Terreno da UNE na Praia do Flamengo recebe a visita dos presidentes do Flamengo e do América para a realização do "Ato de Moralização do Futebol"; deputado estadual Roberto Dinamite também particpou

Futebol e política ninguém discute. Certo? Não. Para o movimento estudantil, esses são dois temas de grande interesse da população e merecem sempre estar na pauta, como estiveram na manhã desta terça (27), em ato promovido no terreno da UNE e da UBES, na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Representantes de clubes do estado e cerca de 150 jovens protestaram contra as denúncias de irregularidades relacionadas à Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj).
Participaram os presidentes da UNE, Gustavo Petta; do Flamengo, Márcio Braga; do América-RJ, Reginaldo Mathias e o deputado estadual Roberto Dinamite (PMDB-RJ), ex-jogador e pré-candidato da oposição às eleições do Vasco da Gama.
Nos últimos dois anos, uma série de escândalos envolveram a Ferj, desde evasão de renda até o descumprimento do Estatuto do Torcedor e manipulação de resultados. Os representantes dos clubes, que já tinham levado as denúncias ao ministro do Esporte, Orlando Silva, no último dia 15, ganharam também o apoio do movimento estudantil. Com animação, os jovens entoavam: "Futebol tem que mudar, eu tô na luta pra moralizar".

Aproveitando a animação das diferentes torcidas presentes, o presidente do América-RJ (foto esq.)brincou com os estudantes: "Temos a maior torcida presente aqui, porque o América é o segundo time de todos os cariocas". Apesar da irreverência, Reginaldo Mathias disse que "futebol é uma assunto muito mais importante do que algumas pessoas supõem" e, por isso, o ato realizado pela UNE merece total atenção, já que representa o início de um grande movimento pela reorganização do esporte mais popular do país.
Manifesto
"Queremos que esse ato seja um começo e que possa repercutir no resto do Brasil. Essa será uma das pautas de nosso interesse a partir de agora", disse o presidente da UNE, Gustavo Petta. Ele também leu o manifesto da entidade pela moralização do esporte. Um trecho do texto defende "o futebol como um dos bens culturais mais importantes do cenário nacional". Em outra parte, a UNE justifica porque angariou esta luta junto aos clubes cariocas: "Por toda a sua relevância cultural e econômica, a UNE vem a público pedir a moralização do futebol. Não podemos fechar os olhos para os problemas de uma atividade tão ímpar". (leia abaixo a íntegra do texto)
O presidente do Flamengo (foto) agradeceu o apoio dos estudantes: "Queremos que este seja um grito para provocar o debate direto, livre e democrático sobre os problemas que o nosso futebol enfrenta". Ele reforçou que as denúncias já foram feitas para o governo e o poder judiciário e que, nesse momento, o apoio da sociedade é fundamental. "Se nós queremos organizar uma Copa do Mundo, temos que começar arrumando o nosso próprio futebol", ressaltou.
Mais acesso
Os jovens gritaram palavras de ordens pedindo a redução do preço dos ingressos nos jogos e o cumprimento das leis de meia-entrada para estudantes. O deputado estadual Roberto Dinamite (foto esq.) respondeu, fazendo um apelo aos clubes para que garantam preços mais acessíveis. Ele também prometeu levar ao governador do estado, Sérgio Cabral, a proposta de subsídios do governo para redução do valor dos ingressos.
Segundo a diretora de comunicação da Associação Metropolitana dos Estudantes do Rio (AMES), Gabrielle D’Almeida, que participou da organização do ato, é fundamental aumentar o acesso do jovem carioca ao esporte: "Queremos formar o estudante como cidadão, através da cultura e do esporte. Já tínhamos levantado essa questão no dia 22 ( Dia Nacional de Luta pelo Passe Livre) e, neste ato do futebol, a mobilização foi grande novamente", afirmou.
Presidente do Flamengo elogia retomada
Antes de participar do ato pela Moralização do Futebol, o presidente do Flamengo (foto dir.) falou com exclusividade ao portal EstudanteNet. Entusiasta do retorno das entidades a seu lugar histórico, Márcio Braga contou que, em seus tempos de militante, chegou a apanhar da polícia em frente à sede da UNE.
