Nesta segunda-feira (4), a UNE deu o pontapé inicial para desencadear um amplo movimento nacional por mudanças na política econômica do país. Num ato público realizado na Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, a entidade reuniu –entre lideranças dos movimentos sociais, representantes de grêmios escolares, DCE’s e DA’s–, alguns convidados: o economista e professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzo; o também economista e professor da FGV e da USP, Paulo Nogueira Batista; a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ); o deputado Ivan Valente (Psol-SP), o membro da direção nacional do MST, João Paulo Rodrigues; e o presidente da UBES, Thiago Franco.
Reunidos na histórica "Sala dos Estudantes", lendário palco de lutas estudantis, as mais de 250 pessoas presentes –sendo um ônibus vindo do Paraná e outro de Minas Gerais só para o ato– puderam compartilhar da opinião dos expositores sobre os rumos que o governo Lula deve tomar nessa próximo período no que diz respeito à condução da agenda econômica.
Segundo o presidente da UNE, Gustavo Petta, esse ato organizado pela UNE em conjunto com a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), reúne um campo de intelectuais e lideranças políticas que lutam para influenciar na correlação de forças dentro do governo Lula. "Esse movimento é um embrião para pressionar o governo a efetuar mudanças mais significativas na política econômica", disse.
Na sua opinião, os juros poderiam ter tido caído mais, já que a redução iniciada em setembro do ano passado não conseguiu fazer com que o capital especulativo migrasse para o setor produtivo. A taxa Selic está em 13,25% ao ano e deverá ser mantida pelo menos até a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, prevista para o dia 24 de janeiro de 2007.
Petta ainda ironizou os diretores do Banco Central, ao compará-los a um grupo de "estagiários" das grandes corporações. "Quase todos eles, depois de passar pelo Banco Central, arrumam os seus empregos nas mega corporações financeiras. Eles não têm compromisso com o desenvolvimento do país", criticou.
Pressão permanente
O economista Luiz Gonzaga Beluzzo defendeu uma reflexão permanente sobre o tema da mudança na economia. Para ele, a democracia exige essa constante mobilização, já que "é por meio dela que as boas idéias ganham espaço dentro da sociedade".
Beluzzo disse que esta disputa travada entre aqueles que querem uma continuidade da política econômica, com exclusão e baixo crescimento, é além de um confronto de idéias "uma batalha política". "Temos que pensar formas alternativas às que estão aí propostas por esta equipe econômica. Por isso, é necessário esse questionamento permanente", disse.
O deputado Ivan Valente se posicionou de modo semelhante a Belluzzo, ao defender a necessidade de a sociedade se mobilizar de forma organizada para que mudanças concretas ocorram. ''Não é possível fazer mudanças sem conflito. Nessa hora é preciso relembrar Che Guevara e não perdermos a capacidade de nos indignar'', afirmou.
O presidente da UBES, Thiago Franco, endossou essa opinião. ''Como há pressão de todo lado nessa questão da política econômica, a gente precisa nos organizar e pressionar do lado de cá, de forma unificada - pois do outro lado estão o mercado, a mídia e todo o poder econômico, que não querem saber de mudanças'', defendeu.
Ambiente favorável
Numa análise geral sobre o cenário político brasileiro, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. disse que as condições atuais propiciam um "ambiente política favorável" para se propor mudanças.
Na sua opinião, o mercado não influencia mais tanto as decisões políticas, como fez no início do governo, quando havia uma onda de incerteza no ar. Apesar de considerar o desempenho da economia "pífio", ele acredita que Brasil hoje tem um cenário que apresenta bons resultados. "O segundo mandato pode significar o começo de uma nova etapa da história da política econômica brasileira, que descarte de uma vez por todas o continuísmo da era FHC", avaliou.
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, defendeu a necessidade de se criar uma unidade sólida, formada por todos os movimentos sociais do país e pela sociedade organizada, a fim de pressionar o governo federal pelas mudanças. Ele teme que, sem dispor de propostas concretas, as forças conservadoras do país aproveitarão a primeira brecha para impedir qualquer mudança significativa na política econômica.
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) lembrou que a unidade é importante, mas destacou a necessidade de atrair mais forças políticas para essa luta. ''Há um programa mais avançado para o segundo mandato, mas, para enfrentar a mídia e as instituições financeiras, não bastam força política e sustentação institucional. Temos que formar uma frente realmente ampla de brasileiros, em suas mais variadas organizações, para lutar por mudanças concretas'', afirmou.
Próximo passo
As idéias deste primeiro encontro entre as lideranças dos movimentos sociais serão aprofundadas durante um seminário que deve ocorrer no começo de 2007, organizado pela UNE em parceria com a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), "Para aprofundar e dar mais consistência às propostas de mudança", informa Petta. Segundo ele, ainda serão organizadas novas intervenções em todo o país. "Vamos levar essa reivindicação a todo o país", disse.
Da Redação
Com informações do Vermelho