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7 de fevereiro de 2007
Trote: melhor sem ele

Se você pensa que o trote do cavalo e o trote estudantil são conceitos totalmente diferentes, engana-se. O termo refere-se a uma certa movimentação dos cavalos, que fica entre o passo, que é mais lento, e o galope, mais rápido. Todavia, o trote não é o caminhar normal e habitual do cavalo, mas algo que deve ser ensinado a ele, muitas vezes com chicotadas e esporadas. Da mesma forma, o calouro é encarado pelo veterano como alguém que deve ser domesticado com práticas humilhantes e vexatórias. Nem mesmo os batidos termos "calouro" e "veterano" são aceitos sem questionamentos.

A expressão que normalmente se usa para definir o estudante que entra na universidade, o bixo, segundo o professor-adjunto do Departamento de Educação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Antonio Zuin, no livro "O trote na universidade - Passagens de um rito de iniciação", indica "que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente".

Enquanto alguns estudantes levam a coisa toda na brincadeira, e até anseiam por ter seus cabelos raspados e seus rostos pintados, a fim de que todas vejam que eles conseguiram alcançar seu objetivo maior - entrar na faculdade -, outros enfrentam situações que nos remetem às práticas mais atrasadas e abomináveis, que deveriam estar totalmente banidas do ambiente universitário, em pleno século XXI.

Se tiver, eu vou

Depois de estudar no colégio Estrela Sírius, em Pirituba, e de investir no cursinho Etapa, em São Paulo, a estudante Marcela de Almeida Silva, 17 anos, conseguiu entrar em Arquitetura na Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) e até já fez a matrícula. "Eu achava que ia ter trote, mas me falaram que talvez não tenha porque eles fazem festa em vez de trote", conta ela. Seu tom de voz se situa entre o alívio e a decepção. "Você não faz a matrícula no prédio onde vai estudar, é em um prédio diferente. Eles não falam nada sobre trote e eu também não perguntei nada", relata Marcela.

"Se tiver trote, eu vou. Uma vez na vida, dependendo do trote, acho que vale a pena participar. Não sei o que espero. Me contaram que na São Camilo, por exemplo, tem que pedir dinheiro no farol, e dar para os veteranos tomarem cerveja no bar. Mas lá na Faap, falaram que é gente de outro poder aquisitivo, me falaram que lá é juntar dinheiro para fazer festa, e não pedir no farol. Eu quero ver como vai ser. Se for um trote que puder levar na brincadeira, e se eu perder, não vou ter nada para contar depois", imagina ela.

Demência no ambiente universitário

Mas nem tudo são flores quando se fala em trote. Roberto Alexandre Silva de Oliveira, 27 anos, aluno de Gestão Ambiental da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo), que se forma agora em 2007, viveu uma história chocante logo que entrou para a faculdade. "Eu não sabia exatamente o que era o trote na Esalq. Hoje eu sei que a coisa é muito mais séria do que uma mera brincadeira. As pessoas encaram como uma farra, mas é uma coisa muito perversa", diz. Segundo Roberto, tem gente que chega até a abandonar o curso logo no começo. Então, ele começou a fazer camisetas contra o trote e a mobilizar as pessoas. E passou a ser perseguido por conta disso até viver uma agressão em um churrasco patrocinado pelos alunos do quinto ano para as outras turmas. "Eu nem me lembro ao certo o que aconteceu. Mas me contaram que eu fui empurrado do palco onde eu estava, caí de cabeça no chão e não vi mais nada. Disseram que fui chutado na cabeça, no joelho, mesmo desacordado." É que, nessas festas, segundo o estudante, chega um caminhão com 15 mil litros de chope e o pessoal perde a noção. "Os estudantes de Agronomia entoam um hino bem chulo, que exalta a condição deles. Eu perdi a consciência, não sabia se tinha caído ou se tinha sido empurrado. Me tiraram para fora da festa e me deixaram ali, do lado de fora, sem nenhum socorro. Eu nem me lembro de nada, só fui me dar conta no dia seguinte, na minha casa".

