Apesar de ser parte fundamental da história do Brasil, o continente africano ainda é pouco estudado nas escolas do país. A escravidão no período colonial, o tráfico negreiro, a abolição como estratégia para a proclamação da república é tudo o que aparece nos livros de história

De 27 de janeiro a 2 de fevereiro do ano que vem, a UNE promove a sua 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura, sob o tema "Brasil-África: um Rio chamado Atlântico". O festival pretende fazer uma reflexão sobre os elementos que compõem a formação da cultura brasileira, colocando em destaque a influência africana dentro do contexto nacional. (Saiba como participar)
Não há muito mais do que uma triste e resumida lembrança sobre o povo africano e seu papel na construção do Brasil. O segundo maior país negro do mundo (atrás apenas da Nigéria) ainda exclui por completo a história do continente africano e da cultura negra em seu ensino.
Mas esse quadro começa a mudar com a implementação da lei federal 10639, de 2003. Essa legislação alterou a Lei das Diretrizes e Bases da Educação para incluir a história da África e a cultura afro-brasileira em todos os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, da rede pública e privada. De acordo com o texto, esse conteúdo deve ser ministrado no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e História Brasileiras.
Desafios
Três anos após a aprovação da lei 10639/03, são poucas escolas que já se organizaram para começar o novo ensino. Os principais problemas são a formação de professores e a conscientização a respeito da nova temática. O EstudanteNet conversou com Eliane Cavalleiro (foto), coordenadora-geral de Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (MEC) sobre essa dificuldade:
"O maior desafio é romper com a ideologia da democracia racial, os professores não percebem ainda a questão do racismo na sala de aula. Nos deparamos com professores que são bem formados, até com pós graduação algumas vezes, mas que não tiveram ainda a oportunidade de refletir sobre essa temática", diz.
Segundo Eliane, o MEC está realizando um plano de divulgação da lei, com o apoio das secretarias de educação e outras entidades civis. Além disso, informa, está sendo realizado um programa de capacitação de cerca de 25.000 professores em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).
Outra estratégia é o trabalho junto às universidades. Os cursos de licenciatura e pedagogia deverão se adequar à realidade da nova legislação com a criação de disciplinas específicas sobre a história da África e a cultura Afro-Brasileira. "Os exames vestibulares das universidades também deverão começar a abordar essa temática, para influenciar o processo nas escolas", garantiu Cavalleiro.
Voluntários
O senegalês Ibrahima Gaye (foto em destaque), coordenador da entidade Casa África, em Belo Horizonte, é um dos que trabalha pela implementação da lei. Sua organização realiza trabalho voluntário nas escolas da capital mineira para ampliar o conhecimento das instituições sobre a África e a cultura negra. Em entrevista ao EstudanteNet, ele disse que a mobilização das instituições de ensino ainda é pequena:
"Nós estamos trabalhando com isso desde que a lei foi aprovada, mas a maioria ainda não sabe como vai se organizar", afirmou. O projeto da Casa África visita as escolas promovendo oficinas, mostras de cinema, mostras e apresentações culturais sobre a África. Além disso, a Casa realiza cursos e palestras para os professores.
Ibrahima, que mora há 10 anos no Brasil, acredita que o conteúdo a ser implementado nas escolas pode despertar maior interesse pelo tema. "Eu falo que o mundo é velho e que o futuro saiu do passado. A população precisa estar mais consciente de que muita coisa passa pela África, isso tem que ser levado mais a serio. Não é só pela questão da diversidade cultural, é uma grande referência", diz.
Discriminação
Além de contemplar uma área ignorada pelo ensino tradicional, a lei 10639/03 pode fomentar as discussões sobre racismo e inclusão dentro das salas de aula. Segundo a coordenadora de Diversidade e Inclusão do MEC, as políticas afirmativas permitem o diálogo entre as diferenças.
"Todos já percebem as diferenças, desde crianças até adultos, e está clara a questão sócio cultural, a hierarquia. A lei traz a possibilidade de se dialogar também sobre a experiência da discriminação no ambiente escolar, fortalecendo a reflexão sobre essa temática".
Segundo Ibrahima Gaye, a questão precisa extrapolar a sala de aula: "Isso precisa estar presente em todas as camadas sociais, não só na escola. Acho que a cultura e os meios de comunicação também precisam difundir mais esse conteúdo, de forma sustentável", afirmou.
Artenius Daniel
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