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17 de agosto de 2006
Cuqueiros, uni-vos

Do Rio de Janeiro
Danielle Franco

No último fim de semana, entre os dias 11 e 13 de agosto, o Rio de Janeiro recebeu estudantes de todo o país para o lançamento da 5º Bienal de Arte Ciência e Cultura da UNE, que desta vez traz a temática "Brasil-África: um Rio chamado Atlântico". Durante os três dias, várias atividades aconteceram, entre elas, o 6º Seminário Nacional do Circuito Universitário de Cultura e Arte, o CUCA da UNE, projeto cultural desenvolvido pelo movimento estudantil. A 5ª Bienal já tem data e local definidos: 27 de janeiro a 1º de fevereiro do ano que vem na capital carioca. Nos próximos dias, o regulamento para as inscrições de trabalhos nas mostras universitárias estará disponível aqui no EstudanteNet.

Para abrir o Seminário e refletir sobre a escolha do tema, a UNE recebeu a ilustre presença de Zulu Araújo. Ele é arquiteto, oriundo do movimento estudantil, ex-membro do CUCA-Bahia, atual diretor de estudos e pesquisas do Centro Cultural Palmares e diretor da secretária de Promoção, Estudos e Pesquisas da Cultura Afro-brasileira, órgão ligado ao Ministério da Cultura.

O arquiteto baiano falou sobre as principais questões raciais (mestiçagem do povo brasileiro, discriminação, políticas de ação afirmativa) e também traçou um paralelo entre a cultura brasileira e africana. Sobre a formação da identidade do povo brasileiro, Zulu afirmou: "O problema quando se fala em miscigenação no Brasil é que essa questão foi usada como subterfúgio, como forma de negação do negro. Ser mestiço no Brasil não significa ser a mistura de negro com branco, ser mestiço no Brasil significa não ser negro", disse.

Cotas nas universidades
Outro ponto muito discutido durante a palestra foi a lei de cotas nas universidades, que reserva vagas para estudantes afrodescendentes e de baixa renda, oriundos da escola pública. Sobre esse assunto, Zulu disse que é uma forma de compensação pelas perdas que o povo africano sofreu ao longo da história. "Me refiro à escravidão. A questão racial no Brasil sempre foi de difícil trato para todo e qualquer dirigente, de todas as matrizes ideológicas deste país", enfatizou.

Após a exposição de Zulu, foi aberto um debate com os estudantes. Helen Barcellos, de 22 anos, estudante de geografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), deu um depoimento afirmando ser integrante da primeira turma de cotistas UERJ e incitou todos a fazerem uma reflexão. "Gostaria que a África fosse tratada nesta Bienal em paridade com o Brasil. Que todos tratassem da arte, da cultura e principalmente da ciência africana com mais respeito, não com um olhar eurocêntrico", sugeriu. Zulu completou: "A arte africana é tratada de forma menor por muitas pessoas e eles se enganam. Os artistas africanos contemporâneos estão tão antenados ao que acontece no mundo quanto os artistas europeus ou americanos. Citei a cultura como exemplo, mas isso é válido para todas as áreas, inclusive a ciência", disse.

Para o estudante de ciências sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diretor da União dos Estudantes da Bahia (UEB) e integrante do CUCA-Bahia, Antônio Rubens de Carvalho Berenguer, de 26 anos, a explicação de Zulu sobre a presença do racismo na sociedade brasileira foi um dos pontos mais marcantes da palestra. "Foi muito importante a visão que Zulu passou sobre o fato de que o racismo está atrelado à uma questão social, à questão sócio econômica, que se desenvolveu depois da escravidão, que deixou a população negra marginalizada. Essa foi a origem desta situação de exclusão que o negro vive hoje".

Bem humorado Zulu encerrou o bate papo com os estudantes relembrando os tempos de militante. Ele recitou uma frase emblemática da UNE: "A UNE somos nós, nossa força e nossa voz", sendo aplaudido por todos.

Programação da 5ª Bienal
Atualmente, 10 núcleos gravitam em torno do Circuito Universitário de Cultura e Arte (CUCA). Os espaços constituídos funcionam nos seguintes Estados: Recife, Paraíba, Mato Grosso, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Bahia, Espírito Santo e Brasília.

Mas a idéia sempre foi expandir o projeto, com intuito de levar o CUCA a todas às instituições de ensino do Brasil. Estudantes de Rondônia e Santa Catarina, onde ainda não há um núcleo CUCA instalado, deslocaram-se para o Rio de Janeiro a fim de absorver mais sobre a iniciativa e implantá-la em seus Estados.

