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"DIA 29 DE AGOSTO: DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE LÉSBICA", POR LARISSA PASSOS

Para a sociedade respeitar a diversidade, precisa tornar visível aquelas que foram ocultadas

“O sujeito não é reprimido pela sujeição, pelo contrário, é criado por ela; a pecinha desse sistema de engrenagens é abandonada “à sua própria, vontade”, adquirindo, “autonomia”, e isso não causa nenhum prejuízo ao funcionamento do maquinário – se a pecinha, que fique claro, não estiver defeituosa… – uma vez que aquela “vontade” é já determinada pelos próprios mecanismos das engrenagens. E se alguma função apresenta defeito, o “controle de qualidade” da sociedade (o ARE – como sistema de repressão institucional) toma as providências repressivas adequadas: correção, isolamento ou eliminação.” (QUINTELA & MAYER)

Em uma sociedade como a brasileira, constituída e estruturada pela diversidade, dentre elas, a sexual, um dos temas que ocupa cada vez mais destaque nas discussões é o da garantia dos direitos das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBTT. O incentivo ao reconhecimento da diversidade sexual deve ser vista como um direito e não uma concessão à classe LGBTT, para as políticas educacionais, práticas docentes, processos de aprendizagem e relações sociais.

Dada à realidade dos dias atuais, é cada vez mais visível a nova proposta que vem emergindo, de um novo olhar sobre a educação, o social e as relações de gênero, que visa romper com a perspectiva heterossexista. Numa linha onde o masculino deixa de ser o ponto de referência, para que assim possa-se pensar em mulheres de diferentes classes, raças, religiões, idades, e orientações do desejo, inclusive dos desejos sexuais.

É valido lembrar que mulheres lésbicas e bissexuais, antes de identificar sua homossexualidade, são formatadas como mulheres, membro de uma sociedade de e com gênero, onde a divisão masculino-feminino é simétrica e complementar, porém, na prática se perpetuam assimétricas e desiguais. Onde o espaço público – política, trabalho, uso da rua, autoridade do estado, predação sexual – é do masculino, e o espaço privado – casa, família, reprodução, educação, prestação de cuidados, recato sexual – é do feminino.

Muitas mulheres não têm suas histórias contadas, pois, nossa sociedade ainda tem suas raízes fixadas no heterossexismo e patriarcado, e para destruir estas raízes, torna-se necessário a ampliação dos espaços sociais para a expressão da diversidade e criação de políticas públicas para ocorrer às mudanças desse paradigma.

A invisibilidade das mulheres foi construída na sociedade através de múltiplos discursos, e das mulheres lésbicas e bissexuais de forma mais invisível, uma vez que as relações de afetividade eram consideradas práticas culturais do universo feminino. Nesta sociedade heteronormativa e patriarcal a mulher possui um padrão que preestabelece suas características: como se portar nos espaços sociais de acordo com cada idade; casar e ter filhos, cuidar da casa, do marido, dos filhos/as. O espaço familiar é o inicio do sistema repressor que impõe este modelo que estruturam as formas de sobreviver, se inserir na sociedade e a primeira é a auto-invisibilização nos espaços de convivências sociais. Esta lógica que pressupõe a valorização das relações heterossexuais em detrimento das “outras”, inicia na família e nos outros espaços na forma de normatizadas e naturalizadas. A escola se classifica como o espaço de punir e reformar as/os desviantes das ordens do sistema.

Essa pressuposição estrutural apresenta problemas que afeta diretamente a vida das mulheres lésbicas e bissexuais, na questão da saúde de seu corpo, a relação sexual com sua parceira por não gerar filhos/as, tem os procedimentos ginecológicos inviabilizados, mas, a secreção vaginal e o sangue são veículos para transmitir as doenças sexuais. Como também o câncer de mama, que assim como muitas outras mulheres, escolhem não exercer a maternidade, e segundo estudos, o não estimular das glândulas mamárias pode facilitar o aparecimento de câncer. Falar da saúde da mulher lésbica e tornar todas as mulheres visíveis socialmente e principalmente para o Estado, e a ignorância e o descaso médico em relação à diversidade da sexualidade não pode ser mais aceita.

Mulheres são constantemente diminuídas e sofrem violências diversificadas, as lésbicas e bissexuais são tidas como aquelas que não encontraram ainda um “homem de verdade”; que querem “atrair as atenções”; estar “passando por uma fase de experimentação”; sofreu algum “trauma” ou “violência sexual”; ou mulheres “feias”, “gordas”, “mal amadas”, “mal comidas” se tornam lésbicas; sua relação é vista como “um fetiche para o homem”, e um convite pra “um ménage”. O que geram os estupros corretivos e coletivos a estas, que em sua grande totalidade são invisibilizada, no momento de registro da ocorrência, que apenas registra-se a palavra estupro, configurando uma ação machista e não é somada a essa ação o motivo real, a lesbofobia que é o ódio e aversão à relação entre duas mulheres.

Partindo desse ponto, onde as relações de afetividades (abraços, beijos, mãos dadas e etc) entre mulheres são consideradas algo particular ao universo feminino, percebeu que, a sexualidade entre as lésbicas e bissexuais não é o problema ou incomodo a sociedade, o que não é permitido é a quebra da ordem patriarcal, a destruição da heteronormatividade compulsória, a perda do domínio dos homens sobre as mulheres, e a concepção de família baseada nos princípios religiosos. E concluo que o aprisionamento, das lésbicas e bissexuais, e construção do medo que se apresenta na forma do silêncio, são devido ao fato de que assumir sua orientação sexual, significa afrontar o sistema, que responde com agressões verbais, físicas e a exclusão dos espaços sociais, principalmente, o familiar.

São os processos sociais heteronormativos e patriarcais que fundamentam essa invisibilidade, pois eles naturalizam e/ou normalizam a forma das pessoas se relacionarem e viverem sua sexualidade. É necessário à implementação de políticas públicas na prevenção e combate à homofobia na Educação brasileira (Universidades, Institutos Federais e Escolas). A Educação é estratégica para a construção de uma sociedade igualitária e que respeite a diversidade sexual.

Discutir a visibilidade lésbica é apresentar o sistema onde vivemos e problematizar o lugar que a sociedade coloca a mulher, identificar o machismo e as relações desiguais de gênero. Só com a desnaturalização e superação das relações desiguais que estruturam nossa cultura e o Estado.

Finalizo fazendo um ato político que busca transcender o conceito de identidade sexual, visando à desconstrução da heterossexualidade compulsória, da heteronormatividade que estrutura todas as condutas da vida e corpo da mulher na sociedade, afirmando: Sou lésbica, protagonista de minha vida, organizada na militância política feminista, que explica a estruturação e aglutinação das opressões e que constrói coletivamente formas de enfrentamento ao fundamentalismo religioso, machismo, heterossexismo e patriarcado. O silêncio reforça, alimenta e estimula o preconceito, contra uma globalização do machismo, racismo e lesbofobia, uma revolução FEMINISTA!

*Larissa Passos é 1ª Diretora LGBTT da UNE

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