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MANIFESTO DA 9ª BIENAL DA UNE: #VOZESDOBRASIL

Qual terá sido a primeira palavra, flechada da primeira boca de um navegante de além-mar, em direção à primeira ou ao primeiro índio que o ouviu? Qual terá sido o primeiro e incomunicável diálogo entre a fala da terra e o português castiço, em um descobrimento do novo, dos códigos e decodificações simbólicos do mundo real? Qual foi a primeira compreensão ou incompreensão do que se diz nesse Brasil universo, nessa babel de gentes, misturas, sons, vozes e expressões?

O encontro de mundos possibilitou o surgimento da amálgama brasileira que teve no seu esboço insurgências, resistências e lutas entranhadas na formação cultural do povo brasileiro. Os povos indígenas e africanos, deslocados de seu modo de vida para atender as necessidade de uma metrópole colonizadora, resistiram em senzalas e em seus territórios para manter suas expressões culturais frente à adaptação da difícil realidade, marcando no peito a cultura brasileira.

A língua é a face de um povo, é o desenho do seu rosto. Por consequência, um povo tão essencialmente em construção, como o brasileiro, é representado por uma língua continuamente construída, inacabada, montada por encontros, trocas e colorações inesgotáveis. A Bienal da UNE, maior festival estudantil da América Latina, que carrega há 16 anos a missão de desvendar os elementos formadores do povo brasileiro, alcança sua nona edição na busca pelas muitas vozes de um país rico e diverso. Amplifica a polifonia que se harmoniza na frequência marcante da brasilidade.

O festival será celebrado no verão de 2015, na cidade do Rio de Janeiro, como um caminho para a investigação criativa do que se diz, se ouve, se escreve e se lê no Brasil no correr dos tempos. Seja na literatura nacional, na música, no teatro, nas vozes das línguas indígenas e negras que nos compõem, nas formas canonizadas ou populares de interlocução, a língua é um elemento de unificação e, simultaneamente, renovação da identidade nacional.

Sob o tema “#VozesdoBrasil” a Bienal endossa a reflexão sobre a língua tanto da perspectiva histórica como da atual, permitindo os olhares diacrônico e sincrônico sobre o que dizemos, como dizemos e porque dizemos. Sua busca percorre tanto a língua portuguesa como a tupi, a iourubá e a guarani. Também alcança a língua italiana, a japonesa, a alemã e as outras vieram com as migrações. É também língua dos sotaques e regionalismos, do nordestino e do sulista, de cada canto do país. Nesse sentido, o festival é um convite às diferentes propostas e teorias sobre a linguagem no Brasil, sobre a variabilidade linguística e seus diferentes registros, sobre a relação da fala e da escrita com os diferentes lugares sociais de um país ainda marcado por fortes desigualdades.

A língua da Bienal é aquela dos livros e também aquela das ruas, a língua de uma redação escolar ou a de uma postagem na rede social, a língua do morro e do asfalto, do certo e do errado que se transformam rapidamente em errado e certo a cada diferente interação, a língua viva, real, inventiva, mutante como uma eterna crisálida de fonemas, morfemas, palavras, frases e discursos. As vozes da Bienal da UNE cantam a flor do Lácio e tantas outras da nossa própria flora, sempre culta e sempre bela, sempre múltipla, sempre brasileira.

A literatura nacional terá grande destaque dentro do festival, com referência e reverência aos brilhantes da prosa e do verso que buscam traduzir – cada qual à sua maneira – o Brasil em suas obras. Desde a carta de Pero Vaz de Caminha, considerada por alguns o primeiro texto nacional, ao heroísmo indígena de José de Alencar, o caminho realista urbano de Machado, a reviravolta antropofágica dos poetas modernistas, a genialidade semântica de Guimarães ou narrativa de Clarice, o que se extrai da literatura brasileira é o memorial eterno de um povo em seu trajeto de emancipação.

A Bienal chega ao Rio da Academia Brasileira de Letras e da Biblioteca Nacional, o Rio da gíria poética das favelas, das invenções linguísticas do funk, do rap e do samba, o Rio das narrativas imortais de Machado de Assis e tantos outros, o Rio da língua portuguesa e também da francesa, inglesa, holandesa e de tantas outras que o visitam, o Rio que completa 450 anos com uma multiplicidade de falas e sentidos tão própria do Brasil. O festival também abre espaço para o intercâmbio cultural e linguístico com o universo da lusofonia e os demais países do mundo que compartilham da nossa língua.

Essa será também a Bienal das conexões. Do ponto de vista temporal e tecnológico, as vozes e expressões dos sujeitos em rede são uma das principais marcas da revolução das comunicações humanas nas últimas décadas. A internet, as redes sociais, os smartphones e dispositivos móveis – amplamente consolidados junto à juventude brasileira – permitem a afirmação de ideias, o compartilhamento de saberes, críticas, a invenção de novos comportamentos da práxis viralizados a cada nova clicada.

As vozes, reverberadas pela UNE em um evento com milhares de estudantes de todas as regiões brasileiras, são um instrumento artístico e político, são a expressão que marca o nosso lugar no mundo. A língua é um espaço de afirmação e também um espaço de disputa, de conflitos e posicionamentos, atravessada pelos diferentes sujeitos que dela se apropriam. Portanto, as vozes da Bienal da UNE são também as vozes daqueles que bradam, que demandam, são as vozes das brasileiras e brasileiros em luta no decorrer dos tempos, as vozes da juventude, do povo organizado, das nossas reivindicações, sonhos e esperanças.

São as vozes de tempos em tempos que transmitiram e transmitem a resistência dos que lutam. É essa a história dos griôs e da oralidade repassada pelos ancestrais da tradição afro-brasileira, é essa a gênese dos verbos e provérbios populares, do repente e do cordel nos interiores, das vozes do hip hop e dos MCs das grandes cidades, da poesia urbana, das intervenções criativas no espaço público, das mensagens em cartazes ou pintadas em estêncil nas esquinas do cotidiano. Foram as vozes dos movimentos populares que resistiram à mordaça da ditadura militar brasileira, que tentou calar sobretudo os mais jovens. Foram as vozes dos cara-pintadas que derrubaram um presidente da república, as vozes de junho de 2013 que levantaram todo um país na luta por mais direitos e participação.

As vozes de luta, as vozes da poesia, as vozes da festa, as vozes da UNE são as vozes que desejam chegar cada vez mais longe. Qual terá sido a última palavra inventada por um falante do Brasil? Qual terá sido a mais nova expressão, nascida neste exato segundo em um bate papo qualquer? Qual a próxima frase que mobilizará multidões, a próxima palavra de ordem, a próxima hashtag, o próximo hino de uma geração, qual o nome daquilo que ainda nos falta, daquilo que nos mantém seguindo em frente?

São muitas as vozes. E um só Brasil.

União Nacional dos Estudantes
São Paulo, 15 de Outubro de 2014.

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