O coordenador do CUCA-Rio de Janeiro, Fellipe Redó, reforçou a importância de estudantes mostrarem interesse em cultura. "Eu acho que esse pessoal que veio aqui para o Rio com intenção de levar o CUCA para o seu estado está de parabéns. A intenção do projeto é essa mesmo, se espalhar pelo Brasil para difundir e praticar cultura", disse.

Em clima de bate-papo, a "velha guarda do CUCA" conduziu o Seminário. A ex-Coordenadora-geral do Circuito, Ana Cristina Lemos (Tininha), uma das fundadoras e idealizadora do projeto, relembrou a história do movimento estudantil e a importância das Bienais. Ela destacou o quanto é trabalhoso montar um evento deste porte, mas frisou a recompensa no final de cada Bienal que se passa: "Por mais difícil e complicado que seja, o importante é saber que no final mais de 10 mil estudantes estarão desfrutando de momentos únicos de troca de experiências", disse.

Estudantes que participam de centros acadêmicos ligados à cultura dentro da suas universidade também contribuíram para o debate. A estudante de geografia Helen Barcellos sugeriu que esta próxima Bienal enfatize a ciência. "Acredito que esse deve ser um tema bem explorado porque se fala muito pouco em ciência quando o assunto é África. Se fala muito em cultura, dança e arte, mas muitos nem sabem quem foi Luis Gama", referindo-se a uma figura emblemática do povo africano, jornalista que cursou direito na USP (mas não concluiu), autodidata e estudioso da abolição da escravatura.

Sobre a programação da 5º Bienal de Arte , o coordenador do CUCA-Araguaia, Leandro Nery, elogiou a escolha do tema e fez uma sugestão. "Eu que sou do interior, acho que poderia ter um espaço para o pessoal que faz cultura nas pequenas cidades, o pessoal que toca viola, zabumba, que faz cultura porque gosta, porque isso é cultura, cultura de raiz", enfatizou.

O estudante Hermes dos Santos sugeriu que o Hip Hop tivesse destaque na 5º Bienal. "Eu acho que a cultura Hip Hop faz parte da nossa juventude e tem que estar presente de alguma forma nesse evento", destaca.

O Coordenador-geral do CUCA e da 5ª Bienal, Tiago Alves, explicou que a ciência e tecnologia sempre foi prioridade em todas as bienais e não será diferente desta vez. Ele disse que serão realizadas oficinas ligadas ao tema e existe uma mostra universitária específica para a área. Sobre o Hip Hop, Tiago frisou a importância desta cultura e explicou que a intenção do festival é cada vez mais ampliar o espaço dedicado à cultura do grafitte, do rap e do break. "Claro que sabemos da influência hoje do Hip Hop junto a juventude. Vamos dar total atenção para este tema", destacou.

Sábado: reconhecimento de área
No sábado, os "cuqueiros" foram convidados a visitar os diferentes espaços físicos que vão abrigar a quinta edição da Bienal da UNE. O centro cultural Fundição Progresso, uma antiga fábrica de fundição de ferro, será o palco do evento que acontecerá entre os dias 27 de janeiro e 1º de fevereiro do ano que vem, no bairro da Lapa.

A visita foi monitorada pela responsável pelo setor de projetos culturais do local, Vanessa Damasco, que deu a dimensão do lugar: "A Fundição Progresso é uma área de 1.400 metros quadrados composta de 8 espaços independentes como teatros e uma área aberta. Além disso, conta com um estacionamento com vaga para 1.000 carros e um hall de entrada de 400 metros quadrados e 3 bilheterias".

Os alojamentos ficarão próximos à região da Lapa, em escolas públicas da região, da UFRJ e também na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio). Tiago explica que, haverá também uma área aberta semelhante ao acampamento da juventude do Fórum Social Mundial, onde os estudantes poderão se acomodar em barracas. Também no campus da UFRJ ficará a secretaria da 5ª Bienal UNE local em que a equipe da entidade vai dar apoio aos "cuqueiros", fará a cobertura dos acontecimentos e receberá todos os trabalhos dos universitários.

CUCA o que?
A idéia de criar o projeto surgiu na 2ª Bienal de Cultura e Arte da UNE. A intenção é incitar, não só a produção cultural, mas também a pesquisa e a discussão sobre cultura e políticas culturais. O objetivo principal do CUCA é manter viva a produção cultural universitária entre os espaços de uma Bienal e outra. Além de estimular a comunicação entre estudantes de diferentes universidades, mapear e centralizar as informações e as produções culturais de cada instituição. "O CUCA foi feito para fazer arte, provocar o pensamento e a reflexão acerca da cultura e da arte brasileiras e discutir os rumos de uma política cultural para o país", explica Tiago.


 
 



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