Estudantes ocupam antigo terreno da UNE incendiado e demolido pela ditadura militar em 1964
Mande uma carta para: Praia do Flamengo, 132, Rio de Janeiro. Coloque dentro do envelope as suas propostas para mudar o Brasil. Escreva as suas sugestões para construir um ensino público, gratuito e de qualidade para todos. Conte as suas esperanças, prepare um manifesto, envie um poema ou desenho. Desde ontem (1º de fevereiro), a UNE está de volta ao seu antigo endereço.
A entidade recuperou sua casa após uma manifestação histórica pelas ruas da capital carioca. Os estudantes ocuparam o terreno que foi incendiado pela ditadura militar em 1964 e onde, recentemente, funcionava um estacionamento irregular. Participaram da retomada ex-presidentes da UNE de diversas épocas. Eles mostraram que, realmente, os bons filhos à casa tornam.
Não foi uma ocupação violenta, apesar da força que, rapidamente, derrubou o portão do estacionamento. Os milhares de jovens de todas as regiões do país chegaram com tambores, balões e músicas em uma grande CULTURATA, passeata artística que encerrou a 5ª Bienal.

Assim que as grades caíram, o presidente da entidade, Gustavo Petta, comandou do alto do carro de som: ”Vamos entrar porque a casa é nossa, esta é a história do movimento estudantil brasileiro”. Com o lugar já todo ocupado, os estudantes levantaram bandeiras, cantaram o Hino Nacional e o Hino da UNE.

Entre as lágrimas e discursos, o escritor Arthur Poerner –autor do clássico “O Poder Jovem”– observava a festa. “A UNE está me obrigando a escrever mais um capítulo da história do movimento estudantil. Depois do dia de hoje, meu livro certamente precisará de uma nova edição”, disse ele ao Tá na Lapa.
VIZINHOS
Quem também observava tudo atentamente era o aposentado André Rosa, de 64 anos. Morador do prédio vizinho, ele se lembra do que aconteceu no dia em que fogo e metralhadoras destruíram a sede do movimento estudantil: “Eu vi o prédio em chamas”, disse.
O aposentado foi um dos muitos moradores que desceram dos prédios, acenaram ou aplaudiram das janelas. Tão exaltado quanto os jovens, ele disse que está ansioso para ver a sede reconstruída. “Lembro exatamente de como era, uma casa branca, bonita. Eu freqüentava muito o lugar por causa do Centro Popular de Cultura (CPC).
ACAMPAMENTO CULTURAL

Cerca de duzentos estudantes já estão acampados no lugar e prometem ficar até o inicio das obras. É o que diz Augusto Viana, aluno do curso de Direito em Betim MG. “A idéia é fazer uma ocupação solidária, além de nós que já estamos aqui, outros estudantes virão nas próximas semanas para um rodízio, é um momento histórico e todos querem participar”.
O Coordenador-geral da Bienal, Tiago Alves, um dos acampados, disse que o objetivo é fazer uma ocupação cultural do espaço: “Vamos montar uma lona e trazer grupos das comunidades, projetos dos pontos de cultura, enfim, fazer deste acampamento um local alegre e pacífico”.