinheiro, mais conhecido como Pulga, a escolha do título surgiu pela consciência política e social, sugerida em mensagens subliminares, como no verso que diz: "Todos somos fortes, não há motivos para temer".
"Procurei algo que se identificasse com a situação que vivemos aqui hoje e esse espetáculo se aproxima muito de nós, ao propor o conhecimento das divisões de classe, conceitos sociais e convivência coletiva", diz.
Com apenas 14 dias de ensaio, foi montada a peça musical de linguagem lúdica com quatro personagens, que fogem da repressão e censura de seus donos e representam, respectivamente, alguns status da sociedade: a gata, por exemplo, desempenha a figura da mulher na conquista de sua autonomia; o cão condiz ao papel do militar, com todos os deveres e postura hierárquicos; o jumento é a classe operária, que desenvolve o serviço braçal; e a galinha traz a imagem da empregada doméstica, uma profissional do lar que cria valores afetivos com seus patrões.
Os animais se unem e, juntos, incorporam o sonho comum a todo ser humano: derrotar toda a forma de tirania.
Arte para todos os gostos
O diretor do Instituto CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte), Tiago Alves, como responsável pelas atividades culturais do local, acredita que a arte preenche os espaços e lacunas, promovendo, aos poucos uma ocupação de fato. "Considerando todas as questões políticas pelas quais estamos aqui, não podemos deixar de destacar também a importância das atividades culturais que, certamente, estimulam as relações de convivência em grupo", diz.
Num ateliê coletivo, os membros do acampamento desenvolvem oficinas de artesanato em geral, capoeira e circo. A secundarista Iara Cassano acha válido toda essa maratona cultural, pelo fato de manter os estudantes ocupados. "A galera aos poucos vai encontrando uma maneira de se entreter. E esse é um aspecto muito positivo, pois conforme o dito popular: cabeça vazia, oficina do diabo", avalia.
Para quem gosta de poesia e expressão corporal, o sarau, realizado todas as segundas-feiras, no espaço do acampamento, é uma ótima pedida. A estudante carioca, Mia Vieira, acredita que essa é uma ótima oportunidade de interação e divulgação de arte.
Mia diz que tem afinidade com a arte de rua em geral, e releva que "pinta o sete", explorando todos os seus dons. Apesar de gostar de várias vertentes da arte, ela confessa ter mais afinidade com poesia. "Ao explorar as estrofes, é possível desenvolver um trabalho de expressão corporal, transmitir emoção, além de criar um senso coletivo, com os ocupantes", diz.
Em sua forma de expressão, Mia descreve o acampamento, numa linguagem poética, como em "Art-liquidifica-dor": Arte bagunça cerebral / Aurora Boreal / Psicodelia psicografada / Portas / Entrada e saída / Atuamos na peça da vida.
Cinema? Por que não?
Amantes da sétima arte também são bem vindos no acampamento, onde todas as terças, é realizada uma sessão de cinema. A atividade faz parte do Cine CUCA, que propõe a exibição de filmes ligados a uma temática, escolhida previamente.
Segundo o diretor de cultura do CUCA, Luis Parras, nesse mês, em razão do Dia Internacional da Mulher, o foco é o universo feminino. O título que vai pro telão, nessa terça-feira, às 20h30, é Copy Shop, dirigido pelo australiano Virgil Widrich.
A história gira em torno de um homem que, depois de xerocar acidentalmente sua mão, descobre que a terra está repleta de cópias dele. Lutando para provar sua individualidade, o tal sujeito mergulha em um verdadeiro pesadelo kafkaniano.
Parras explica que a proposta do Cine CUCA é fomentar uma discussão após a exibição e ressalta que, uma vez por mês, haverá a visita de um cineasta para alimentar o debate.
"Em março, temos a intenção de trazer Dandara, que foi a primeira cineasta negra do país", diz.
Campeonatos de WAR: uma guerra pacífica
Uma febre que aos poucos toma conta do acampamento: são os campeonatos de WAR, responsáveis pela mobilização de competidores em massa. Afinados com o jogo de tabuleiro, que trabalha o raciocínio, através de táticas e guerra, eles chegam a jogar durante quatro horas ininterruptas.
O secundarista Marcos Tagliati, como jogador assíduo, acredita que as partidas estimulam o raciocínio medido pelas conseqüências futuras. "É interessante ver como as pessoas se envolvem com o jogo, relacionando a utopia com a vida real", diz.
Quem não gosta de samba?
Ao som da mais pura batucada e solo de bandolim, o acampamento encerra a semana com chave de ouro, numa roda de samba de raiz, realizada todos os domingos.
Com a música envolvente, bem ritmada pela poesia que se intensifica na atmosfera do local, é impossível não cair no samba.
AGENDA CULTURAL
Segunda-feira
20h- Sarau – apresentação livre de poesia e expressão corporal.
Terça-feira
18h30 - Peça Saltimbancos
19h – Cine CUCA – exibição do filme Copy Shop de Virgil Widrich.
Domingo
17h- Roda de Samba e Raiz
Serviço
Onde? Praia do Flamengo, 132 Rio de Janeiro-RJ
Quanto? Todos os eventos são gratuitos
Lígia Hipólito