Juventude. Nem é preciso mais do que essas nove letras para entender o que sentia o secundarista Édson Luís naquele março de 1968, quando virou mártir dos estudantes e da sociedade brasileira na resistência contra o regime militar após ser assassinado. Com essa palavra se entende todas outras do jovem Apolinário Rebelo discursando para a multidão que pedia as "Diretas Já" no país. Certamente, foi por meio dessa palavra que Mauro Panzera, um dos líderes estudantis dos "cara-pintadas" no Fora-Collor, chegou à frase: "A UBES é uma rebeldia conseqüente"

Nessa terça (31), a rebeldia juvenil brasileira comemora. Há exatos 25 anos, em 1981, estava renascendo a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, a UBES, após décadas de opressão da ditadura, quando todas representações dos jovens foram violentamente extintas.
A sede da UBES e também da UNE foi invadida e incendiada já no dia primeiro de abril de 1964, mostrando a determinação mais do que imediata daquele golpe em combater a juventude. O jornalista e escritor Arthur Poerner, em seu livro "O Poder Jovem", descreve assim aquela ação: "Um paroxismo de ódio que escapa o terreno puramente político para cair na esfera psiquiátrica".
Seguiram-se décadas de perseguições, torturas e todas as formas possíveis de cerceamento ao movimento estudantil. A morte do secundarista Édson Luis aconteceu no auge da repressão, o ano de 1968. Curiosamente, ficou este marcado como o ano da juventude em todo o mundo.
Somente em 1981 com o enfraquecimento dos militares, a UBES conseguiu se reerguer. A consolidação aconteceu com muito esforço, em Curitiba. Um antigo galpão, sem teto, banheiros, salas e cadeiras, serviu de base para as discussões. No local, apenas muita poeira. Muitos estudantes foram para o sul do país sem dinheiro para voltar. Pedágios foram armados para levantar recursos. A polícia chegou a invadir o Congresso com a cavalaria. Mesmo com tantas dificuldades, a UBES renasceu.
Desafios ainda urgentes
Atualmente, 25 anos após a sua reconstrução, a UBES ampliou suas bandeiras e encontra outros desafios, diferentes daqueles da ditadura, mas ainda urgentes. É o que explicou o mineiro Thiago Franco, atual presidente da entidade, após assumir no início do ano: "A UBES representa hoje 55 milhões de estudantes, num país com diferenças de desenvolvimento regionais, com fortes contrastes entre o interior e a capital, com uma rede escolar diversificada (a escola pública – municipal, estadual e federal -, a privada, a técnica). Então, as dificuldades são várias".
Representar os interesses dos jovens mesmo em tempos democráticos não é tarefa fácil. Algumas das principais bandeiras da UBES atualmente são a implementação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Básico); o Passe Estudantil para garantir o acesso dos estudantes ao transporte público, evitando a evasão escolar; a meia-entrada para estudantes em eventos culturais e a reserva de vagas em universidades federais para alunos da rede pública.
A ampliação do debate nas escolas brasileiras e o fortalecimento dos grêmios também são prioridades. "O problema do bebedouro ou do giz que falta, ou a greve dos professores que estão sem salário digno estão relacionados com a política estadual, municipal, a política educacional do país", lembra Thiago.
Hoje, já reconstruída e sólida, a UBES também participa da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), o que, segundo Thiago, foi uma grande conquista. "As entidades representativas entraram num entendimento de que era necessário jogar um maior papel, fomentando a mobilização do povo brasileiro pelas mudanças", diz.
Entrevista com ex-Presidentes
Em comemoração aos 25 anos da reconstrução da UBES, o portal EstudanteNet está entrevistando ex-presidentes de diferentes períodos de 81 até aqui. Confira as entrevistas já publicadas de Apolinário Rebelo/1983, Delcimar Pires/ 1984, Joel Benin/1993, e Juana Nunes/1998
Da Redação