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Opinião: Dormindo com o inimigo

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Lamentável ainda assistirmos esse tipo de violência em pleno século XXI. Lamentável isso acontecer no Congresso da UNE. Lamentável que parcelas da juventude que se dizem de esquerda, que dizem buscar uma nova sociedade, alimentem práticas como essas.

Mal sabíamos nós, que os que dividiram conosco alojamentos, filas de alimentação, plenárias e festas, eram, na verdade, os agressores.

Se os gritos de ofensas que ouvimos no 52º Congresso da UNE foram mais uma tentativa de silenciar mulheres de luta, não deu certo. As mulheres presentes naquele grupo de debate eram amazonenses.

Segundo a mitologia grega, as Amazonas eram integrantes de uma nação de mulheres guerreiras, associadas com diversos povos históricos ao longo da Antiguidade. A partir do período moderno, seu nome passou a ser associado com quaisquer mulheres guerreiras, e hoje o termo é utilizado para se referir a mulheres que montam a cavalo, participando de provas de equitação em destreza ou salto.

O explorador espanhol Francisco de Orellana, desbravando a floresta tropical sul-americana, em 1541, afirmou haver lutado com mulheres guerreiras que, das margens do rio, disparavam-lhes flechas e dardos de zarabatanas, tanto que a região ganhou esse nome – Amazonas.

Verdade ou não, o mito se faz realidade! Toda vez que, inspiradas pela bravura das Amazonas ou forjadas pela necessidade de lutar, mulheres de Norte a Sul do Brasil, da Grécia ou do Egito, declaram suas indignações, senão com flechas e cavalos, mas com discursos e mobilização. Seja para garantir autonomia e soberania de seu povo, seja para que os direitos conquistados não retrocedam seja para deixar bem claro que sexo frágil, é, no mínimo, uma expressão equivocada.

E assim foi. Na plenária final do congresso, essas mulheres organizaram outras tantas companheiras, cartazes, faixas, palavras de ordem. Não houve um estudante sequer que não tenha ouvido o grito dessas guerreiras.

Sabemos, infelizmente, que centenas de mulheres, que enfrentam diversas dificuldades para se fazer presente no espaço machista e excludente da política, são vítimas dessa violência todos os dias. Seja em reuniões, na militância cotidiana, ou nos espaços públicos.

Aos que saborearam pequenas vitórias ao excluir e por em dúvida a capacidade feminina, respondemos com amargor na saliva: sentimo-nos envergonhadas ao testemunhar tais práticas.

Assim como fizemos em Goiânia, não admitiremos qualquer violência, não nos sujeitaremos à imposição do medo da agressão, da voz que fala mais alto. Não pouparemos esforços para construir ao lado (não à frente, não atrás) dos companheiros, uma sociedade economica, social e culturalmente justa para todos e todas!

Que o 52º Congresso da UNE fique marcado pela presença forte e coerente das mulheres, que não se furtam da luta e constroem, com discurso e prática, uma nova sociedade.

*Beatriz Calheiro é estudante de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e presidente da União estadual dos Estudantes do Amazonas (UEE-AM).

**Eleonora Rigotti é estudante de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Centro e Circuito Universitário de Cultura e Arte (CUCA) da UNE.

por Beatriz Calheiro* e Eleonora Rigotti**

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