A que Roberto atribui ações descabidas como essa? Para ele, o problema está no elitismo de algumas universidades, como o Direito do Largo São Francisco e a Medicina Pinheiros, o que leva à formação de uma verdadeira máfia, envolvendo inclusive ex-alunos, que criam a manutenção desse tipo de sistema. "Começa na recepção aos alunos, passa pela vida em república, e pelo mercado de oportunidades que pode ser gerado por essa teia de relacionamentos. Os alunos vêm de uma vida fácil, não trabalham, nunca passaram por dificuldades, saíram do colegial, são muito bem nutridos. Quando se distanciam de casa, vão fazer tudo o que eles não podiam fazer. Existe uma euforia muito grande quando o aluno chega aqui, e ele acaba dando vazão a outros tipos de sentimentos, como o sadismo", analisa.

Roberto é de São Paulo e vive numa república. Existem as mais tradicionais, há todo um folclore em torno de entoar hinos, sofrer batismo para se ver merecedor de morar naquela casa. "As repúblicas necessitam do trote, tanto para trazer novos moradores, quanto para fazer a manutenção de um sistema de poder, inclusive de quem já se formou", denuncia. Para Roberto, uma universidade de Agronomia conceituada, em um país de latifúndios, é como se fosse uma espécie de berço ideológico para a manutenção da estrutura do agronegócio brasileiro. Ele acredita que o trote contribui para a manutenção do coronelismo, de maneira um pouco disfarçada. "É uma estrutura muito forte, muito séria", aponta.

Antitrote

Roberto não está sozinho na sua luta contra o trote. Os professores da Esalq Oriowaldo Queda e Antonio Almeida mantêm o site Antitrote (www.antitrote.com.br) , para expressar seu repúdio contra essa forma de ação dos estudantes. Dizem eles na apresentação do site: "Este site dedica-se a combater todas as formas de trote, quer sejam consideradas como brincadeiras ou como violência. Para nós, o trote é sempre desrespeito, violência, tortura. Por isso, não pode existir trote solidário, cultural, ecológico. Atividades de cunho social, ambiental e cultural não devem ser chamadas de trote. As palavras trote, calouro, veterano, bicho, bixo, e outras tantas relacionadas ao trote devem ser banidas do vocabulário da Universidade".

O professor Oriowaldo, doutor em Sociologia e professor titular aposentado do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq, acredita que existem formas mais saudáveis e justas de receber os alunos. "Um pouco antes de me aposentar, começamos a fazer levantamento bibliográfico que resultou no livro Universidade, preconceitos e trote. Como o problema é sério, embora não seja reconhecido como tal nas universidades, acreditamos que seria bom colocar nossas informações no site. Nós somos radicalmente contra qualquer manifestação de trote", explica ele.

Os professores não acreditam que o trote seja capaz de promover qualquer tipo de integração. "No final ele cria grupos antagônicos. Do ponto de vista antropológico, pode deixar mágoas pelo resto da vida. A apelação mais comum para justificar o trote é a do rito de passagem. Mas o trote é muito mais do que isso. Não é apenas uma questão de sado-masoquismo, ele envolve relações de poder, e se mantém, mesmo proibido por lei, porque as instituições universitárias são coniventes e tiram proveito dele. Não existem apenas alunos trotistas. Existem instituições trotistas, existem professores, funcionários, jornalistas trotistas. Ainda que nosso trabalho seja reconhecido como coisa séria, ele não tem merecido a atenção que a gente gostaria que tivesse", relata ele.

O professor Oriowaldo tem sido convidado para dar palestras sobre o assunto, mas ainda identifica muitas situações com as quais não concorda, como propagandas que retratam os jovens com as caras pintadas e os cabelos raspados, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, segundo ele, não deveria ser assim. Tanto que os professores têm encontrado muita dificuldade para obter financiamento para suas pesquisas. "Não temos nenhum patrocínio, de nenhuma instituição, nem da universidade. É sempre muito dificil. A gente fica muito tempo na linha, esperando atendimento", reclama. Para ele, as campanhas que promovem o trote solidário apenas servem para dar sobrevida ao trote. Muito melhor, em sua opinião, seria propor uma campanha de oposição frontal ao trote. Ele tem uma proposta de fazer um vídeo sobre o trote e, para isso, está buscando patrocínio. Quem puder e tiver interesse em ajudar, pode entrar no site Antitrote para entrar em contato com os professores.

Fonte: Universia Brasil


 
 



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