Projeto inclui 50 adolescentes moradores da Cidade de Deus e do Complexo da Maré; objetivo é que eles revelem um outro olhar sobre os jogos que vão movimentar o Rio até o dia 29 de julho

Um gravador e uma idéia na cabeça. Com essas ferramentas, a estudante Ana Carla Souza da Costa pretende fazer um contra-ponto à cobertura jornalística tradicional dos jogos Pan-Americanos: "Tem os benefícios e os malefícios. Além do belo e do bonito, estamos vendo as forças armadas entrando nas nossas comunidades. E eu moro lá, e isso prejudica o nosso convívio social. É muito ruim", avalia. "O nosso quadro social tem diversas cores, e vamos dar pinceladas vivas, como repórteres-aprendizes críticos que convivem com uma realidade dura. Quero focar isso. Mostrar, com olhar crítico, que o Pan não deve alienar nossas mentes", completa.
Ana tem 19 anos e mora com a mãe, uma tia e três primos na região da Cidade de Deus, uma das áreas mais violentas da capital carioca. Ela foi escolhida para participar do Projeto PapoPan. Agora, faz arte de uma equipe de 50 jovens, com idades entre 16 e 22 anos, moradores de sete comunidades da periferia do Rio, que vão divulgar o evento com um olhar diferenciado. Com gravadores, câmeras fotográficas e de vídeo, blocos de notas, eles percorrerão os locais de competição em busca de histórias.
A idéia nasceu a partir de um pedido do Ministério do Desenvolvimento Social à Revista Viração (publicação sem fins lucrativos de circulação nacional, feita por jovens) para que criasse um projeto de cobertura jornalística do Pan com a juventude da periferia. Acabou se transformando numa parceria junto com o Observatório de Favelas, Radiobrás e os Ministérios da Justiça e dos Esportes.
"Trabalhamos com o princípio da Educomunicação, misturando educação com comunicação. Será uma espécie de cobertura paralela do evento, com os jovens falando dos jogos, mas também sobre questões como desemprego, segurança e direitos básicos da juventude", explica Paulo Lima (foto), um dos coordenadores do PapoPan e diretor da Revista Viração. Segundo ele, os jornalistas-aprendizes decidiram trabalhar com duas linhas de enfoque: o Pan como um momento de confraternização dos povos das Américas; e o distanciamento das comunidades cariocas desse mega-evento.
Futuro
Outro participante, Kleydson Alves Costa Reis, vê no Papo-Pan uma oportunidade para o futuro: "Com os jogos Pan-Americanos, veio a chance de participar do projeto. Isso vai ajudar no meu currículo, em ser alguém na vida". Ele completa: "As autoridades deviam investir em cursos profissionalizantes para os jovens, investir no nosso futuro".
Sobre seu trabalho no Papo-Pan, Kleydson é bastante enfático: "Vou mostrar não só a violência da Cidade de Deus, mas também as ações de formação de consciência e de cidadania. Quero explorar o lado bom que a mídia não mostra. Quero mostrar coisas boas, não só as coisas do tráfico".
PapoPan?
O nome PapoPan foi dado pelos próprios jovens: Projeto Autenticamente Protagonizado e Organizado por Adolescentes e Jovens Inovadores.
A produção (textos, fotos, rádio e vídeo) será veiculada também pela Revista Viração, por rádios comunitários do RJ e de outras capitais. Inclusive, a Rádio Saara, que fica numa área do centro da cidade carioca com comércio popular, vai veicular "pílulas" radiofônicas com pequenas entrevistas e enquetes. Também sites ligados à defesa do adolescente e da juventude estarão reproduzindo alguns trabalhos. A Agência Brasil criou um blog específico para divulgar diariamente o material dos jovens. Ao final dos jogos, toda produção vai resultar numa edição especial da Revista Viração.
De acordo com Paulo Lima, após se apropriarem dos instrumentos de comunicação, os jovens vão retornar às suas comunidades podendo se envolver em práticas de comunicação comunitária, ou seja, participando de rádios locais, criando jornais murais ou até impressos. "Além disso, na hora de buscarem o primeiro emprego, estarão muito mais articulados na fala, sabendo se comunicar melhor com o mundo. Assim, também vão estar melhorando sua auto-estima. Eles estão mudando a própria concepção que tinham de si mesmos, de comunidade de periferia", prevê.
Oficina
Os jovens repórteres participam de oficinas com conteúdos sobre cidadania, comunicação e noções básicas de jornalismo, que inclui práticas de texto, entrevista, fotografia, rádio e vídeo web. Além da teoria, eles irão aos centros esportivos e às suas próprias comunidades para fazer um contra-ponto entre a festa do Pan e a realidade do cotidiano carioca. A oficina termina com o fim dos jogos, no dia 29. Cada participante recebe uma bolsa-salário de R$ 175,00 pela cobertura do evento.
CONFIRA A COBERTURA: http://www.agenciabrasil.gov.br/blogs/2007/07/11/blog-do-pan/view
Da Redação
Com Agência Brasil