Aos poucos, a 5ª Bienal da UNE vai fechando um ciclo de participantes do mais alto quilate da cultura brasileira. Na última terça-feira (14), outra importante personalidade do cenário artístico nacional confirmou a participação no maior festival universitário do país. Depois do sambista Martinho da Vila, desta vez foi o professor, escritor, dramaturgo, artista plástico e poeta, Abdias Nascimento, quem declarou apoio ao evento e também garantiu a sua presença.
O encontro com Abdias ocorreu em sua casa, no Rio de Janeiro. Acompanhado de sua esposa, Elisa Larkin, ele recebeu o Coordenador-geral da 5ª Bienal, Tiago Alves; e as coordenadoras de Artes Visuais, Juana Nunes; e de Questões Raciais, Helen Barcellos.
Numa conversa de mais de uma hora, Tiago explicou o propósito da Bienal, que com a temática "Brasil-África: um Rio chamado Atlântico" pretende fazer uma reflexão acerca da influência da cultura africana na formação do povo brasileiro. Ele destacou a referência de Abdias nesta discussão, já que o escritor tem uma longa história de lutas na construção da igualdade para os negros dentro da sociedade brasileira.
Pelo seu histórico – primeiro deputado (1983-87) e senador (1991/ 1996-99) afro-brasileiro a defender no Congresso a criação do projeto de lei que define o racismo como crime de lesa-humanidade, e dramaturgo inventor do Teatro Experimental Negro (TEN)–, Abdias Nascimento foi escolhido por unanimidade entre a organização da Bienal para ser o principal homenageado desta quinta edição.
O professor demonstrou grande satisfação e lembrou que a sua relação com o movimento estudantil vem de muito tempo atrás. Quando ele fundou o TEN, em 1944, com o apoio de um grupo de negros e de setores da intelectualidade carioca, foi na sede da UNE que se realizaram os primeiros cursos de alfabetização, treinamento dramático e cultura geral para os participantes.
Mais à vontade, a equipe da Bienal pediu "contribuições" para o escritor, que não hesitou em falar. Abdias sugeriu a organização de um debate que trate especificamente da questão religiosa, pois segundo ele essa é a base da filosofia, da organização social e cultural do povo africano.
Após confirmarem também a presença de Elisa Narkin em uma mesa sobre a diáspora africana e panafricanismo e acertar a ida da exposição "Abdias Nascimento 90 anos de memória viva" à 5ª Bienal, os estudantes ainda conheceram o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro Brasileiros, presidido pela própria Elisa.
Para Tiago, homenagear o ex-senador é aproximar a história da luta do movimento negro dos estudantes. "A Bienal da UNE é o momento em que mais de 20 mil estudantes estarão reunidos para discutir essa relação áfrica-brasil. O Abdias é um expoente desta discussão. Em todos os cargos e funções que ocupou, sempre levantou a bandeira do respeito aos negros. Por isso, é uma homenagem mais do que merecida", disse.
Biografia Abdias Nascimento
Abdias Nascimento nasceu em Franca (SP), em 1914. Formou-se em contabilidade em 1929. Na década dos 1930, militou na Frente Negra Brasileira e lutou contra a segregação racial em estabelecimentos comerciais da capital paulista.
Em 1944, fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), entidade que patrocinou a Convenção Nacional do Negro, realizada em 1945-46, e organizou o 1º Congresso do Negro Brasileiro, em 1950.
Foi o primeiro parlamentar afro-brasileiro a dedicar seu mandato de deputado (1983-87) e senador (1991, 1996-99) à luta contra o racismo, apresentando projetos de lei para definir o racismo como crime e criando mecanismos de ação compensatória.
No governo de Leonel Brizola, foi nomeado Secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991-94). Mais tarde, assumiu o cargo de primeiro titular da Secretaria Estadual de Cidadania e Direitos Humanos (1999-2000).
Teatro Experimental do Negro
Na descrição da página na Internet de Abdias Nascimento, "o TEN visa reabilitar e valorizar a identidade, a herança cultural e a dignidade humana do afrodescendente, unindo a atuação política à afirmação da cultura de origem africana, representando um avanço na luta contra o racismo no século XX".
A idéia de Abdias ao fundar o TEN era promover a inclusão do ator, diretor e autor negros num teatro brasileiro, em que a norma era "pintar" de preto o ator branco quando houvesse um protagonista negro. Este teatro vai revelar o potencial cênico dos heróis negros e da epopéia afro-brasileira, até então excluídos da dramaturgia nacional.
5ª Bienal da UNE
A 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura da UNE é o maior festival universitário do país. Esta edição vai acontecer no Rio de Janeiro, de 27 de janeiro a 2 de fevereiro.
Para os interessados em apresentar trabalhos, as inscrições estão abertas até o dia 4 de dezembro, nas áreas de Literatura, Ciência e Tecnologia, Música, Artes Ciências, Arte Visuais, Cinema e Vídeo. O regulamento e ficha de inscrição estão disponíveis no site da UNE. Outras informações: cuca@une.org.br
Da Redação