"Foi na época do governo Getúlio, em 1952, botamos cadeiras na frente do trânsito para protestar contra o preço dos bondes. A polícia baixou o pau. Este lugar sempre foi uma referência, era o centro dos estudantes", disse.
Braga também relembrou casos do clube: "Temos uma longa história aqui. Assim como os estudantes, o Flamengo nasceu aqui, no outro quarteirão, quando o esporte mais popular do estado ainda era o remo. Aquele terreno é muito semelhante a esse que os estudantes agora recuperaram", contou.
Leia abaixo a íntegra do manifesto da UNE pela moralização do futebol:
UNE: pela moralização do futebol brasileiro
Nos traços marcantes da cultura brasileira, sem dúvida alguma, o futebol tem um lugar de destaque. O esporte coletivo mais praticado no mundo teve, nos trópicos, a acolhida da ginga, do batuque e do jeito moleque, fazendo de nós uma referência mundial.
Já se vão 5 títulos mundiais com times e esquemas táticos inesquecíveis, e uma constelação de estrelas –de Didis, Garrinchas e Pelés, passando por Galinhos, Dinamites e Tostões, até chegar a Romários, Ronaldos e Adrianos– fenômenos, reis e imperadores do mundo da Bola. Fizemos nós por merecer o título, Brasil: o país do futebol!
Esporte que atinge todas as cores, sexos, classes sociais, credos e religiões; e chega a todos os cantos desse imenso país. Enfeitiça homens e mulheres, adultos e crianças. Altera o cotidiano, muda a rotina, marca a vida. Leva alegria aos descontentes, faz o coração pulsar mais forte e empurra ao desespero os que a vitória nega o seu sorriso. Transporta-nos a outro mundo em 90 minutos, onde a terra é verde.
Encarnado na alma do povo, o futebol é um dos bens culturais mais importantes do cenário nacional. É um dos traços que definem uma cultura tão difusa como a nossa, um meio de vida saudável para os inúmeros praticantes anônimos e um grande motor da economia. São milhões que giram em torno do planeta bola que envolvem jogadores, clubes, torcedores, federações, a mídia, patrocinadores, fabricantes de materiais esportivos, entre outros.
Por toda essa relevância cultural e econômica, a UNE vem a público pedir a moralização do futebol brasileiro. Não podemos fechar os olhos para os problemas de uma atividade tão ímpar. Precisamos que mudanças ocorram para que o nosso futebol tenha um tratamento digno de sua altura.
O futebol do Rio de Janeiro precisa dar exemplo e contribuir para a moralização nacional do esporte. Assistimos, não de hoje, a clubes e federações serem administrados incorretamente, atletas não valorizados e um verdadeiro desrespeito ao Estatuto do Torcedor, chegando-se a um abuso de preços que afastam o torcedor com menor poder aquisitivo dos estádios. Há ainda o fator da violência nos estádios, trazendo uma insegurança constante aos amantes do esporte.
Recentemente, acompanhamos o caos que se instalou na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ). A falta de legitimidade dos dirigentes, suspeitas de manipulação de resultados, má gestão e malversação de recursos têm sido ampla e recorrentemente noticiados pela imprensa, o que prejudica a imagem do futebol e afeta diretamente seu potencial gerador de emprego e renda.
Todos esses motivos nos levam a levantar a bandeira da moralização do futebol, assim como em outros momentos em que estivemos envolvidos em causas de interesse nacional. Vamos pressionar a CBF, as autoridades governamentais, judiciárias e desportivas, cobrando maior transparência nas decisões da Ferj e punição para aqueles que usurparam de um bem público. Passos que devem nos levar a um futebol mais bem administrado e organizado, melhor aproveitado enquanto bem econômico e consolidado enquanto esporte nacional vencedor, dentro e fora dos gramados.
Rio de Janeiro, 27 de março de 2007
União Nacional dos Estudantes
Artenius Daniel