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16 de abril de 2007
Frei Betto ganha "batismo" no cinema pelas lentes de Helvécio Ratton

O portal EstudanteNet conversou com o religioso e o diretor sobre um dos filmes mais esperados de 2007. "Batismo de Sangue" conta a trajetória de frades dominicanos que se uniram à Ação Libertadora Nacional na luta contra o regime militar

O filme é denso, o tema também. Além da coragem em tratar da tortura, do cárcere e de toda crueldade de uma ditadura militar que agrediu a história do país, "Batismo de Sangue", que teve estréia nacional na última sexta (12), tem mais um mérito: foi escrito e dirigido por quem estava lá, no olho do furacão:

"Lembro com detalhes das situações que vivi no movimento estudantil e depois na clandestinidade. Tem certos momentos em que eu me lembro até dos cheiros... O certo é que eu sempre tive vontade de contar uma história daqueles anos porque sentia uma abordagem "de fora" em vários dos filmes que foram feitos", disse o diretor Helvécio Ratton em entrevista exclusiva ao portal EstudanteNet.

O longa é baseado no livro homônimo do escritor, antropólogo e assessor-especial do governo Frei Betto –outro perseguido pela ditadura– e retrata esse período sob uma ótica ainda desconhecida do público: a dos freis dominicanos, que se uniram ao grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN) na luta contra o regime.

Em outra entrevista exclusiva ao EstudanteNet, Frei Betto disse que Ratton conseguiu mais do que transferir o conteúdo de sua obra para as telas:

"Batismo de Sangue é um filme que coroa o livro. Aliás, supera o livro, pois condensa em 110 minutos a saga de uma geração que aos 20 anos, nos anos 60, injetou utopia nas veias e acreditou ser possível mudar o Brasil e o mundo. Helvécio Ratton produziu e dirigiu o filme que melhor retrata a ditadura militar", afrimou.

O filme
Batismo de Sangue conta a trajetória de cinco frades, Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves). O grupo se une aos membros da ALN, grupo guerrilheiro comandado por Carlos Marighella, ex-deputado federal e um dos principais opositores do governo na época. (Veja o trailer)

De posse da obra, Ratton conta que logo percebeu que aquela era uma história para ser contada no cinema. Envolvido pela narrativa, ele condensou as 416 páginas em pouco menos de duas horas. "Cenas de ação e suspense, alternadas com momento de grande delicadeza e espiritualidade", define o diretor do premiado "Uma Onda no Ar", sobre a rádio favela de Belo Horizonte.

O forte depoimento que Betto e Ratton concederam ao EstudanteNet é carregado com uma mescla de dor (pela ferida não cicatrizada) e esperança (pela chance de falar a verdade), dois elementos que tornaram possível a produção do filme.

Informados de que a UNE fará uma campanha nacional pela abertura dos arquivos da ditadura, os dois demonstraram apoio à iniciativa e reafirmaram a importância de reviver o passado para que os brasileiros construam um futuro cada vez mais distante do que se viveu em meados dos anos 60.

"Uma nação é como uma pessoa: sem acertar contas com o passado não é possível ter um futuro mais saudável. Parabéns à UNE, que presta inestimável serviço à história do Brasil", frisou Frei Betto. Para Ratton "um povo que não conhece seu passado, não compreende seu presente e é incapaz de projetar seu futuro".

O portal da UNE e da UBES entrevistou esses dois "personagens-narradores" da nossa história recente, num momento em que a sociedade brasileira se aproxima um pouco mais da verdade sobre os acontecimentos da ditadura. No último fim de semana, a imprensa brasileira destacou a descoberta de documentos inéditos, até então negados pelos militares, sobre tortura, repressão e assassinatos durante o regime.

Abaixo, confira a íntegra das entrevistas:


 ENTREVISTA FREI BETTO

Na entrevista exclusiva que concedeu a reportagem do EstudanteNet, Frei Betto, autor de 49 livros; educador, jornalista, antropólogo, filósofo e atualmente, assessor-especial do presidente Lula e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero, faz uma avaliação sobre o filme, relembra os horrores que passou nos porões da ditadura e dá sua opinião a respeito da abertura dos arquivos deste obscuro período da história do Brasil. Leia abaixo:

EstudanteNet - Qual a sua avaliação sobre o filme?
Frei Betto - Batismo de Sangue é um filme que coroa o livro. Aliás, supera o livro, pois condensa em 110 minutos a saga de uma geração que aos 20 anos, nos anos 60, injetou utopia nas veias e acreditou ser possível mudar o Brasil e o mundo. Helvécio Ratton produziu e dirigiu o filme que melhor retrata a ditadura militar.


O senhor acompanhou a produção do filme? Qual foi sua reação ao relembrar um período tão obscuro e violento da história do país, que neste caso se confunde com a história da sua vida Frei?
Filme é filme, livro é livro, eu disse ao Ratton quando me falou estar disposto a filmar meu livro. Ao presentear-lhe com um exemplar da nova edição, em 2000, escrevi: "Helvécio, a vida extrapola a ficção". Ele tomou isso como desafio e resolveu levar a narrativa às telas (estréia dia 20 de abril).

Relembrar, reviver, revisitar a nossa luta de resistência à ditadura me imprime um orgulho sadio. Mas a dor, as torturas, os traumas me doem profundamente. No entanto, uma nação é como uma pessoa: sem acertar contas com o passado não é possível ter um futuro mais saudável. E o Brasil é o único país da América do Sul que até agora não abriu os arquivos em poder das Forças Armadas. É preciso manter viva a memória nacional.


