Depois de quinze dias na estrada, Caravana da UBES tira um tempinho para respirar, mas já planeja um novo roteiro para a segunda fase

Um grupo de jovens. Uma companhia de teatro. Malas e bagagens nas costas. Cinco mil quilômetros rodados em 15 dias. O relato mais parece o de uma trupe circense em viagem pelas estradas. Mas foi nesse ritmo que a "Caravana UBES em Defesa do Passe Estudantil" completou a sua primeira fase, no último dia 22 de março, levando a cinco capitais do país, muita cultura e informação.
Um verdadeiro intercâmbio cultural se intensificava entre os passageiros, que conviveram cerca de 100 horas a bordo do ônibus. Os costumes paranaenses, a ginga nordestina, o sotaque paulista e o jeitinho mineiro davam um tempero especial à atmosfera itinerante. A bordo, cinco diretores da UBES, incluindo o presidente, Thiago Franco; integrantes da Cia. paranaense Teatratividade e uma equipe de documentação.
Partindo do Rio de Janeiro no dia 7 de março, o "UBES-móvel", um ônibus todo estilizado com adesivos e adaptado para agüentar a jornada, pediu passagem e passou pelo Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e São Paulo. Em cada cidade, promoveu em diversas escolas o debate sobre o tema do passe estudantil, passeatas e apresentações teatrais.
Depois de completar o seu trajeto, a Caravana retornou ao Rio de Janeiro, onde a UBES realizou o Dia Nacional de Luta Pelo Passe Livre, reunindo cerca de 5 mil estudantes na capital carioca. Outras capitais também foram tomadas pelos estudantes. (Saiba mais)
Em cada cidade, uma particularidade
Para se ter uma idéia do custo do transporte na vida do estudantes, pesquisa recentemente divulgada pela Fundação Getulio Vargas mostrou que o gasto com ônibus das famílias que ganham até dois salários mínimos representa quase 11% do orçamento. O estudo foi realizado entre os anos de 2004 e 2006 com famílias que ganhavam de um a 33 salários mínimos. Nestes três anos, as passagens subiram o dobro da inflação.
Entre as cidades visitadas, o Rio de Janeiro se destaca por ser um dos únicos municípios do país que oferece transporte gratuito aos alunos de escola pública. Contudo, a UBES luta para que o benefício seja estendido para a linha intermunicipal, sem restrições de horários e uso ilimitado, conforme explica o presidente da entidade, Thiago Franco. "Esse é um direito do estudante e nossa batalha só vai acabar quando a vitória for concretizada", disse.
Já em Salvador, é concedido somente o direito à meia passagem. E as capitais mineira e paranaense não dispõem de nenhum benefício para o transporte estudantil, o que intensificou ainda mais a luta da UBES nestas cidades.
Perspectivas para próxima fase
Ao todo, cerca de 10 mil estudantes participaram das atividades promovidas pela Caravana. O secundarista mineiro, Julio César Lemos, foi um deles. "Precisamos de atitudes como essa, que nos sirvam de incentivo para lutar. Vamos fazer a revolução nos transportes aqui em Belo Horizonte. E, se não nos concederem o direito ao passe livre, vamos pular a roleta, porque não temos dinheiro para pagar a passagem" disse.
Segundo a avaliação de Thiago, a primeira fase foi bastante positiva, tendo em vista que levou a discussão ao conhecimento das autoridades e população. "Conseguimos mostrar a milhares de estudantes das cinco cidades visitadas que o passe livre, além de ser uma necessidade de todos nós, pode ser uma conquista real. Com muita luta e garra vamos conquistá-lo em todo o Brasil", disse.
Thiago acrescenta que, em sua segunda etapa, a caravana deve passar por outras capitais do norte e nordeste, ainda esse ano. "Vamos intensificar o debate. Aprendemos bastante nessa primeira fase, os ajustes serão feitos e estamos preparados para percorrer o resto do Brasil. Creio que a Caravana cumprirá o seu papel e convencerá toda a sociedade brasileira que defender o Passe Livre é defender o real acesso à educação", afirmou.
Opinião dos passageiros
O diretor de Relações Internacionais da UBES, Marcelo Diniz, destaca um fato que atinge diretamente a juventude ao dizer que 40% da evasão escolar é decorrente da falta políticas públicas para o transporte estudantil. "Garantir o direito ao passe livre é, sem dúvida, garantir o acesso à formação e cidadania dos jovens brasileiros", ressalta.
O primeiro vice-presidente, Allan Borges, acrescenta que a conquista do benefício do passe livre integral permite a extensão da vida social, o que tende a diminuir os dados de exclusão entre a juventude.
Marcos Santos, primeiro diretor de Relações Internacionais, alerta para os altos valores de tarifas cobrados pelo transporte coletivo. "Os aumentos superam o reajuste do salário mínimo e muitas vezes a inflação. E a qualidade é defasada, não corresponde ao preço que pagamos", criticou.
O diretor de grêmios da UBES, Altanir Morais, acredita que a caravana vem para complementar à ampla plataforma de lutas da UBES. Ele alerta sobre a necessidade de retomar essa batalha histórica contra os "tubarões do transporte coletivo", uma alusão à campanha da UNE contra os donos das universidades particulares. "É preciso manifestar o poder da massa para enfrentar a ditadura desses grupos que detêm esse poder econômico. Ou tem passe livre, ou pulamos a roleta", desafiou.
Lígia Hipólito