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25 de agosto de 2006
África-Brasil: um encontro dentro da Universidade

A 5ª Bienal de Arte e Cultura da UNE, com o tema "Brasil-África, um rio chamado Atlântico" vai celebrar as semelhanças e os laços indissolúveis que temos com o continente africano. A distância é geográfica, mas dentro da universidade, a proximidade Brasil-África está na história, na música, na estética e também na pessoa de todos africanos intercambistas que fazem parte da vida acadêmica em instituições de ensino de todo Brasil.

Na Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ), a caboverdiana Rhynia Carvalho, 21 anos, ainda encontra aqueles que se surpreendem com sua nacionalidade, mas diz que a hospitalidade é grande: "Quando descobrem que não sou do Brasil, todos perguntam coisas, tentam entender o meu idioma, é uma festa", revela. A estudante de odontologia é uma dos muitos africanos de língua portuguesa nas universidades brasileiras. "Mas, o português não é tão parecido", ressalta. Em Cabo Verde fala-se o português de Portugal e o Crioulo, um dialeto próprio.

A interação com os brasileiros acontece dentro e fora da sala de aula. "Os africanos realizam encontros em um ponto tradicional do Rio, organizamos festas, e festejamos as datas importantes. Há também grande convívio com os brasileiros, todos de uma certa forma se preocupam conosco porque sabem que estamos longe de casa são simpáticos", conta a estudante Rhynia, que pretende fazer pós graduação no Brasil e depois retornar a Cabo Verde

Pesquisa entre Brasil-África
"A comida brasileira é muito parecida com a africana", reconhece Alexandre Marrupi, moçambicano de 37 anos que realiza o mestrado em Geografia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MINAS). Obviamente, no entanto, não é só essa semelhança que trouxe Alexandre à universidade brasileira. Pesquisador do Instituto Nacional de Estatística de Moçambique e responsável pelo primeiro Atlas Sócio Geográfico do país, ele é bolsista do governo para se especializar no Brasil, realizando intercâmbio com as experiências brasileiras nessa área. "O modelo brasileiro tem muito a nos acrescentar. O Brasil é hoje um dos maiores potenciais de literatura científica em língua portuguesa", justifica.

O maior desafio do governo moçambicano, em relação à estatística, é a criação de um modelo qualitativo de pesquisa sócio-econômico, para criar políticas de desenvolvimento. Assim que terminar seu mestrado, no ano que vem, Alexandre retorna a seu país para ajudar o desenvolvimento desse projeto.

Tendo feito a graduação na Ucrânia e especialização nos Estados Unidos, Alexandre Marrupi diz que o Brasil sempre foi próximo da sua realidade. "Escutamos as músicas de vocês, vemos os programas de televisão, conhecemos muito do Brasil", diz. Além de estar pesquisando uma área na qual já está envolvido há 10 anos, Alexandre destaca que a boa adaptação também é fruto da hospitalidade dos brasileiros dentro da universidade.

Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado no último mês de junho, os estudantes universitários africanos são os mais "móveis" do mundo. Os dados do Instituto de Estatística da ONU para a Educação, Ciência e Cultura mostram que um, em cada 16 africanos, prosseguem seus estudos em algum outro país, dentre os principais destinos estão a Europa Ocidental, os Estados Unidos e a América do Sul. No Brasil, os universitários africanos estão em todas as áreas, em instituições públicas ou privadas, na graduação, na pesquisa e extensão.

Ampliando o Intercâmbio
"Nosso imaginário em relação à África é limitado, há um certo preconceito. Precisamos descobrir a África organizada, universidade africana, os intelectuais a literatura, a ciência, as pesquisas de ponta", sustenta a professora Íris Amâncio, Coordenadora De Extensao da PUC Contagem e do Núcleo de Inclusão Racial da PUC Minas. À frente do 2º Seminário Internacional Brasil-África, que aconteceu entre os dias 22 e 26 de agosto na PUC Contagem, a professora destaca a necessidade de descentralizar o fluxo de intercâmbio entre o Brasil e os países africanos. "Muitos estudantes da África vêm para o Brasil, mas os brasileiros não vão para lá. Precisamos de políticas para mudar isso", diz.

O mestrando Alexandre Marrupi também espera que esse encontro cresça nas universidades africanas. "Em meu ponto de vista, Moçambique está em um caminho muito bom, temos apenas 31 anos de independência e tivemos uma guerra civil. Mas mesmo assim conseguimos expandir o ensino superior para todas as províncias do país, desenvolvendo a potencialidade da região. O esforço maior, o que falta é desenvolver mais a pesquisa. Defendo a troca de professores e materiais entre as universidades africanas e brasileiras"

Na opinião da professora Íris Amâncio, a Universidade é, de fato, o lugar para se para ampliar o conhecimento dos brasileiros sobre a África "Nossas matizes culturais são muito fortes, A universidade, como uma referência para a atualização dos saberes na sociedade, pode servir para conhecermos melhor esse continente que é tão próximo", avalia.


Artenius Daniel


 
 



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