20 de março de 2007
UNE fará exposição sobre a sua antiga sede na Praia do Flamengo

A inauguração será no dia 1º de abril, no terreno hoje retomado pelos estudantes

O sonho de toda uma geração parecia ter acabado, na forma de guindastes, marretas e martelos, quando em junho de 1980 o prédio da União Nacional dos Estudantes foi demolido. Já naquela época o velho prédio da Praia do Flamengo abrigava apenas fantasmas de uma época de contestação sempre acompanhada de repressão. Sim, o sonho parecia ter acabado até 1º de fevereiro, quando os atuais estudantes, sem livros de Marcuse ou fotos de Che Guevara nas camisas, voltaram ao antigo berço.

Numa tarde de fevereiro, já com a organização em andamento, os estudantes receberam a visita do fotógrafo Márcio Goldzweig, um sobrevivente daqueles dias de 1980. Foi como se um túnel do tempo se abrisse. Quase no mesmo local, quase do mesmo ângulo, Márcio fez fotos parecidas com as de 27 anos antes. Estas, no entanto, em que as marretadas significavam reconstrução. O material de ontem e de hoje vai virar exposição

 "Fui preso por fazer estas fotos e consegui salvar dois rolos de filmes que ficaram escondidos na cueca durante os dias em que estive hospedado nas dependências do DOPS na Rua da Relação", recorda-se. "Naquela época eu era filiado ao movimento estudantil pelo DCE da UFRJ, onde estudava, na Escola de Belas Artes".

As apresentações foram rápidas e simples: Márcio procurou o atual presidente da UNE, Gustavo Petta, e a diretora, a espiritosantense Marvia Scardua. A cúpula da UNE imediatamente apoiou a idéia da exposição e futuramente de um livro. A futura exposição deverá contar com aproximadamente 30 fotos selecionadas e apresentadas em painéis de 0,80 x 1,00 m.

A data da exposição soa como provocação e ironia: 1º de abril. Pela história, a tomada de poder da junta militar teria sido em 31 de março, mas hoje já se sabe que João Goulart só deixou Brasília no dia 1º de abril. No dia seguinte, a exposição será aberta para o público. Um aperitivo do que virá pode ser encontrado no sítio oficial do fotógrafo na internet: http://www.bricabrac.com.br/une1980.

"Manifestações, repressão, protestos, violência, desmandos, direitos violados, este era o clima dos últimos anos do regime militar", lembra. "Não foram suficientes as vozes populares, de estudantes de todo o Brasil, de autoridades, de políticos, de profissionais dos meios de comunicação e um contingente que beirava 10 mil pessoas, todas pedindo que o prédio na Praia do Flamengo 132 não fosse derrubado",  lamenta, nos dias de hoje. As cenas ficaram para sempre na memória de Goldzweig. "Flagrei operários anônimos fazendo seu serviço, marreta em punho, a serviço de um governo que estava com seus dias contados".

Até a retomada do terreno, só os amigos mais próximos puderam ver as fotos tiradas na demolição de 1980. "Hoje com a retomada do terreno que pertence a UNE, onde por todo este tempo funcionou um estacionamento, abri a caixa de minhas memórias e mostrei aos estudantes acampados no terreno, que nós havíamos lutado como eles por um ideal", diz. "Perdemos naquela época, mas eles hoje venceram".

Os registros fotográficos que fazem parte do acervo de Márcio contam com quase 100 imagens. Os atuais integrantes da UNE vão se juntar ao fotógrafo e negociar com o Instituto do Patrimônio Histórico-Artístico Nacional a criação de uma exposição itinerante.

Veja as fotos da demolição da sede da UNE, em 1980: http://www.bricabrac.com.br/une1980



Fonte: Jornal do Brasil