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Cultura dentro do bolso – Especial ‘Que horas ela volta?’

que horas ela volta coluna

Hoje a coluna traz uma dica comentada sobre o filme da cineasta Anna Muylaert que já fez sucesso no mundo todo

Que horas ela volta provoca uma revolução a partir das sutilezas, por Cristiane Tada

Que horas ela volta?,filme escrito e dirigido pela paulistana Anna Muylaert  chega aos cinemas nacionais depois de sucesso fora do país, premiado em  importantes festivais (Sundance, Berlim).

Muito se fala no filme do protagonismo da empregada doméstica vivida por Regina Casé na personagem de Val, como se o foco da obra fosse nessa relação de trabalho. Mas a diretora Anna Muylaet afirma que é um filme sobre a maternidade. “É que a maior parte dos críticos são homens”, explica a confusão Anna Muylaert em debate sobre sua obra no Cinema Belas Artes em São Paulo.

Educação, maternidade e respeito são as temáticas do longa. Assuntos sérios, abordados sem perder a ternura  “eu gosto de falar de coisa séria dando risada”, afirmou.

A inspiração surgiu quando ela teve um filho e refletiu que na figura da babá haviam várias questões por trás como a desvalorização da mãe e da própria mulher. “Por um salário pequeno se faz todo o trabalho da mãe”.

Val é realmente a protagonista. “Quando a câmera foi para a cozinha esse olhar de lá para a sala do patrão foi natural. Eu nasci na sala e esse sempre foi o meu primeiro olhar, e no filme mudei isso”

A Val é aquela que conhecemos tão bem. Está na nossa casa, na casa da vizinha, do nosso chefe. Ela é carinhosa, cozinha, lava, passa, com amor.  Trabalhando para uma família em São Paulo, morando num quartinho no fundo, ela criou o filho da patroa enquanto enviava dinheiro para que irmã cuidasse da filha no Nordeste. Até que a filha Jéssica vem para São Paulo prestar vestibular.

E começa aí a quebra de paradigmas. Jéssica já vem do Nordeste empoderada como cidadã para tentar estudar na melhor universidade do país, na condição igual ao filho da dona da casa.

Feminista sem levantar bandeira, engajado sem glamourizar a pobreza ou a riqueza. O filme de Muylaert não tem maniqueísmos ou culpados. A diretora afirma que as suas sutilezas e a tentativa de não julgar os personagens foram uma perseguição constante que pode ser vista na delicadeza da vilã – que veste a carapuça sem realmente abraçá-la – na fragilidade dos homens em relação às personagens mulheres, dando visibilidade à doméstica a colocando como ponto central na narrativa.

Apesar da sutileza é um filme incômodo e cheio de constrangimento. As pequenas humilhações, pequenas violências, e hipocrisias são mostradas no dia a dia, e fazem principalmente as mulheres se inquietarem na poltrona.

O problema na trama é muito maior do que os personagens pedirem que a empregada pegue até mesmo um copo d’água para eles, a questão é como se deixa a cargo de outra pessoa a criação dos próprios filhos. “Como é que vamos criar os nossos filhos? Como eles vão crescer sem nenhuma ligação com as mães?”, questiona a diretora.

Para Muylaert a mulher mudou, mas a sociedade machista continua e precisamos falar sobre isso.

O tratamento de relação de cidadã de segunda categoria, considerada como “membro da família”, as regras de classe veladas, tudo isso fazem de Que horas ela volta? um espelho do nosso país. E repercutiram essa cultura internacionalmente por onde o filme passou.

Questionada sobre os avanços sociais no Brasil a diretora afirma que o processo é irrevogável. E brincou: “O momento social brasileiro é: Jéssica [filha da empregada] pulou na piscina e a Dona Bárbara [patroa] mandou tirar”.

Serviço:

O que? Filme Que horas ela volta, de Anna Muylaert

Onde? Em cartaz nos cinemas brasileiros.

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