A revista Carta Capital publicou, há algumas semanas, uma reportagem onde revela que muitos documentos importantes sobre o período da ditadura, que estavam sob a responsabilidade das Forças Armadas desapareceram. Qual sua opinião sobre o assunto ?
Não acredito nisso. E se for verdade, é muito grave, e o governo federal tem a obrigação de investigar por que desapareceram, quais os responsáveis e, portanto, puni-los. Isso é uma grave ofensa à memória brasileira. E um povo sem memória corre o risco de repetir no futuro as atrocidades cometidas no passado.


A UNE está engajada na luta pela abertura desses arquivos. O que o senhor pensa sobre essa iniciativa?
Parabéns à UNE, que presta inestimável serviço à história do Brasil, e tomara que receba todo apoio dos movimentos sociais nesse esforço por resgatar os fatos dos anos de chumbo. Enquanto o governo federal não abre os arquivos, a arte brasileira, em especial o cinema e a literatura, o fazem.

 

 ENTREVISTA HELVÉCIO RATTON

Helvécio Ratton reconhecido cineasta responsável por filmes como "A Dança dos Bonecos", "O Menino Maluquinho", "Amor & Cia." e "Uma Onda no Ar", que retrata a trajetória da rádio favela, conta ao EstudanteNet que o roteiro do longa passou por dez versões antes da final, afirma que seu histórico de militante estudantil influenciou o recorte da produção e defende, veementemente, a atual geração jovem do país. "Não acho justo que se fale em uma juventude alienada de hoje em contraponto a uma juventude participante daquele período. Em todos os momentos sempre houveram jovens alienados e jovens conscientes, com diferentes graus de participação". Confira:

EstudanteNet - Como foi o processo de transformar a obra de Frei Betto em filme?
Helvécio Ratton - Foi bastante trabalhoso porque o livro de Frei Betto abarca um universo muito grande que começa com um dossiê sobre Carlos Marighella contando sua trajetória como líder político, passa pelo relato da atuação dos dominicanos, sua prisão e tortura, e termina com um dossiê sobre Frei Tito. A roteirista Dani Patarra e eu fizemos mais de 10 versões do roteiro até chegarmos a que eu filmei, que centra o foco na atuação de um grupo de cinco dominicanos. Decidimos também, desde o início do filme, tratar Frei Tito como o protagonista da história, embora haja um certo protagonismo coletivo que inclui todo o grupo dos frades.


O fato de você ter sido militante estudantil nos anos 70 teve alguma influência durante a construção do roteiro?
Com certeza. É muito diferente o olhar de quem viveu os acontecimentos no olho do furacão de quem o viu passar de longe. Lembro com detalhes das situações que vivi no movimento estudantil e depois na clandestinidade. Tem certos momentos em que eu me lembro até dos cheiros... O certo é que eu sempre tive vontade de contar uma história daqueles anos porque sentia uma abordagem "de fora" em vários dos filmes que foram feitos.


Recentemente tivemos várias produções que retrataram esse período, como por exemplo "O ano em que meus pais saíram de férias", "Zuzu Angel" e "Araguaia" Na sua opinião, qual a contribuição do seu filme para que possamos entender melhor o que representou este período da história do Brasil?
Um povo que não conhece seu passado, não compreende seu presente e é incapaz de projetar seu futuro. Talvez a primeira contribuição do filme seja essa, falar do que ainda não foi dito e, principalmente, não foi mostrado aos brasileiros. A força do cinema, do audiovisual, é muito grande em especial junto aos jovens e nos debates que fizemos do filme noto um grande interesse deles por nossa história recente. Não acho justo que se fale em uma juventude alienada de hoje em contraponto a uma juventude participante daquele período. Em todos os momentos sempre houveram jovens alienados e jovens conscientes, com diferentes graus de participação. Outra contribuição que o filme poderia trazer seria a discussão a respeito do que significa o engajamento político e social nos dias de hoje. O mundo mudou e mudaram as formas de atuação, que hoje passam até pela internet.


As cenas de tortura são bem exploradas no filme. O intuito foi reforçar os horrores de quem esteve nos porões da ditadura?
Batismo de Sangue conta uma história em que a tortura está no centro dos acontecimentos. Foi através dela que a repressão arrancou dos frades a informação sobre como o Marighella fazia contato com eles. Foi também através da tortura que Frei Tito foi quebrado por dentro e levado ao suicídio aos 28 anos de idade. Não havia como contar essa história a não ser mostrando toda a violência com que agiram policiais e militares naqueles anos. Estava mais do que na hora de escancarar de uma vez os porões da ditadura, os porões da tortura.


Qual a sua avaliação sobre a produção?
O objetivo do filme é fazer o espectador se sentir como se estivesse vivendo naquele período da história, por isso tivemos um grande rigor na reconstituição da época e buscamos o maior realismo em todas as cenas. Inclusive nas cenas de ação, que foram realizadas com muita competência técnica. O desafio de filmarmos a parte final na França, onde tudo é muito caro para nós, foi vencido com planejamento e muita clareza sobre o que queríamos colocar na tela. Estou muito satisfeito com o filme, que considero de alta qualidade técnica e artística e com muito potencial para dialogar com e sobre o Brasil de hoje. Pra isso é que faço cinema.


Danielle Franco

 

Saiba mais:
Assista ao trailer do filme "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton


 
 



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